Saiba quem é o general pirata admirado por China, Taiwan e Japão

Figura histórica do século 17 expulsou colonizadores holandeses de Taiwan e tem memória disputada por chineses e taiwaneses

O principal foco de tensão na Ásia Oriental é entre China e Taiwan. Enquanto os governos chinês e taiwanês têm interesses antagônicos no que diz respeito à independência da ilha, outros atores do continente monitoram a situação. O caso mais claro é o do Japão, que afirmou em 2025 que iria interferir caso os chineses atacassem Taiwan. A declaração do governo nipônico irritou o governo chinês.

Diante desse contexto, é difícil imaginar que existe uma figura considerada um herói nacional pela China e por Taiwan, além de ter uma grande admiração dos japoneses. Essa figura é Zheng Chenggong (1624-1662), conhecido pelo seu nome ocidental Koxinga. Foi um líder militar que lutou contra a invasão Manchu sobre a última dinastia chinesa de etnia han e que no meio desse conflito expulsou colonos holandeses de Taiwan.

Sobre Koxinga, paira uma disputa de seu legado histórico entre China e Taiwan, principalmente em relação à independência da ilha. Para os chineses, o líder militar expulsou os colonizadores holandeses e recolocou a ilha sob a esfera de influência han, enquanto os taiwaneses enxergam em Koxinga um símbolo de libertação de Taiwan contra opressores.

UMA BREVE HISTÓRIA DE KOXINGA

Koxinga nasceu em 1624 em Hirado, na província de Nagasaki no Japão. Seu pai era um proeminente mercador chinês chamado Zheng Zhilong e sua mãe era a japonesa Tagawa Matsu. Ele viveu no Japão até os 7 anos, quando passou a morar na província chinesa de Fujian, onde sua família era uma das mais influentes.

Nas guerras entre os manchu (da região da Manchúria que daria origem à dinastia Qing) e a dinastia Ming (que era da etnia han da qual mais de 90% da população chineas faz parte), a família Zheng lutou ao lado dos Ming. Isso até Zheng Zhilong decidir se aliar aos Qing em 1646, um movimento que Koxinga repudiou.

Koxinga seguiu leal à enfraquecida dinastia Ming e desenvolveu um ódio aos Qing depois da morte de sua mãe em 1647, em um ataque manchu à província de Fujian. Ele organizou uma das últimas resistências Ming à dominação Qing e construiu por meio de uma rede de contatos e influência uma Marinha poderosa que desafiava o domínio manchu sobre a costa chinesa.

Koxinga realizou diversas ações piratas para conseguir recursos e pressionar as cidades litorâneas que estavam sob governo Qing.

Em 1659, Koxinga liderou um ataque à Nanquim, mas foi repelido pelas tropas manchu.

Com o passar dos anos, Koxinga ficou sobrecarregado pelos avanços das forças Qing sobre Fujian e então teve uma ideia de onde poderia organizar uma nova resistência pró-dinastia Ming: atravessando o estreito até Taiwan. O problema era que Taiwan estava ocupada havia mais de 30 anos por colonos holandeses, que construíram fortes e tinham na chamada ilha de Formosa uma das províncias mais valiosas da VOC (sigla em holandês para Companhia das Índias Orientais).

Koxinga organizou suas tropas e partiu em março de 1661 para tomar a ilha dos holandeses.

Depois de batalhas navais e um cerco de 1 ano, tomou o forte de Zelândia depois de um acordo com o governador holandês de Taiwan, Frederick Coyett (1615-1687). Desde que desembarcou em Taiwan, as tropas de Koxinga tiveram apoio de grande parte da população local, que estava insatisfeita com os holandeses e ajudou na reconquista da ilha.

O feito mais impressionante foi ter derrotado os europeus na conquista dos fortes e em batalhas navais. Foi a 1ª vez que forças chinesas tiveram sucesso contra tropas europeias.

Koxinga morreu de malária aos 37 anos em junho de 1662, menos de 6 meses depois de ter conquistado Taiwan.

DISPUTA PELA MEMÓRIA NA CONSCIÊNCIA CHINESA E TAIWANESA

As maiores referências a Koxinga na China estão na cidade de Xiamen, de onde o líder chinês comandava a resistência contra a dinastia Qing.

Na ilha de Gulangyu, a cerca de 10 minutos de balsa de Xiamen, está posicionada uma estátua de 15 metros de Koxinga. Os locais afirmam que tirar uma foto próximo à estátua assegura uma dose extra de sorte.

Além da estátua há outras referências do militar e mercador chinês ao longo da ilha:

há um mural com poemas escritos por Koxinga e outra estátua do líder sobre seu cavalo ao lado de apoiadores;
também existe um museu dedicado a ele e à conquista de Taiwan. Nele, é possível entender um pouco do discurso chinês contra a independência de Taiwan sobre essa empreitada. No final da exposição, foi colocada uma placa em inglês que diz que os feitos de Koxinga são a pedra fundamental da causa de união de todos chineses –ou seja, da reunificação de Taiwan.

Eric Napoli / Poder360 – 17.mai.2026

“O fim Ao longo dos últimos 300 anos, a integridade nacional de Zheng Chenggong em sua luta contra a Dinastia Qing, seu espírito patriótico ao expulsar os invasores holandeses, sua reconquista de Taiwan e a destruição da hegemonia marítima estrangeira, bem como seu espírito pioneiro no desenvolvimento de Taiwan, tornaram-se valores espirituais comuns aos chineses, tanto no país quanto no exterior. A causa imortal que Zheng Chenggong iniciou em Taiwan é hoje a pedra fundamental da causa unida de nossa nação. O espírito do herói nacional ainda pulsa, para frente e para trás, na poderosa maré do mar “

KOXINGA & TAIWAN

Já para Taiwan, a representatividade Koxinga é diferente.

A expulsão dos holandeses sob o comando do líder chinês é considerada a expressão máxima de luta pela liberdade da população contra um inimigo opressor, que pela ótica do governo taiwanês, é hoje o Partido Comunista da China.

Quase 300 anos depois que Koxinga desembarcou em Taiwan, os integrantes do partido nacionalista chinês derrotados na guerra contra os comunistas fizeram o mesmo e transformaram a ilha em sua base de resistência. Assim como Koxinga diante da dinastia Qing.

Esse paralelo foi bastante explorado pelo Kuomintang depois da derrota para o PCCH, especialmente nos anos seguintes à sua migração para Taiwan. Um artigo publicado pelo Taiwan Today em 1961, descreve o legado de Koxinga da seguinte forma:

“Embora Koxinga tenha morrido sem ver seu maior sonho realizado, ele deixou um exemplo brilhante para os chineses amantes da liberdade. Seu espírito indomável, que ardeu com tanta intensidade há 300 anos, ainda arde forte em cada coração da China livre de hoje. As sementes que ele plantou na ilha deram frutos abundantes. Em um futuro próximo, seu objetivo acalentado de retornar ao continente poderá se concretizar —3 séculos depois do previsto inicialmente”.

Em Taiwan também existem diversos monumentos sobre Koxinga, assim como no Japão.

Em Hirado, sua cidade natal, há um museu dedicado a Koxinga, principalmente sobre seu nascimento e sua infância no país. Os japoneses admiram os feitos militares de Koxinga, mas especialmente o fato de que ele nasceu lá. Atribuem a Koxinga qualidades de guerreiros samurais.

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-china/saiba-quem-e-o-general-pirata-admirado-por-china-taiwan-e-japao/

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