Estruturas reúnem dezenas de antenas em um mesmo local para concentrar sinal e revender a conexão em regiões onde fibra óptica não chega
Uma estrutura com dezenas de antenas da Starlink instalada sobre uma laje em Tabatinga (AM) expôs um modelo informal de revenda de internet via satélite em regiões remotas do Brasil. Conhecidas como “fazendas de Starlink”, essas instalações concentram conexões individuais da empresa e redistribuem o sinal a moradores de áreas onde a fibra óptica é limitada ou não chega.
O vídeo que mostra essas estruturas no Amazonas viralizou nas redes sociais em 23 de abril. Nas imagens, aparecem dezenas de antenas instaladas sobre uma laje. O registro foi feito pelo criador de conteúdo e funcionário público aposentado Luiz Carlos Machado (57), do canal Viajando com Luiz. Assista (44seg):
“Eu acho que tinha mais de 40 antenas”, afirmou o criador de conteúdo ao Poder360.
Segundo Luiz, a estrutura chamou sua atenção porque não se parecia com os usos mais comuns da Starlink observados por ele em viagens anteriores a áreas remotas. O criador de conteúdo disse que já havia visto antenas da empresa em barcos, hotéis-fazenda, carros em movimento e regiões de selva, mas sempre em aplicações individuais, contratadas diretamente pelo usuário.
No caso visto em Tabatinga, o modelo seria diferente. De acordo com o relato, as antenas reunidas na laje captariam conexões separadas da Starlink e direcionariam essa capacidade para um provedor local, que ficaria responsável por redistribuir o sinal a moradores e clientes da região.
“É literalmente um funil”, afirma.
O caso ajuda a explicar por que a Starlink lidera o mercado de banda larga fixa nos municípios mais rurais do país. Segundo apuração do Poder360 com dados da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), a empresa concentra 12,8% dos acessos do serviço nas cidades em que mais de 75% da população vive fora da área urbana.
A vantagem competitiva da Starlink nessas localidades se dá porque a internet via satélite depende menos da infraestrutura terrestre necessária às redes tradicionais. Em áreas remotas, operadoras convencionais podem não operar por causa da falta de redes de fibra óptica.
A Starlink, por outro lado, consegue transmitir sinal de internet a partir de uma só antena instalada no imóvel do usuário –ou, no caso das “fazendas”, de várias antenas reunidas em um mesmo ponto.
Segundo Luiz, os moradores de Tabatinga dependem da Starlink ou de uma rede de fibra óptica que vem do Peru e é revendida na região da tríplice fronteira, que também inclui Tabatinga, no Brasil, e Letícia, na Colômbia. Outra opção seria a internet via rádio, mas o serviço é considerado instável na região.
“Lá tem um clima muito pesado, chove muito, muita nuvem, e isso quebrava muito o sinal”, afirmou Luiz.
FAZENDAS SÃO IRREGULARES
Apesar de fornecer sinal de internet para os moradores da região, os amontoados de antenas configuram uma prática irregular. Revender a internet captada pelos dispositivos da Starlink viola a política da empresa, que só permite o uso individual –para um mesmo domicílio ou empresa.
Além disso, a prática também esbarra nas regras da Anatel. A agência reguladora determina que o fornecimento de capacidade de tráfego para conexão à internet sem autorização caracteriza exploração clandestina de serviço de telecomunicações.
Para vender conexão a terceiros, o responsável precisa estar regularizado como prestador de SCM (Serviço de Comunicação Multimídia), categoria usada pela Anatel para serviços de banda larga fixa. Sem essa autorização, a revenda do sinal pode ser enquadrada como exploração clandestina de serviço de telecomunicações.
METODOLOGIA
O levantamento foi feito com base nos dados públicos de acessos de banda larga fixa da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). A base reúne os acessos em serviço informados pelas prestadoras do SCM (Serviço de Comunicação Multimídia), denominação regulatória usada para a banda larga fixa no Brasil. Cada acesso corresponde a uma conexão ativa declarada por uma operadora em determinado município.
Os dados divulgados pela Anatel, no entanto, diferem dos publicados pela própria Starlink. Em janeiro deste ano, a companhia afirmou ter alcançado a marca de 1 milhão de clientes no Brasil. Já nos registros da agência reguladora, a operadora aparecia com 704.761 acessos em março de 2026.
Questionada pelo Poder360 sobre a divergência entre os dados divulgados pela Starlink e os registros oficiais da agência, a Anatel afirmou que a inconsistência pode decorrer do envio de informações incorretas pela própria empresa.
Segundo a agência, as prestadoras devem encaminhar os dados até o dia 15 do mês seguinte ao período medido. Assim, as informações referentes a janeiro, por exemplo, precisam ser enviadas até 15 de fevereiro e são publicadas até o fim do mesmo mês. Por esse procedimento, diz a Anatel, não há defasagem superior a 1 mês na medição.
O Poder360 questionou a Starlink, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. Este texto será atualizado assim que alguma manifestação for recebida.
O número não equivale necessariamente ao total de usuários, já que uma mesma conexão pode atender mais de uma pessoa, domicílio ou estabelecimento. Também não mede a qualidade da conexão, a velocidade efetivamente entregue ou o grau de cobertura territorial da empresa.