Fortalecimento do setor é uma decisão estratégica para o Brasil desenvolver autonomia nas cadeias produtivas, afirma a entidade
Durante décadas, eficiência econômica significava produzir onde fosse mais barato em complementar a demanda com importações. Em um cenário global relativamente estável, dependência externa e cadeias produtivas concentradas eram tratadas como decisões racionais de mercado. Os últimos anos, no entanto, mudaram essa lógica.
Pandemia, guerras, tensões comerciais, crises energéticas e reorganização das cadeias globais transformaram capacidade industrial em ativo estratégico. O debate deixou de ser só econômico e passou a envolver também segurança nacional, resiliência produtiva e soberania.
A pergunta central também mudou: antes, o mundo discutia quanto custa produzir. Agora, as principais economias passaram a se perguntar quanto custa não produzir. É nesse contexto que a indústria química brasileira ganha centralidade no debate sobre competitividade, autonomia econômica e desenvolvimento nacional.
Infraestrutura sustenta o país
A química não é um setor isolado. É a infraestrutura invisível da economia moderna. Está nos fertilizantes que sustentam o agronegócio brasileiro, nos medicamentos e materiais hospitalares, no saneamento, nas embalagens, na construção civil, na mobilidade, na energia, nos eletrônicos, na indústria de defesa e nas tecnologias ligadas à transição energética.
Sem química, não há indústria sofisticada. Sem indústria, não há autonomia econômica –e sem autonomia econômica não existe soberania produtiva.
Não se trata, portanto, de uma pauta setorial. Trata-se de uma agenda de Estado. A indústria química ocupa posição singular dentre os setores produtivos. Está na base da economia. Os produtos entregues pela atividade funcionam como elementos estruturantes de praticamente todas as cadeias industriais relevantes do país.
Os números ajudam a dimensionar a relevância: o setor químico movimenta US$ 167,8 bilhões por ano, cria mais de 2 milhões de empregos diretos altamente qualificados e indiretos. Além disso, sustenta cadeias essenciais ligadas à segurança alimentar, soberania sanitária, infraestrutura, defesa, inovação tecnológica e transição energética.
O custo da dependência
Essa percepção ganhou força global depois da pandemia. A dependência excessiva de fornecedores externos deixou de ser só uma discussão técnica e passou a representar também vulnerabilidade econômica concreta.
Hoje, o Brasil importa cerca da metade dos insumos químicos que consome. O setor acumula deficit comercial superior a US$ 50 bilhões anuais e tem um dos maiores níveis de exposição externa da indústria nacional. Em 2022, as importações químicas atingiram o recorde de US$ 80,3 bilhões.
Quando cadeias internacionais sofrem rupturas, encarecem ou passam a priorizar mercados domésticos, os efeitos rapidamente se espalham pela economia brasileira. O impacto aparece no preço dos alimentos, na inflação industrial, no custo da produção, na abertura de empregos e na competitividade nacional.
Países altamente dependentes tornam-se mais vulneráveis a crises internacionais, restrições comerciais e decisões tomadas por outros governos. Em momentos críticos, quem não produz passa a disputar acesso. Já quem produz tem prioridade.
Foi isso que o mundo aprendeu durante a pandemia, e é isso que os Estados Unidos, a União Europeia, a Índia e a China tentam corrigir agora. O mundo protege as cadeias produtivas. O Brasil precisa fazer o mesmo.
As principais economias globais passaram a reorganizar as próprias políticas industriais com um objetivo comum: proteger cadeias estratégicas, reduzir dependências externas e fortalecer a segurança econômica.
Os Estados Unidos combinam tarifas, incentivos trilionários e políticas de segurança econômica para fortalecer a base produtiva. A União Europeia acelera investimentos em reindustrialização verde e transição energética. A Índia estruturou uma estratégia nacional específica para o setor químico e consolidou a presença global no segmento.
O que se observa internacionalmente é claro: a indústria voltou a ser instrumento de poder nacional. O Brasil começa a avançar nessa direção.
Agenda de Estado
As medidas recentes construídas em conjunto pelo Congresso Nacional, Poder Executivo e o setor produtivo representam mais do que ações isoladas. Compõem uma agenda gradual de preservação industrial e soberania produtiva.
Nesse contexto, o Reiq (Regime Especial da Indústria Química), o Presiq (Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química), a Lista DCC (Desequilíbrios Concorrenciais Conjunturais), as medidas antidumping e o debate sobre a redução estrutural do custo de matérias-primas precisam ser compreendidos como instrumentos complementares de uma política de Estado voltada à competitividade e à resiliência econômica nacional.
A remodelagem do Reiq, sancionada em março de 2026, representou um passo concreto para cortar custos de produção, recuperar competitividade e preservar empregos. Ao reduzir alíquotas do PIS (Programa de Integração Social) e da Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social) sobre insumos químicos e petroquímicos, o país criou condições para reativar a capacidade instalada, ampliar a produção e estimular investimentos.
Já o Presiq –que passa a vigorar em 2027 e se estende até 2031– terá uma agenda de longo prazo baseada em modernização industrial, inovação, competitividade e descarbonização. O programa apresenta potencial para adicionar R$ 112 bilhões ao PIB, criar cerca de 1,7 milhão de empregos e expandir a arrecadação em R$ 65,5 bilhões de 2027 a 2031, conforme dados da Abiquim.
Além disso, o avanço de mecanismos de defesa comercial tornou-se fundamental diante do excesso global de capacidade produtiva e da ampliação de práticas comerciais agressivas. A manutenção e a ampliação da Lista DCC ajudaram a conter “importações predatórias” e preservar a capacidade produtiva nacional.
Os resultados começaram a aparecer. Depois da adoção dessas medidas, a participação dos importados no consumo interno caiu de 56% para 43%, sem pressão inflacionária relevante, na avaliação da Abiquim.
Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram a queda nos preços médios de produtos químicos em segmentos importantes, desmontando a percepção de que instrumentos de defesa comercial necessariamente elevam preços.
Gargalo de matérias-primas
Apesar da melhora no cenário, há um elo central pendente nessa agenda: o acesso competitivo às matérias-primas estratégicas.
Hoje, produzir no Brasil continua sendo estruturalmente mais caro. O preço do gás natural é até o triplo do praticado nos Estados Unidos, conforme dados da CNI (Confederação Nacional da Indústria), relativos a 2019. Nafta, etano e propano seguem pressionando a competitividade da indústria nacional.
Nenhuma política industrial estará completa sem enfrentar esse gargalo.
Vantagem competitiva
O Brasil tem uma vantagem rara, justamente quando o mundo demanda novas bases produtivas sustentáveis. A indústria química brasileira opera com uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, composta por 82,9% de fontes renováveis, e apresenta emissões inferiores às de concorrentes internacionais.
Essas características transformam a produção local em vantagem econômica e climática. Produzir mais no Brasil pode significar reduzir as emissões globais, fortalecer as cadeias resilientes e ampliar a competitividade sustentável.
Divulgação/Abiquim
Indicadores de sustentabilidade da indústria química nacional reforçam a vantagem competitiva do setor brasileiro diante de outros mercados
Nesse aspecto, o país se antecipa à parte da Europa, segundo a Abiquim. As decisões tomadas recentemente colocam o Brasil em posição “relevante” dentro do movimento global de reindustrialização verde e fortalecimento da segurança econômica.
O que está em jogo
A lógica central dessa transformação é simples: o debate não é sobre proteger um setor específico. É sobre proteger a capacidade do país de produzir, inovar, criar empregos e decidir o próprio futuro.
Quando uma economia perde densidade industrial, perde também tecnologia, arrecadação, competitividade, capacidade de inovação e resiliência econômica –e perde, sobretudo, autonomia estratégica.
Quando a indústria química avança, o país ganha densidade industrial. Já quando o setor enfraquece, a dependência aumenta.
Soberania econômica não se declara. Constrói-se. Isso começa pela capacidade de transformar ciência, energia, matéria-prima e indústria em desenvolvimento, autonomia, renda, emprego e futuro.
Este conteúdo foi produzido e pago pela Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química). As informações e os dados divulgados são de total responsabilidade do autor.
Fonte: https://www.poder360.com.br/conteudo-de-marca/sem-quimica-nao-ha-soberania-nacional-diz-abiquim/