Decisão da autoridade monetária norte-americana pode afetar o fluxo de capitais e o câmbio no Brasil ao aumentar a incerteza sobre juros nos EUA
Em sua 1ª reunião como presidente do Fed (Federal Reserve), Kevin Warsh, indicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano), comandou uma mudança na comunicação da autoridade monetária norte-americana.
O Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto) decidiu, por uma votação unânime –12 a 0–, manter a taxa básica de juros no intervalo de 3,50% a 3,75%. A decisão já era esperada pelo mercado. Contudo, o destaque técnico do encontro foi a retirada completa do chamado forward guidance –sinalização explícita sobre os próximos passos da política monetária.
MUDANÇAS NA COMUNICAÇÃO
A ferramenta utilizada pelos bancos centrais para informar o público sobre o curso provável da política monetária no futuro permite que empresas e indivíduos tomem decisões de investimento com base nessa indicação. A prática tornou-se um dos principais instrumentos do Fed após a crise financeira de 2008 e foi amplamente utilizada durante a pandemia, de acordo com o Federal Reserve.
Agora, o comitê instruiu a mesa de operações de Nova York a executar as transações necessárias para manter os juros no patamar atual “até que recebam novas instruções”, segundo o documento de implementação de política monetária. Eis a íntegra (PDF – 155 kB, em inglês).
A decisão de silenciar sobre o futuro se dá em um momento em que a atividade econômica se expande em um “ritmo sólido”, com crescimento forte de produtividade e investimentos, segundo o comunicado.
No entanto, o comitê alertou para um cenário de “incerteza elevada” associado em parte ao conflito no Oriente Médio, que afeta as perspectivas globais de energia e comércio.
COMO FICA O MERCADO E O BRASIL
Para os investidores, a ausência de pistas reduz a previsibilidade sobre os próximos passos e aumenta a dependência de dados econômicos futuros, como inflação, emprego e atividade, para estimar o rumo dos juros norte-americanos. Na prática, isso significa que cada novo indicador divulgado nos EUA passa a ter maior potencial de alterar as expectativas do mercado, provocando movimentos mais intensos em bolsas, títulos públicos e no câmbio.
As decisões têm repercussão global porque os juros nos EUA servem de referência para o sistema financeiro internacional. Quando os investidores acreditam que as taxas no país permanecerão elevadas por mais tempo, os títulos do Tesouro norte-americano –considerados os ativos mais seguros do mundo– tornam-se relativamente mais atraentes.
Nesse cenário, parte do capital internacional tende a migrar de economias emergentes, como o Brasil, para os EUA. A saída de recursos reduz a oferta de dólares em mercados emergentes e tende a fortalecer a moeda americana frente ao real.
Um dólar mais forte encarece produtos importados e insumos cotados na moeda norte-americana, como combustíveis, fertilizantes e componentes industriais, pressionando a inflação brasileira. Com preços mais pressionados, o Banco Central pode encontrar menos espaço para reduzir a Selic ou ser levado a manter juros elevados por mais tempo.
A retirada do forward guidance não altera imediatamente o patamar dos juros nos Estados Unidos, mas aumenta a incerteza sobre sua trajetória futura. Para países emergentes, essa incerteza também se traduz em maior volatilidade cambial, mudanças nos fluxos de capital e condições financeiras mais restritivas.
O FORWARD GUIDANCE
A decisão de Warsh marca o fim de uma prática iniciada no início dos anos 2000, quando o Fed passou a usar comunicados pós-reunião para sinalizar o curso futuro da política monetária, segundo o relatório “FEDS Notes”. Eis a íntegra (PDF – 770 kB, em inglês).
A importância dessa ferramenta é demonstrada pelo contraste histórico: em 1994, o Fed não emitia comunicados e o aperto monetário não foi antecipado pelo público, resultando em um salto de 14 pontos-base no rendimento dos títulos de 10 anos no dia de anúncio e uma alta de 200 pontos-base nos 9 meses seguintes, segundo as notas técnicas do Fed.
Já em 2004, a autoridade monetária utilizou termos como “ritmo comedido” (measured pace) para preparar os investidores, o que fez com que a reação do mercado fosse mais muda, com o rendimento dos títulos de 10 anos chegando a cair 8 pontos-base no dia do ajuste
Ao remover essa sinalização agora em 2026, Warsh opta por uma comunicação mais restrita, acreditando que promessas detalhadas podem “limitar a flexibilidade da autoridade monetária e causar distorções nas expectativas”.