Facções passam a integrar cadastro que reúne alvos de restrições econômicas, como cartéis de drogas e redes acusadas de lavagem de dinheiro
O Ofac (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA) incluiu nesta 6ª feira (29.mai.2026) as facções brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) na lista de entidades sancionadas. Ambas foram classificadas como “Grupo Terrorista Transnacional” e “Organização Criminosa”.
Com a decisão, PCC e CV passam a integrar a Lista SDN, cadastro que reúne pessoas, empresas e organizações alvo de sanções econômicas norte-americanas. A relação inclui também cartéis internacionais de drogas, como os mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nueva Geração, e redes acusadas de lavagem de dinheiro.
Ligada ao Departamento do Tesouro dos EUA, a Ofac é responsável por aplicar sanções financeiras e comerciais contra alvos considerados ameaça à segurança nacional norte-americana. Na prática, as medidas podem bloquear bens, restringir operações em dólar e dificultar transações com instituições internacionais. Suas decisões têm impacto global porque bancos e empresas de diversos países dependem do sistema financeiro norte-americano e costumam seguir as listas para evitar punições e multas.
Nos registros divulgados pelo Ofac, as duas facções aparecem com indicação de possível enquadramento em sanções previstas na Ordem Executiva 13224, instrumento usado para combater organizações ligadas ao terrorismo.
O QUE MUDA
A inclusão na lista da Ofac se dá depois de os Estados Unidos anunciarem, na 5ª feira (28.mai.2026), que passarão a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações “terroristas”.
Segundo o promotor de Justiça do Ministério Público de São Paulo, Lincoln Gakiya, especializado no combate ao crime organizado, a medida tem potencial de afetar o sistema financeiro brasileiro por meio de sanções e acarretar em operações secretas da CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos) no país.
Em entrevista ao jornal O Globo, Gakyia disse que empresas investigadas em casos como a operação Carbono Oculto por possível ligação com o PCC podem ser alvo de punição. “Esses valores foram parar na gestora de fundos Reag que, por sua vez, no Banco Master. O Banco Master negociou títulos com grandes bancos do Brasil, que têm negócios em dólar com o sistema financeiro norte-americano”, afirmou.
GOVERNO REPUDIA
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta 6ª feira (29.mai.2026) que medidas dos Estados Unidos contra facções criminosas podem afetar o sistema financeiro brasileiro e “inovações nacionais como o Pix”, que, segundo o Planalto, “incomodam interesses estrangeiros”.
Segundo o comunicado brasileiro, ações “não negociadas” podem provocar prejuízos econômicos, reduzir a cooperação entre as polícias e atingir ferramentas financeiras nacionais. Não há, entretanto, nada no comunicado dos EUA que faça menção a uma iminente investida contra o Pix ou o sistema financeiro brasileiro. Leia a íntegra (PDF – 352 kB).
Há também uma avaliação do governo brasileiro de que a classificação das facções como “terroristas” podem facilitar intervenções unilaterais norte-americanas no Brasil –preocupação ampliada após a invasão da Venezuela, em fevereiro deste ano.
Em nota divulgada após o anúncio da 5ª feira, o assessor especial da Presidência, Celso Amorim, afirmou que a “segurança pública é um tema fundamental para o desenvolvimento socioeconômico. Crime organizado é um mal que tem que ser combatido. Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável”.
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