Ludhmila Hajjar defende regulação de IA para soberania do Brasil

No Fórum de Lisboa, médica diz que regras a serem definidas no país devem seguir caminho parecido ao do marco civil da internet

A médica Ludhmila Hajjar defendeu a necessidade de o Brasil desenvolver marcos regulatórios para IA (inteligência artificial) que garantam soberania tecnológica ao país. A declaração foi feita durante debate no 14º Fórum de Lisboa, iniciado nesta 2ª feira (1º.jun.2026).

Hajjar defendeu que o Brasil pode ter marcos regulatórios que permitam o crescimento com soberania, utilizando dados e modelagem disponíveis dentro das camadas da cadeia de valor.

Hajjar afirmou que a inteligência artificial se tornou central nas discussões geopolíticas do século 21, contrastando com o século 20, quando o foco estava na indústria consolidada, energia, poderio militar e expansão territorial.

A profissional explicou que a IA possui uma cadeia de valor com múltiplas camadas. A mais básica começa com chips e dados, área em que, segundo ela, o Brasil não possui domínio completo. A camada intermediária inclui nuvens, data centers, governança e transformação da informação em aplicação. A 3ª abrange os modelos e as aplicações, que recebem maior atenção da mídia e em que o Brasil tem mais propriedade.

Hajjar afirma que discutir soberania na era da inteligência artificial não se trata de “luxo ou retórica”, mas da capacidade do país de ser “dono da própria inovação”.

A médica alertou que o debate sobre inteligência artificial não pode ser restrito à classe alta do país, e considerou as deficiências do sistema educacional brasileiro nos últimos anos. Reconhecer que o Brasil não é soberano em chips e dados, afirmou, não é pessimismo, mas uma questão estratégica.

Durante o debate, ela mencionou o PL (Projeto de Lei) 2338 de 2023, cujo relator é o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), presente no debate. O texto, de autoria do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), já foi aprovado no Senado Federal e segue em tramitação na Câmara. O projeto trata da regulamentação do uso de IA.

A profissional comparou a necessidade de regulação da inteligência artificial ao marco civil da internet. “Como nós tivemos o marco civil da internet pelo Supremo Tribunal Federal, a rediscussão do artigo 19, nós precisamos ter uma regulação, nós precisamos ter uma governança”, afirmou.

Hajjar ressaltou que a regulação não garante soberania, mas permite levar a inteligência artificial mantendo princípios fundamentais, especialmente nas áreas de saúde e educação. A médica defendeu que a tecnologia jamais poderá substituir o trabalho humano e deve preservar os direitos fundamentais.

A palestrante indicou a saúde como o modelo ideal para inovar em inteligência artificial no Brasil, destacando o volume de dados do SUS (Sistema Único de Saúde), que atende 210 milhões de pessoas. “Não sei se vocês conhecem esse dado, mas o Brasil tem 3,8 bilhões de consultas médicas por ano”, disse. “É um sistema único, universal, integrado, e que permeia 210 milhões de pessoas”. Para Hajjar, nenhum outro país possui essa multiplicidade de dados, que, se integrados e digitalizados, colocarão o Brasil em destaque na saúde digital.

Hajjar também ressaltou a criação do 1º hospital inteligente do país, que será implementado diretamente no SUS. A médica enfatizou que a iniciativa provou ser “um projeto de Estado e não de governo”, conseguindo unir forças políticas de diferentes espectros e instituições financeiras internacionais.

Ludhmila Hajjar é a idealizadora do projeto, que é uma parceria entre o governo federal, a USP (Universidade de São Paulo) e o Estado de São Paulo. O plano prevê a implementação do Instituto Tecnológico de Emergência do Hospital das Clínicas da USP.

Hajjar reforçou que o hospital inteligente não tem bandeira partidária: “Não é um projeto da esquerda, não é um projeto da direita. É um projeto de inovação que vai beneficiar o Brasil, para os brasileiros”.

Assista à íntegra do discurso da médica Ludhmila Hajjar (15min46s): 

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-saude/ludhmila-hajjar-defende-regulacao-de-ia-para-soberania-do-brasil/

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