Com cerco de Trump, Brasil não enviará combustíveis para evitar sanções à Petrobras e vê semelhança com o que antecedeu a operação na Venezuela
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) articula o envio de uma nova remessa de ajuda humanitária a Cuba. A informação foi confirmada ao Poder360 nesta 6ª feira (22.mai.2026) pelo Ministério das Relações Exteriores.
Segundo apurou este jornal digital, a operação demandará uma ação conjunta com agências da Espanha e do México via PMA (Programa Mundial de Alimentos). O modelo foi discutido em Barcelona em abril e busca otimizar custos de frete para o envio de alimentos e medicamentos à ilha.
Desde o início de 2026, o Brasil já realizou duas remessas humanitárias à ilha. O governo brasileiro, porém, nega qualquer ajuda na área energética. Com ações listadas na Bolsa de Nova York, a Petrobras sofreria sanções imediatas dos Estados Unidos caso viesse a fornecer combustível ao país caribenho –o que inviabiliza esse tipo de iniciativa.
Internamente, há um componente político adicional. O Brasil vive um momento de esforço para conter a alta dos combustíveis associada à escalada das tensões no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Abrir uma frente que exponha a Petrobras a sanções americanas agravaria esse cenário.
A operação de ajuda humanitária é coordenada pela ABC (Agência Brasileira de Cooperação), vinculada ao Itamaraty. Desde a 1ª remessa, o governo brasileiro avalia a possibilidade de canalizar parte da assistência por meio de organismos internacionais ligados à ONU (Organização das Nações Unidas). O caminho foi adotado por outros países, como a Espanha, para evitar sanções.
O modelo conjunto com agências espanhola e mexicana, coordenado pelo PMA, permite concentrar o transporte e baratear o frete –já que viagens isoladas de cada país encarecem a operação. O PMA mantém um escritório em Cuba que identifica as necessidades locais.
Em 18 de abril, à margem do Fórum Democracia Sempre em Barcelona –onde Pedro Sánchez recebeu Lula e Claudia Sheinbaum–, Brasil, Espanha e México publicaram declaração conjunta. No texto, expressaram “profunda preocupação com a grave crise humanitária que afeta o povo cubano”. Comprometeram-se a intensificar a resposta coordenada e repudiaram ações contrárias à soberania da ilha.
A triangulação não é inédita. Em 2024, os Emirados Árabes compraram alimentos no Brasil no valor de US$ 50 milhões, e Cuba enviou um navio para retirá-los. O gargalo atual é o combustível para movimentar as próprias embarcações cubanas.
O México enfrenta a mesma limitação que o Brasil em relação ao combustível. A Pemex, estatal mexicana de energia com títulos emitidos no mercado americano, também estaria sujeita a sanções caso viesse a fornecer petróleo a Havana.
ESCALADA EM CUBA LEMBRA VENEZUELA
O governo de Donald Trump (Partido Republicano) intensificou o cerco à ilha nas últimas semanas. Em 20 de maio, indiciou o ex-presidente Raúl Castro. Segundo o chefe do Departamento de Justiça dos EUA, Todd Blanche (Partido Republicano), a acusação se refere ao abate de duas aeronaves de um grupo de cubanos exilados, em 24 de fevereiro de 1996.
Esses sinais, na avaliação do Planalto, lembram as ações adotadas antes da operação contra a Venezuela que terminou com a captura de Nicolás Maduro (PSUV, esquerda), em janeiro. No entanto, o governo avalia que uma ação militar direta ainda é menos provável no curto prazo, dado que o conflito no Oriente Médio segue consumindo as prioridades de Washington.
A crise em Cuba foi aprofundada pelas sanções americanas que, na avaliação brasileira, antecedem e superam em impacto qualquer ameaça de ação militar direta.
A posição do Brasil sobre o tema foi transmitida pelo presidente Lula a Donald Trump na última reunião com o norte-americano, em 7 de maio.
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Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-governo/governo-lula-articula-nova-operacao-de-ajuda-a-cuba/