O material integra o chamado “Codex H”, uma cópia em grego das cartas atribuídas a São Paulo, datada do século 6; foram reconstituídos a partir de páginas que foram reaproveitadas na encadernação de livros
Uma equipe internacional de pesquisadores liderada pelo professor Garrick Allen, da Universidade de Glasgow, recuperou 42 páginas consideradas perdidas de um dos manuscritos mais relevantes do Novo Testamento. O material integra o chamado “Codex H“, uma cópia em grego das cartas atribuídas a São Paulo, datada do século 6.
A descoberta foi divulgada na 6ª feira (24.abr.2026) pela universidade.
De acordo com os pesquisadores, o Codex H originalmente era um livro completo, mas, o manuscrito foi desmontado no século 13, no Mosteiro da Grande Lavra, no Monte Atos, na Grécia. Suas páginas foram reaproveitadas na encadernação de outros livros, prática comum na época. Hoje, fragmentos do Codex estão espalhados por bibliotecas de países como Itália, Grécia, Rússia, Ucrânia e França.
COMO FOI A DESCOBERTA
De acordo com a universidade, os pesquisadores utilizaram imagens multiespectrais para identificar vestígios de tinta deixados nas páginas dos livros que foram feitos a partir das páginas reaproveitadas do manuscrito do Novo Testamento com o objetivo de recuperar as “páginas fantasmas”. Com o passar do tempo, a escrita original gerou marcas quase invisíveis, que, com o método, puderam ser recuperadas digitalmente.
“A descoberta partiu de um ponto de partida importante: sabíamos que, em determinado momento, o manuscrito foi reutilizado. Os produtos químicos da nova tinta causaram deslocamentos nas páginas opostas, criando uma espécie de imagem espelhada do texto”, disse Allen.
Segundo o pesquisador, esses vestígios podem atravessar várias páginas e não são perceptíveis a olho nu, mas se tornam visíveis com técnicas modernas de imagem.
A equipe também recorreu à datação por radiocarbono, técnica que estima há quanto tempo o material foi produzido, para confirmar a origem do pergaminho no século 6.
“Considerando que o Codex H é um testemunho tão importante para a compreensão das escrituras cristãs, descobrir essa quantidade de evidências sobre sua forma original é algo monumental”, afirmou.
Damianos Kasotakis/Divulgação/Universidade de Glasgow
Imagens multiespectrais e datação por carbono reconstroem digitalmente o Codex H, revelando antigos hábitos de escribas e estruturas bíblicas primitivas
O QUE FOI IDENTIFICADO
Entre os principais achados estão:
Listas antigas de capítulos – exemplos mais antigos conhecidos de organização das Epístolas de Paulo, diferentes da divisão atual;
Anotações de escribas – evidências de como copistas do século VI corrigiam e interagiam com os textos;
Reaproveitamento medieval – indícios de como manuscritos religiosos eram reutilizados após se deteriorarem.
O NOVO TESTAMENTO
O Novo Testamento é a 2ª parte da Bíblia, considerada sagrada pelos cristãos. Ele reúne escritos sobre a vida, os ensinamentos e o significado de Jesus Cristo, além da formação das primeiras comunidades cristãs.
Ele foi escrito entre os séculos I e II d.C. e é composto por 27 livros, organizados em 4 partes principais:
Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João): narram a vida, morte e ressurreição de Jesus;
Atos dos Apóstolos: relata a expansão inicial do cristianismo;
Cartas (Epístolas): textos atribuídos a apóstolos como Paulo, com orientações às comunidades;
Apocalipse: livro profético com linguagem simbólica sobre o fim dos tempos.