Tarifaço ameaça liderança do Brasil no café solúvel, diz Cecafé

Diretor-geral do Cecaf, Marcos Matos, afirmou ao Poder360 que sobretaxa de 25% deslocará investimentos para países concorrentes

A possível imposição de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos pode comprometer a competitividade da indústria nacional de café e colocar em risco a liderança do Brasil no mercado global de café solúvel. Esse é o entendimento do diretor-geral do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), Marcos Matos, em entrevista ao Poder360. Segundo ele, há um “otimismo moderado” em relação às negociações, mas o setor ainda vê com incerteza a possibilidade de reversão das medidas.

Para o diretor-geral do Cecafé, a prioridade do setor é assegurar que o café solúvel seja incluído na lista de exceções da chamada Investigação 301 –procedimento comercial conduzido pelo governo dos EUA para apurar práticas consideradas prejudiciais aos interesses norte-americanos. A investigação pode resultar na imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre uma série de produtos brasileiros.

O café verde — grão ainda não industrializado e responsável por cerca de 90% das exportações brasileiras de café para os EUA — já integra uma lista preliminar de itens que podem ser isentos da sobretaxa. O café solúvel, porém, nunca figurou entre as exceções propostas.

Assista à íntegra da entrevista (30m23s):

Caso a isenção não seja concedida, o executivo avalia que o Brasil poderá perder espaço para concorrentes como o Vietnã, que já tem acordos comerciais com grandes mercados, e para o México, que exporta aos EUA com tarifa zero graças a um acordo bilateral. Segundo Matos, esse cenário pode provocar ociosidade na indústria brasileira e estimular a migração de investimentos para países com condições alfandegárias mais favoráveis.

“O risco é perdermos uma liderança construída ao longo de cerca de 60 anos”, disse.

O mercado norte-americano de café solúvel movimenta aproximadamente US$ 250 milhões por ano. De acordo com o Cecafé, a manutenção da tarifa impediria o Brasil de ampliar em até 45% suas exportações nesse segmento.

MISSÕES PARA CONTER TARIFAS

Ainda que o foco imediato esteja na Investigação 301 dos EUA, o Cecafé também acompanha as negociações comerciais com a UE (União Europeia), consideradas estratégicas para o setor.

O setor tenta reduzir barreiras comerciais e ampliar o acesso do café brasileiro aos 2 principais mercados consumidores do produto.

Em território norte-americano, Matos afirmou que as discussões evoluíram desde setembro do ano passado, quando predominavam questionamentos considerados “descabidos”, para negociações mais técnicas, concentradas nos impactos econômicos da medida.

O setor apresentou aos oficiais norte-americanos dados sobre a relevância do café brasileiro para a economia norte-americana. Entre os principais argumentos:

o Brasil abastece 34% do café consumido pelos norte-americanos;
a cada US$ 1 gasto na importação de café brasileiro, são gerados US$ 43 na economia dos EUA;
a cadeia cafeeira sustenta cerca de 2,2 milhões de empregos no país;
restrições anteriores ao café brasileiro contribuíram para uma inflação do produto até 8 vezes superior à inflação média norte-americana.

Para Matos, esses números demonstram que eventuais restrições ao café brasileiro acabam elevando custos para consumidores, cafeterias e empresas.

Na UE, porém, o cenário é menos favorável. Matos disse ter menos otimismo quanto à rápida ratificação do acordo comercial entre Mercosul e UE, considerado estratégico para ampliar a competitividade da indústria cafeeira brasileira.

Segundo ele, o bloco europeu é o maior destino do café brasileiro em valor, movimentando cerca de US$ 7 bilhões por ano e recebendo mais de 70.000 contêineres do produto anualmente.

Atualmente, o café industrializado brasileiro paga uma tarifa de 9% para entrar no mercado europeu. Para o diretor do Cecafé, a cobrança reduz a competitividade da indústria nacional, gera ociosidade nas fábricas e desestimula novos investimentos no país. Segundo Matos, a eliminação dessa tarifa, com a entrada em vigor do acordo entre Mercosul e UE, poderá elevar em até 45% as exportações brasileiras de café para o bloco.

DESFECHO DEPENDE DE NEGOCIAÇÃO POLÍTICA

Apesar do avanço das negociações técnicas, o diretor do Cecafé afirma que o desfecho da Investigação 301 dependerá de decisões políticas entre os governos brasileiro e norte-americano. A expectativa é que haja uma definição até 15 de julho. Segundo o setor, a solução estrutural seria a celebração de um acordo bilateral capaz de reduzir riscos tarifários permanentes entre os países.

Para Matos, o episódio também evidencia a necessidade de o agronegócio brasileiro adotar uma estratégia permanente de “diplomacia do setor privado”. Segundo ele, empresas e associações devem manter presença constante em centros de decisão, oferecendo subsídios técnicos às negociações conduzidas pelos governos e construindo relacionamento com autoridades, parlamentares e entidades representativas.

Segundo Matos, a estratégia também passa por fortalecer a imagem do café brasileiro no exterior. Ele afirmou que o país ainda atua como um fornecedor “invisível” em muitos mercados e que momentos de tensão comercial devem ser aproveitados para promover a qualidade, a sustentabilidade e a origem do produto junto a consumidores, empresas e meios de comunicação internacionais.

“O Brasil precisa abandonar um posicionamento reativo e investir em uma diplomacia do setor privado, ocupando continuamente espaços de decisão em centros como Washington e Bruxelas”, afirmou.

SAFRA RECORDE E PREOCUPAÇÃO COM O CLIMA

Enquanto acompanha as negociações comerciais, o setor também monitora o cenário produtivo.

Segundo Matos, a safra de 2026 caminha para um volume recorde, apesar de a colheita ter sofrido atrasos em razão das chuvas. O Cecafé também acompanha a possibilidade de formação do fenômeno El Niño no 2º semestre, que pode afetar o potencial produtivo da safra de 2027.

Para o diretor, a combinação de incertezas climáticas e geopolíticas reforça a necessidade de ampliar a atuação internacional do setor para preservar a competitividade do café brasileiro nos principais mercados consumidores.

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Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-economia/tarifaco-ameaca-lideranca-do-brasil-no-cafe-soluvel-diz-cecafe/

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