Evento climático pode elevar risco de seca no Norte e no Nordeste e provocar chuvas mais intensas no Sul do Brasil
A Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, na sigla em inglês) estimou em relatório divulgado na 5ª feira (14.mai) que há 37% de chance de o El Niño de 2026 atingir intensidade muito forte de novembro deste ano a janeiro de 2027. Caso isso ocorra, há risco de haver eventos climáticos extremos no Brasil, como secas prolongadas no Norte e no Nordeste e chuvas intensas no Sul.
O El Niño é um fenômeno climático que se dá pelo aquecimento anormal das águas no oceano Pacífico. Embora a organização vinculada ao governo dos EUA não adote oficialmente a expressão “super El Niño”, o termo costuma ser usado para designar episódios excepcionalmente intensos do fenômeno, classificados tecnicamente como “muito fortes”.
No mesmo cenário, a Noaa também aponta:
30% de probabilidade de formação de um El Niño “forte” no período;
33% de chance de que o evento permaneça abaixo desse patamar.
Somadas, as duas faixas mais intensas representam uma probabilidade de aproximadamente 2 em 3 de o fenômeno atingir, ao menos, força elevada no fim do ano.
A previsão de intensidade, porém, ainda é cercada de incerteza. No boletim mensal que avalia a chance e a intensidade da ocorrência do fenômeno, a Noaa afirma que nenhuma categoria isolada de força supera 37% de probabilidade neste momento.
O órgão afirma que os eventos mais intensos dependem de um acoplamento persistente entre oceano e atmosfera ao longo dos próximos meses. Na prática, isso significa que o aquecimento das águas do Pacífico precisa passar a influenciar de forma contínua a circulação dos ventos, a formação de nuvens e os padrões de chuva na região equatorial.
Segundo a Noaa, os El Niños mais fortes da história apresentam esse reforço mútuo entre oceano e atmosfera durante o verão do Hemisfério Norte, algo que ainda precisa se confirmar em 2026.
O cenário mais provável, por ora, é a própria formação do El Niño. A Noaa calcula que há 82% de chance de o fenômeno surgir entre maio e julho de 2026, e 96% de probabilidade de ele persistir entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, durante o inverno do Hemisfério Norte.
Previsões anteriores indicavam um cenário mais moderado. Em atualização divulgada em 3 de março, a OMM (Organização Mundial de Meteorologia) estimava em cerca de 40% a chance de formação do El Niño de maio a julho. Em 24 de abril, o órgão passou a afirmar que o fenômeno deveria se desenvolver a partir de meados de 2026, ainda sem quantificar probabilidade tão elevada quanto a apresentada agora pela Noaa.
O QUE É O EL NIÑO
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico equatorial central e oriental. Ele integra o chamado Enos (El Niño–Oscilação Sul) e altera padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta. Segundo a OMM, episódios de El Niño costumam ocorrer a cada 2 a 7 anos e duram, em geral, de 9 a 12 meses.
Na prática, o aquecimento do Pacífico interfere na circulação de ar na atmosfera. Em condições normais, massas de ar empurram águas mais quentes para o oeste do oceano, em direção à Ásia. Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem, permitindo que o calor se espalhe pelo Pacífico central e oriental.
A OMM afirma que esses eventos alteram a formação de nuvens e podem favorecer secas em algumas regiões e chuvas acima da média em outras. Além de exercer efeito de aquecimento sobre a temperatura média do planeta.
MEDIÇÃO
A Noaa acompanha o fenômeno por meio do Roni (Relative Oceanic Niño Index), indicador que mede quanto a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, no Pacífico equatorial, está acima ou abaixo do padrão esperado.
O índice também desconta a influência do aquecimento médio dos trópicos, o que permite avaliar de forma mais precisa a intensidade do aquecimento associado ao El Niño. Para que haja condição de El Niño, o RONI precisa atingir ao menos +0,5°C, acompanhado de sinais atmosféricos compatíveis.
A classificação de intensidade usada pela Noaa considera as seguintes faixas do índice:
El Niño fraco: de +0,5°C a menos de 1,0°C;
moderado: de +1,0°C a menos de 1,5°C;
forte: de +1,5°C a menos de 2,0°C;
muito forte: +2,0°C ou mais.
É nesta última categoria –”muito forte”, com anomalia igual ou superior a 2,0 °C que se enquadram os episódios frequentemente chamados de “super” El Niño no debate público. Nesses cenários, os efeitos associados ao fenômeno, como alterações no regime de chuvas e aumento de temperaturas, tendem a ganhar intensidade, embora a Noaa afirme que um El Niño mais forte não garante, por si só, impactos extremos em todas as regiões.
IMPACTO NO BRASIL VARIA
Segundo uma nota técnica publicada em abril de 2026 por diversas entidades, incluindo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), o El Niño pode provocar efeitos distintos nas regiões brasileiras.
No Norte, a tendência é de redução das chuvas na Amazônia, com possibilidade de prolongamento da estação seca. O quadro aumenta o risco de incêndios florestais e pode provocar queda no nível dos rios, afetando a navegação, a pesca, a geração hidrelétrica e o abastecimento de populações ribeirinhas.
No Nordeste, a nota aponta maior probabilidade de chuvas abaixo da faixa normal climatológica, associadas a temperaturas médias e máximas mais elevadas. A combinação pode intensificar o estresse hídrico e ampliar a suscetibilidade a incêndios florestais em ecossistemas vulneráveis.
Já no Centro-Oeste, os efeitos do fenômeno são mais brandos. Ainda assim, o documento indica tendência de temperaturas mais elevadas, sobretudo na primavera e no verão, com aumento do risco de queimadas. Em episódios fortes, as chuvas podem se tornar mais regulares em Mato Grosso do Sul e em parte de Goiás.
No Sudeste, os efeitos sobre a chuva são mais variáveis. A nota afirma que pode haver aumento da precipitação no sudeste de São Paulo, no centro-sul do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, enquanto áreas mais ao norte podem registrar redução de chuva. Também há risco de estiagens, veranicos –fenômeno associado a dias secos e sem chuva– e ondas de calor mais frequentes e prolongadas.
Na região Sul, o El Niño tende a favorecer chuvas acima da média. A nota afirma que não se descarta a ocorrência de eventos extremos associados a inundações, em razão do maior transporte de umidade e da formação de sistemas convectivos e ciclones extratropicais mais intensos. A região também pode registrar temperaturas superiores ao que se está habituado, sobretudo no inverno e na primavera.
Os órgãos ressaltam que os impactos podem variar em intensidade e distribuição espacial conforme a força do El Niño e a interação com outros sistemas climáticos, como as condições do Atlântico Tropical.