Flávio pediu suspensão de tarifaço e propôs negociar se vencer

Em documentos enviados aos EUA, senador disse ser contra as tarifas, sugeriu adiar a implementação por 180 dias, prorrogáveis por mais 90, e abrir negociações imediatas se eleito visando ao cancelamento; disse que aplicação das medidas antes da eleição fortaleceria Lula

Parte da mídia tem informado repetidamente que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, pediu aos Estados Unidos só o adiamento do tarifaço contra o Brasil. O documento enviado pelo congressista em julho de 2026 ao USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), no entanto, apresenta uma proposta mais ampla: a suspensão da implementação das tarifas, que podem passar a valer em 15 de julho de 2026, e a abertura imediata de negociação depois do prazo –que se encerraria após as eleições.

Apesar de Flávio não pedir efetivamente no documento enviado ao USTR o cancelamento definitivo das tarifas, o senador havia enviado um mês antes, em 2 de junho de 2026, uma carta endereçada ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, pedindo que o governo do presidente Donald Trump (Partido Republicano) desistisse do novo tarifaço. De acordo com o senador, a medida causaria “sérios danos” à população brasileira. Leia a íntegra da carta (PDF – 165 KB).

“Escrevo para reiterar formalmente o pedido que lhe fiz pessoalmente: que os Estados Unidos não imponham tarifas ao Brasil”, escreveu Flávio a Rubio.

Em 7 de julho, Flávio também falou a jornalistas depois de participar da audiência do USTR: “Quem quer a tarifa é o Lula, então a gente tem que usar os argumentos políticos aqui. [Quero] cancelamento, eu não quero tarifa para o Brasil, só quem quer tarifa é o Lula”.

Ao falar sobre a medida comercial que os EUA querem impor contra o Brasil, o senador argumentou que o tarifaço implantado antes da eleição de 4 de outubro poderia fortalecer politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No entender de Flávio, a cobrança das tarifas agora permite que o governo petista transforme a pressão norte-americana em argumento eleitoral contra ele e sua família. É que os Bolsonaros têm proximidade com o Donald Trump. Por essa razão, defendeu que os Estados Unidos aguardassem a conclusão da corrida presidencial brasileira.

“A implementação de amplas sanções econômicas nas semanas finais antes de uma eleição democrática inevitavelmente seria retratada pelo atual governo como uma tentativa dos Estados Unidos de influenciar o resultado eleitoral”, afirmou Flávio.

“Adiar a implementação para depois da eleição eliminaria essa narrativa, independentemente do resultado eleitoral.”

O documento do senador foi protocolado no USTR em 1º de julho de 2026. Entrou no processo como uma manifestação sobre a investigação com base na Seção 301 (lei comercial dos EUA) sobre práticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, aos sistemas de pagamentos, às tarifas comerciais, ao combate à corrupção, à propriedade intelectual, ao etanol e ao desmatamento ilegal. Leia a íntegra, em inglês, do documento de Flávio ao USTR (PDF – 2 MB).

O governo norte-americano tem até 4ª feira (15.jul.2026) para definir se aplica ou não a tarifa de 25%.

“Juntamente com a suspensão das medidas propostas, o comentarista propõe um mecanismo de retomada automática (snapback) de 180 dias, prorrogável por mais 90 dias, caso as negociações demonstrem boa-fé e progresso concreto”, diz o documento com as propostas de Flávio.

Segundo Flávio, “o atual governo teria esse período para conduzir negociações de boa-fé, sem a perspectiva de obter dividendos eleitorais, ou enfrentar as consequências da retomada dessas medidas”.

“Esse mesmo período daria à oposição no Congresso tempo e legitimidade para pressionar o governo a intensificar seus próprios esforços de negociação de boa-fé”, afirmou.

O documento também afirma que a oposição no Congresso poderia pressionar o governo brasileiro a intensificar as tratativas durante esse intervalo.

Caso a oposição vença as eleições, Flávio diz que o presidente eleito “nomearia imediatamente um negociador” para dar continuidade às conversas com os Estados Unidos.

E conclui: “Essa disposição elimina a volatilidade do fator eleitoral, dá ao atual governo a oportunidade de agir de forma responsável e preserva a possibilidade de que os Estados Unidos finalmente negociem com interlocutores de boa-fé interessados em restabelecer a relação comercial mutuamente benéfica que historicamente marcou as relações entre os dois países”.

No texto, Flávio afirma que uma tarifa sobre praticamente toda a economia brasileira “não atinge” diretamente o governo ou o Judiciário, mas recai sobre “exportadores, importadores norte-americanos, consumidores dos EUA e a população brasileira”. O documento do senador também diz que investidores norte-americanos seriam “as primeiras vítimas”.

“Uma tarifa de 25% sobre praticamente toda a economia brasileira […] atinge exportadores, importadores norte-americanos, consumidores dos EUA e a população brasileira”, afirma no documento.

O senador sustenta ainda que as tarifas de 2025 “não alteraram nenhuma conduta judicial […], “não eliminaram nenhuma das 6 práticas” investigadas e “produziram o efeito inverso ao pretendido” ao fortalecer eleitoralmente o governo Lula.

PEDIDO AO USTR

O pedido principal apresentado por Flávio é a suspensão da implementação das tarifas e a criação imediata de um canal formal de negociação entre Brasil e Estados Unidos, com agenda e calendário definidos para tratar dos temas investigados.

Segundo o documento, a suspensão permitiria manter a pressão sobre o Brasil sem aplicar de imediato os custos econômicos da medida.

Na seção dedicada ao calendário eleitoral, Flávio afirma que a eleição presidencial de outubro mudará, em cerca de 90 dias, o cenário político no qual será conduzida uma eventual nova negociação.

O senador diz que adotar uma medida econômica de grande impacto nas semanas anteriores à eleição poderia ser interpretado como uma tentativa dos Estados Unidos de interferir no resultado da disputa. Segundo ele, postergar a implementação eliminaria essa interpretação, independentemente de quem vencer.

O documento afirma que a suspensão seria válida mesmo em caso de reeleição de Lula.

O QUE DIZEM OS GOVERNISTAS

O governo do presidente Lula (PT) e seus aliados têm argumentado que Flávio é a favor do tarifação, por ter falado em adiamento, não em cancelamento. As declarações do senador não permitem, entretanto, esse tipo de conclusão peremptória que os governistas fazem.

Em 7 de julho, o governo Lula publicou uma nota em que afirma repudiar “a intervenção do senador Flávio Bolsonaro” na audiência do USTR.

O texto do Planalto diz que “entre os 34 brasileiros inscritos, só Flávio Bolsonaro não se posicionou contrário às medidas contra o Brasil, optando por sugerir o seu adiamento, com claro objetivo eleitoreiro”. Leia a íntegra da nota aprovada por Lula (PDF – 109 KB). A nota do governo desconsidera que Flávio falou explicitamente, por escrito, ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que era contra o tarifaço.

O governo não enviou representantes à audiência pública do início de julho. A avaliação foi de que a sessão era um espaço de interesse dos setores privado e civil, e não governamental.

Em 8 de julho, o Partido dos Trabalhadores publicou um artigo em que diz que “a família Bolsonaro não tem coragem de pedir o fim do tarifaço, só adiamento”. Segundo a legenda lulista, Flávio “foi aos Estados Unidos para audiência sobre tarifas contra produtos brasileiros, mas defendeu suspender a medida por 180 dias, sem pedir sua retirada definitiva”. O senador é apelidado de “Tariflávio” no texto. Assim como a nota do governo Lula, a manifestação do PT também desconsidera que Flávio havia se manifestado contra o tarifaço em carta para Marco Rubio.

O que pesa contra os Bolsonaros nesse episódio remete à atitude da família em 2025. No ano passado, o agora deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, que mora nos EUA, apoiou o primeiro tarifaço imposto por Donald Trump ao buscar a “anistia” do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Vários bolsonaristas consideraram a estratégia de Eduardo errada e se manifestaram contra a medida. Entre os que foram críticos e falaram contra o tarifaço estão o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o próprio Flávio Bolsonaro, mais recentemente.

A pecha contra os Bolsonaros acabou pegando, com muitas propagandas do governo Lula dizendo que sua administração está “ao lado do povo brasileiro”.

O QUE FLÁVIO PROPÕE

A proposta apresentada pelo senador reúne os seguintes pontos:

suspensão da implementação das tarifas;
abertura imediata de um mecanismo bilateral de negociação;
agenda para discutir os 6 temas apontados pelo USTR;
prazo inicial de 180 dias;
possibilidade de extensão por mais 90 dias;
retomada automática das medidas em caso não haver nenhum tipo de acordo;
continuidade das negociações por um eventual governo de oposição.

Flávio afirma que já havia pedido diretamente a Trump, ao vice-presidente JD Vance (Republicano) e a Rubio que os Estados Unidos não impusessem tarifas ao Brasil nem tomassem uma decisão precipitada.

O QUE DIZ O DOCUMENTO SOBRE LULA

O documento de Flávio Bolsonaro ao USTR dedica parte de sua argumentação para demonstrar que a pressão dos Estados Unidos vai beneficiar Lula politicamente.

Flávio cita pesquisas eleitorais para sustentar que o presidente cresceu nos levantamentos durante períodos de maior tensão comercial entre os 2 países. Segundo o senador, o governo transformou as tarifas em uma narrativa de defesa da soberania nacional, enquanto classificava a disposição dos Bolsonaros para negociar como submissão aos Estados Unidos.

O senador também afirma que a repercussão de sua reunião na Casa Branca foi substituída por uma narrativa segundo a qual a oposição teria pedido aos Estados Unidos que impusessem tarifas ao Brasil. Para ele, isso transformou a medida em prejuízo eleitoral para a oposição e em vantagem para Lula.

O QUE ESTÁ EM NEGOCIAÇÃO

Eis os 6 pontos investigados pelo USTR:

comércio digital e serviços de pagamento eletrônico – inclui medidas que afetam plataformas digitais dos EUA e o sistema Pix. O governo Trump acha que o Pix, por ser gratuito, concorre de maneira desleal com empresas de cartões de crédito (Visa, Mastercard e Amex, todas norte-americanas), que perderam mercado;
tarifas consideradas injustas ou preferenciais – o documento cita especialmente vantagens tarifárias concedidas pelo Brasil a países como México e Índia;
combate à corrupção – abrange a atuação brasileira em acordos de leniência e a efetividade das políticas anticorrupção.
proteção à propriedade intelectual – inclui demora na análise de patentes, pirataria, falsificação e fiscalização aduaneira.
acesso ao mercado de etanol – trata da diferença entre as tarifas aplicadas por Brasil e Estados Unidos ao produto. A tarifa brasileira é mais elevada do que a norte-americana;
desmatamento ilegal – envolve fiscalização ambiental, rastreabilidade de cadeias produtivas e efeitos sobre o comércio.

Flávio defende que Brasil e Estados Unidos negociem questões relacionadas a comércio digital, Pix, propriedade intelectual, tarifas sobre etanol, combate à corrupção e desmatamento.

No caso do etanol, por exemplo, o documento propõe uma negociação de “zero por zero”, para eliminar as tarifas aplicadas pelos 2 países.

Sobre o Pix, o senador rejeita a interpretação de que o sistema represente concorrência desleal a empresas norte-americanas, mas defende mudanças em áreas próximas, como a redução de encargos sobre meios privados de pagamento.

Ao final, Flávio pede que os Estados Unidos mantenham a investigação, suspendam a aplicação das tarifas e usem o período para buscar um acordo com o Brasil –para evitar que a adoção imediata das medidas possa dar ao governo brasileiro uma vitória política durante o período eleitoral.

Leia mais:

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/flavio-pediu-suspensao-de-tarifaco-e-propos-negociar-se-vencer/

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