Abicalçados se diz otimista em relação à decisão norte-americana que deve sair na 4ª feira (15.jul) sobre nova taxação
O presidente-executivo da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), Haroldo Ferreira, disse que não há motivo para os EUA criarem uma tarifa sobre o calçado brasileiro. Segundo o executivo, a medida “vai prejudicar os negócios das companhias norte-americanas importadoras”.
A associação participou na semana passada da audiência pública realizada nos EUA para avaliar se imporá novas tarifas sobre produtos importados do Brasil. A decisão norte-americana deve sair na 4ª feira (15.jul.2026). O presidente-executivo da Abicalçados se diz otimista.
Assista (36min54s):
Haroldo Ferreira afirmou que o Brasil tem experiência em produzir pequenos lotes de calçados, especialmente de couro, e os importadores norte-americanos desenvolvem coleções no país, levam para o mercado norte-americano, testam esses itens no mercado e depois, se este produto escalar em um volume maior, produzem na Ásia. O presidente-executivo afirmou que esse foi o argumento da associação na audiência pública nos EUA.
O executivo afirmou, porém, que se os EUA aplicarem novas tarifas sobre produtos do Brasil, haverá impacto direto na produção de calçados brasileiro, na manutenção ou possível geração de postos de trabalho no Brasil, e, em casos mais graves, fechamento de algumas indústrias. Afirmou que cerca de 20% das exportações do setor são para os EUA.
Haroldo Ferreira declarou que no tarifaço de 2025, tanto a indústria nacional quanto os importadores norte-americanos pagaram parte do imposto adicional. “A indústria exportou a um preço menor e o importador norte-americano absorveu um pouco desse imposto”, disse.
“Se acontecer um novo tarifaço, a indústria começa a não ter mais fôlego para bancar parte desse desconto que ela deu para compensar o imposto de importação e o próprio importador também começa ter menos fôlego. Caso tenha um novo acréscimo de imposto, será difícil conseguir manter os clientes norte-americanos”, afirmou Haroldo Ferreira.
A Abicalçados afirmou que por causa do tarifaço de 2025, o setor não registrou crescimento no ano passado e sim decresceu 1,9% em relação a 2024. A associação se diz otimista em relação ao 2º semestre de 2026 caso não haja novas tarifas dos EUA.
“Nós podemos encerrar 2026 com o mesmo volume de produção de 2025. Porém, se, infelizmente, acontecer um novo tarifaço, não vamos conseguir chegar nesses números porque o mercado interno também está sendo afetado”, declarou o executivo.
Tarifas dos EUA
O USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) apresentou as propostas para a taxação nos dias 1º e 2 de junho de 2026. São:
25% – por práticas desleais de comércio. É resultado de uma investigação comercial aberta contra o Brasil em 15 de julho de 2025;
12,5% – por falta de restrição à importação de produtos feitos com trabalho forçado análogo à escravidão. É resultado de uma investigação global da USTR sobre o tema.
Endividamento
Haroldo Ferreira citou como motivo para o mercado interno não estar muito aquecido, por exemplo, o endividamento dos brasileiros.
“O endividamento faz reduzir ou suprimir o consumo, mesmo que o calçado seja um bem essencial para todas as famílias, a alimentação vem em 1º lugar. Então, todos os esforços são para conseguir que, pelo menos, nós consigamos manter esse ano nos mesmos números do ano passado”, afirmou Haroldo Ferreira.
O endividamento das famílias brasileiras teve alta pelo 5º mês seguido e chegou a 81,6% em maio, o maior patamar da série histórica, iniciada em 2015. O percentual havia sido de 80,9% em abril. Os dados são da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), divulgada em 10 de junho. Eis a íntegra do levantamento (301 kB – PDF).
O percentual corresponde ao número de famílias que relataram ter dívidas a vencer com cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa.
Plataformas internacionais
O presidente-executivo da Abicalçados afirmou que as plataformas internacionais também trazem desafios para a indústria de calçados no Brasil.
“O setor não é contra as plataformas. As indústrias brasileiras vendem através de plataformas. O que não pode é ter um produto do exterior produzido em outro local sendo comercializado em uma concorrência desleal com quem paga todos os impostos e tem os seus trabalhadores legalizados aqui no Brasil”, afirmou Haroldo Ferreira.
A associação disse defender uma equidade tributária ou cobrança de impostos às plataformas internacionais.
Fim da 6 X 1
Haroldo Ferreira afirmou que o setor no Brasil enfrenta também o desafio do fim da escala 6 X 1, que está em discussão no Congresso Nacional.
A Câmara dos Deputados aprovou em 27 de maio a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que muda a escala de trabalho do regime 6 X 1 para o 5 X 2 e reduz a jornada semanal de 44 horas para 40 horas. O texto aguarda análise do Senado Federal.
“Ninguém é contrário a discutir esse tema. O problema é como isso será feito. Neste momento, deveriam ser discutidos e avaliados todos os impactos para não criar mais um fator que retire a competitividade da indústria”, disse o executivo.