Ligas de futebol enfrentam dificuldade e CBF retoma protagonismo

FFU (Futebol Forte União) e Libra perdem poder de atração, times reclamam e Confederação Brasileira de Futebol ganha poder

As ligas de futebol profissional formadas há alguns anos no Brasil começam a perder força, enfrentam dificuldades por causa da insatisfação de parte dos clubes e a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) voltou a ganhar protagonismo para comandar o negócio esportivo mais lucrativo do país.

O Brasil tem hoje duas ligas de futebol: a FFU (Futebol Forte União), criada em 2022, e a Libra (Liga do Futebol Brasileiro). Ambas surgiram com a proposta de profissionalizar o esporte no país, produzir mais lucros para os times e reproduzir modelos bem-sucedidos como os existentes, entre outros países europeus, na Espanha (La Liga) e na Inglaterra (Premier League). Nos últimos meses, entretanto, os 2 blocos tiveram fissuras que revelaram a fragilidade de suas operações. 

O infográfico a seguir mostra como cada uma das duas ligas brasileiras está estruturada:

O Palmeiras, um dos maiores clubes do Brasil, anunciou sua saída da Libra em 5 de maio de 2026. Em comunicado, a diretoria do clube informou que “atitudes egoístas, quando não predatórias, inviabilizaram” sua permanência no bloco, que agora conta com 14 times: Flamengo, São Paulo, Bahia, Bragantino, Grêmio, Remo, Santos, Guarani, Paysandu, Brusque, Ferroviária, Volta Redonda, ABC e Sampaio Corrêa. Eis a íntegra (PDF – 109 KB) do comunicado do Palmeiras.

A decisão do clube paulista se deveu a um desgaste causado por um acordo paralelo entre Flamengo e Grêmio. Para garantir o apoio do clube gaúcho em votações internas e garantir a continuidade de um contrato bilionário com a Globo, o Flamengo se comprometeu a repassar R$ 24 milhões ao Grêmio (R$ 6 milhões anuais, durante 4 anos) fora da liga. Essa movimentação, vista como uma tentativa de comprar votos, foi considerada pelo Palmeiras uma quebra de princípios e um exemplo de gestão predatória que inviabilizou a permanência alviverde no grupo.

Há também um aspecto pouco mencionado e até negligenciado pelos clubes: a exposição da marca de cada um deles quando um jogo é transmitido na TV aberta. Tome-se o caso de duas partidas pela Copa Libertadores, em 20 de maio de 2026: Palmeiras X Cerro Porteño e Flamengo X Estudiantes. Os jogos foram no mesmo horário e transmitidos pela TV Globo, parceira da Libra. Só que o confronto do Palmeiras só passou para os Estados de São Paulo e Paraná. Já o do Flamengo ficou ao vivo nos outros 24 Estados e no Distrito Federal. 

Tanto Palmeiras como Flamengo têm um ganho indireto quando seus jogos são transmitidos nacionalmente –a marca fica mais conhecida e seus patrocinadores, mais satisfeitos por terem exposição maior. Ocorre que a TV Globo (empresa cuja sede é no Rio) é dona da decisão de onde passar cada partida. Ainda que o Flamengo tenha a maior torcida do Brasil, nunca há uma explicação técnica para essa equipe sempre estar com suas partidas ao vivo na TV Globo em número muito maior de Estados do que as demais agremiações.

A Libra poderia atuar para oferecer um tratamento de exposição de imagem mais equânime aos times na TV aberta. Só que isso não ocorre. Não por acaso, o Palmeiras deixou o grupo.

O esvaziamento da Libra é só uma faceta do problema da organização profissional do futebol nacional. O projeto de criação de ligas enfrenta hoje um cenário de naufrágio coletivo. Enquanto a Libra sofre com disputas de poder e acordos paralelos que minam a confiança interna, a FFU enfrenta um movimento de clubes que reclamam de como o grupo é gerenciado por dizerem enxergar uma asfixia financeira de seus associados. 

O modelo financeiro da FFU passou a enfrentar questionamentos também no Judiciário. Em maio de 2026, a Justiça do Distrito Federal suspendeu repasses a clubes vinculados ao Condomínio Forte União (CFU), estrutura jurídica criada para viabilizar a negociação coletiva de direitos de transmissão.

A decisão atendeu a uma ação do Sinafut (Sindicato Nacional das Associações de Futebol Profissional), que acusou a investidora Sports Media Entertainment de usar os repasses financeiros como mecanismo de pressão sobre os clubes, condicionando pagamentos à assinatura de documentos internos e à desistência de ações judiciais.

MODELOS DE OPERAÇÃO

Na prática, Libra e FFU funcionam como blocos de negociação: os clubes se juntam e autorizam cada liga a representar seus direitos comerciais do Campeonato Brasileiro de Futebol. Esses direitos incluem transmissão de TV aberta e fechada, streaming e pay-per-view, mas podem envolver também patrocínios, placas de publicidade, licenciamento de marcas, dados estatísticos, conteúdos digitais e outros ativos comerciais ligados ao campeonato.

Até a formação da Libra e da FFU, as negociações dos direitos comerciais do Campeonato Brasileiro eram conduzidas de forma fragmentada. Em muitos casos, cada clube negociava individualmente seus contratos com emissoras e plataformas. O modelo concentrava força nos times de maior audiência.

Os 2 blocos, no entanto, operam sob lógicas financeiras distintas. A Libra escolheu um modelo sem investidores externos. Os clubes mantêm a propriedade dos ativos e usam o bloco como estrutura coletiva para negociar com emissoras, plataformas digitais e patrocinadores. Nesse formato, o dinheiro entra conforme os contratos comerciais são fechados e executados. Foi com esse modelo que o bloco chegou ao acordo de R$ 6 bilhões com a Globo para a venda dos direitos do Brasileirão de 2025 a 2029.

Já a FFU adotou uma estratégia de capitalização imediata. Os clubes cedem parte das receitas futuras a investidores privados em troca de aportes financeiros no curto prazo. É uma forma de antecipar receitas que só seriam recebidas ao longo dos próximos anos.

Em 2023, os times da FFU fecharam um acordo para ceder até 20% das receitas futuras de seus direitos comerciais do Campeonato Brasileiro por 50 anos, em uma operação de cerca de R$ 2,6 bilhões. O contrato foi assinado com a Sports Media Entertainment S.A, empresa com sede em Curitiba (PR) criada para estruturar a operação. 

O modelo de negócio da FFU tem desagradado alguns clubes menores, que assinaram os contratos sabendo como tudo seria organizado, mas agora parecem ter se arrependido. Segundo parte dos times da FFU, essa estaria impondo uma asfixia financeira que compromete o fluxo de caixa a longo prazo. 

Outra queixa dos clubes da FFU é a concentração de funções da agência comercial LiveMode. Dirigentes de parte dos clubes da FFU argumentam que há conflito de interesses na atuação tripla da empresa: a LiveMode atua como agência que define os preços de venda, como cotista do fundo que empresta o dinheiro aos clubes e como dona da CazéTV, que transmite as partidas. Na visão dos clubes, essa estrutura permite que a empresa negocie os direitos com ela mesma, priorizando a valorização de sua própria plataforma de streaming em vez de buscar o maior valor de mercado para os times.

Em resposta enviada ao Poder360, o Condomínio Forte União afirma que a negociação durou meses e “teve o mesmo nível de escrutínio de fusões e aquisições feitas em empresas de capital aberto”. O CFU também declara que, além da representação coletiva, muitos clubes tiveram seus advogados internos, executivos e diretores estatutários discutindo cláusula.

Em relação às críticas contra a atuação da LiveMode, a CFU argumenta que a contratação da empresa como agência comercializadora dos direitos da Série A foi aprovada pelos clubes por unanimidade e que “o contrato assinado pelos clubes é com o Google, uma das maiores empresas em valor de mercado do mundo, tendo este optado por distribuir o conteúdo via CazéTV”.

A avaliação da liga FFU é de que há um certo descontrole de parte dos clubes, que nunca atuaram profissionalmente como empresas e agora têm dificuldades para atuar nas condições que eles próprios aceitaram.

CBF DE VOLTA

Enquanto as ligas enfrentam impasses internos e deserções, a CBF recupera espaço institucional. A confederação passou por um longo período de instabilidade política e jurídica, marcado pelo afastamento sucessivo de presidentes desde 2012. 

Ricardo Teixeira foi banido pela Fifa em abril de 2019 num caso em que houve uma investigação sobre suborno. José Maria Marin (1932-2025) foi preso em maio de 2015, no escândalo conhecido como “Fifagate”. Marco Polo Del Nero foi banido pela Fifa em abril de 2018 sob a alegação de ter cometido corrupção. Rogério Caboclo foi afastado da presidência da CBF em junho de 2021, depois de ser citado num caso de assédio moral e sexual (ele negou ter cometido esses delitos). Mais recentemente, em 15 de maio de 2025, Ednaldo Rodrigues também foi removido do cargo por decisão do TJ-RJ, tornando-se o 5º presidente afastado nos últimos mandatos.

A chegada de Samir Xaud à presidência da CBF, em maio de 2025, prometendo uma gestão estável, culminou no avanço da CBF sobre a fragilidade das ligas. Xaud tem criticado abertamente os resultados comerciais dos blocos, afirmando que “alguns valores negociados não foram bons”. Cita, em específico, o contrato da Série B.

O posicionamento público de Xaud atraiu clubes que se sentiam desamparados, como São Bernardo e Náutico, que procuraram a CBF para vender seus jogos de forma independente, sob a chancela da confederação. Em evento realizado em 7 de maio de 2026, em Fortaleza, Xaud disse: “Acreditamos que não existe liga sem a CBF, que é quem cuida e zela pelo futebol brasileiro”.

O dirigente tem dito que a dificuldade da Libra e da FFU para construir consenso demonstra a necessidade de uma organização mediadora forte. Em 6 de abril de 2026, Xaud organizou uma reunião, na sede da CBF, com os 40 clubes das Séries A e B. A confederação apresentou um estudo sobre a adoção de uma liga única e ofereceu um cronograma institucional que os blocos não conseguiram estabelecer. A CBF fixou um prazo até julho deste ano de 2026 para receber propostas sobre o tema. A meta de oficializar o estatuto de uma nova liga sob sua tutela até o fim deste ano. 

O problema maior desse modelo oferecido pela CBF é como os clubes que assinaram contratos de longo prazo com as ligas fariam para romper esses compromissos. Há obrigações financeiras a serem cumpridas e a solução não será trivial.

Financiamento da FFU

O sistema de financiamento da FFU é intrincado. Para viabilizar o aporte de R$ 2,6 bilhões na liga, a Sports Media Entertainment S.A. estruturou uma operação baseada na emissão de R$ 3 bilhões em debêntures –títulos de longo prazo. O controle da companhia é dividido entre 2 fundos: o LCP Private Equity 1 (70,97% das ações) e o LCP Private Equity 2 (29,03%). Eis as íntegras (PDF – 73 KB) e (PDF – 72 KB).

É difícil entender exatamente a origem do capital da FFU. Esse é um dos pontos de maior atrito do grupo com parte dos clubes. Documentos apontam que a estrutura abriga 5 investidores estrangeiros não residentes no Brasil e duas pessoas físicas cujas identidades permanecem protegidas por sigilo. Eis as íntegras do informe (PDF – 142 Kb) do último quadrimestre de 2025 da LCP Private Equity 1 e do informe (PDF – 142 Kb) do mesmo período da LCP Equity 2.

As debêntures foram adquiridas por 3 frentes principais –e mostram conexões com fundos e cotistas com problemas no mercado financeiro:

Miller Fundo de Investimento: Comprou R$ 757 milhões em debêntures, mas foi encerrado liquidado em agosto de 2025. O fundo era administrado pelo Trustee DTVM, investigado na operação Carbono Oculto e registrado no nome de Maurício Quadrado, que tem ligações com o Banco Master (foi sócio do banco de setembro de 2020 a setembro de 2024 e comandou a área de investimentos da instituição). Eis a íntegra (PDF -113 kB) da carteira de fundos.
Opea Securitizadora: Atua na estrutura sem que seus cotistas finais tenham sido divulgados até o momento. Eis a íntegra (PDF – 149 kB) do documento da emissão de debêntures lastreadas na Sports Media pela Opea. 
Sports Media Futebol Brasileiro: O veículo mais complexo, alimentado por diversos fundos, incluindo o SMF Fundo de Investimento, e o Sports Media Futebol Brasileiro Advisory, ambos geridos pela XP Allocation Asset Management, além do Exa Mídia Fundo, que tem entre seus cotistas o Astralo 95 —administrado pela Reag Trust, investigada na Carbono Oculto por suspeitas de lavagem de dinheiro. É também nessa frente que a agência LiveMode figura como cotista. Eis as íntegras das carteiras de fundos da Astralo 95 (PDF – 354 kB) e da Exa Mídia  (PDF – 110 kB).

A LiveMode Serviços Digitais tem posição estratégica nessa operação. É a agência vendedora e também cotista direta do veículo Sports Media Futebol Brasileiro, participando da estrutura de investimento ao lado da LCP.

Nenhuma operação da FFU tem indícios de ilegalidade. As empresas são públicas, mas como se trata de um empreendimento privado, nem tudo precisa ser divulgado em detalhes. Aparentemente, parte dos clubes menores dessa liga não se deu conta de como seria o funcionamento do grupo quando assinaram os contratos.

Segundo o CFU, “toda a operação de captação foi feita respeitando a legislação vigente e conduzida com lisura”.

GARGALO NA SÉRIE B

A insatisfação é crescente entre os 18 clubes da Série B integrantes da FFU. Em comunicado conjunto de 6 de fevereiro de 2026, agremiações como América-MG, Ponte Preta, Ceará, Sport e Goiás expressaram o que chamam de “profunda preocupação” com a governança da liga. Leia a íntegra (PDF – 73kB)

Os clubes insatisfeitos chamam de “asfixia” o que acontece com o fluxo de caixa de algumas agremiações da FFU. O caso do Vila Nova serve como exemplo. O clube vendeu 15% de seus direitos e projetava uma receita de R$ 5,5 milhões em 2025, mas o valor líquido foi corroído por taxas de intermediação, repasses de volta à Sports Media e o mecanismo de “earn-in” (ajuste de participação do investidor conforme metas de receita). Para honrar seus compromissos, a equipe precisou de um socorro financeiro de R$ 2,8 milhões proveniente de um fundo de subsídio da Série A.

Segundo o CFU, os acordos foram firmados após “amplo e democrático debate” e “resultaram na maior injeção financeira da história do futebol brasileiro –mais de R$ 2 bilhões”. 

“Todos foram bem assessorados numa negociação equilibrada e transparente”, declara a estrutura jurídica da FFU.

Em entrevista ao Poder360, o presidente do Operário (PR), Álvaro Góes, expõe seu arrependimento com os termos que ele próprio assinou. Embora tenha concordado com o contrato em 2023, Góes agora questiona a falta de esforço comercial para a Série B. “O campeonato da Série B não está nem aí. Nós somos sempre um patinho feio na hora de fazer volume e dar voto, mas na hora do ‘bem bom’ são só os times de Série A”, afirma.

A crítica do dirigente reflete um erro de cálculo entre clubes que, pressionados por dívidas imediatas, aceitaram termos de longo prazo (50 anos) sem prever o peso das taxas –tudo estava no contrato original. “Recebi uma mixaria de dinheiro; em 2 anos de contrato, só de comissão esses caras já pegaram o dinheiro que me deram”, diz Álvaro, que hoje trabalha para que o Operário possa romper o vínculo com a FFU. 

O dirigente do Cuiabá, Cristiano Dresch, afirma em entrevista ao Poder360 que falta transparência e credibilidade sobre as verbas da liga: “No afã da necessidade de dinheiro, os caras acabaram pegando recurso de qualquer um sem analisar a origem. Saber que parte do dinheiro que comprou os direitos veio de um banco investigado em um dos maiores casos de corrupção do país é terrível. O negócio perdeu totalmente a credibilidade”, declara Dresch.

O Operário vendeu, quando estava na Série C, 10% de seus direitos por 50 anos por R$ 4 milhões; o Vila Nova, na Série B, vendeu 10% por 16,3 milhões; e o Cuiabá, também na Série B, vendeu 10% dos direitos por R$ 30,2 milhões. No total, todos os clubes da Série B que estão no bloco da FFU receberam juntos cerca de R$ 890 milhões pela venda de parte dos direitos de TV.

A Sports Media Entertainment afirma, em comunicado, que suas operações foram legais e transparentes e “repudia declarações desprovidas de embasamento”. A companhia diz que “age sempre de acordo com a legislação vigente no país”.

Procurada pelo Poder360, a Libra não quis se manifestar nesta reportagem.

Leia mais:

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-sportsmkt/ligas-de-futebol-enfrentam-dificuldade-e-cbf-retoma-protagonismo/

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