Ex-ministra confirmou que representantes dos Munduruku foram recebidos pelo governo após protestos
A deputada federal e ex-ministra dos Povos Indígenas Sonia Guajajara (Psol-SP) afirmou que os protestos dos indígenas Munduruku contra o governo na Zona Azul da COP30, em novembro de 2025, trataram-se de “um problema pontual”. Em entrevista ao Poder360, disse que a relação do governo federal com o movimento indígena “segue normal”.
Durante a conferência climática organizada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), manifestantes pediram a taxação de bilionários, a redução do desmatamento e ações mais efetivas contra o aquecimento global, incluindo veto à exploração de petróleo.
“Eu acredito que ali foi um problema pontual, que foi acordado com outros movimentos para fazerem algum protesto. Mas na relação com o Ministério dos Povos Indígenas e com o movimento indígena, segue normal”, disse Guajajara.
Segundo a deputada, a situação com os Munduruku foi normalizada, e o representantes do povo chegaram a serem recebido no Ministério dos Povos Indígenas pelo atual ministro, Luiz Eloy Terena.
“Nessa gestão do presidente Lula, houve o andamento para a região do Tapajós na demarcação do território de territórios. Ali na região, houve a desintegração de garimpo ilegal dentro do território Munduruku, e eles, durante todo esse período, foram atendidos no Ministério dos Povos Indígenas, em vários outros órgãos de governo e continuam sendo recebidos agora ainda na gestão do ministro”, afirmou.
Assista à entrevista:
Guajajara esteve a frente do Ministério dos Povos Indígenas de 2023 a 2026. Durante este período, contribuiu para a homologação de cerca de 20 territórios indígenas.
Segundo ela, foram realizadas 6 demarcações a mais do que o projetado no início do governo. Ainda não foi estabelecida uma nova meta para um eventual 4º mandato de Lula.
A deputada criticou o Marco Temporal, que, segundo ela, contribuiu para travar a demarcação de territórios de povos originários. A tese, apoiada por parte do Congresso, propõe que os indígenas só possuem direito sobre as terras que ocupavam em 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituição –desconsiderando o período colonial.
“O marco temporal travou o andamento da demarcação dos territórios indígenas. Mesmo assim, nós conseguimos homologar 20 territórios. Considerando o que foi planejado na transição em 2022, a gente conseguiu até avançar mais do que o previsto, porque na transição a gente tinha previsto 14 territórios indígenas”, declarou.
COP30
A Conferência das Partes em Belém foi marcada pela maior presença indígena da história. A deputada disse que mais de 500 representantes foram credenciados para a Zona Azul, onde se davam as negociações governamentais e diplomáticas, enquanto mais de 1.000 estiveram presentes na Zona Verde –espaço aberto à sociedade civil.
“Há já essa constatação de que precisa se manter a floresta em pé como um mecanismo de enfrentar a crise climática, e onde tem a maioria da floresta em pé é nos territórios indígenas. Foi a 1ª vez que tratou de povos indígenas, de territórios, de financiamento climático para povos indígenas. Construímos ali o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que destina 20% direto para povos e organizações indígenas”, afirmou.
No entanto, Guajajara considerou que o financiamento arrecadado pelo TFFF (Fundo Florestas Tropicais Para Sempre) ficou abaixo do esperado pelo governo. Houve uma quebra de expectativa em relação aos países parceiros do Brasil.
“Foi muito abaixo do esperado, muito abaixo. A gente já vem trabalhando isso há algum tempo. Nesse diálogo com os países a gente esperava mais. Com certeza. A gente esperava que esses países parceiros do Brasil e que já apoiam projetos indígenas fossem mais ousados nas suas contribuições”, disse.
De acordo com a deputada, o governo dialoga com diferentes países para encorajar novos investimentos no fundo. Emirados Árabes Unidos e Inglaterra estão entre os que ainda não destinaram recursos, mas que podem aportar dinheiro.
Guajajara criticou ainda países como os EUA, Israel e Rússia por investirem em armamentos de guerra e não destinarem recursos ao meio ambiente.
“Sabemos que o mundo está em guerra e boa parte dos recursos que seriam destinados para combater a crise climática, hoje, parte dos países negacionistas, designam esse recurso para armas, para munições e fomento da guerra. E isso é muito ruim, é muito grave”, afirmou.