Rogério Boueri, diretor da ABFiagro e idealizador da modalidade de investimentos, diz que agro cresce acima do crédito público e defende redirecionar Plano Safra aos pequenos
O avanço dos Fiagros, fundos ligados ao agronegócio negociados na bolsa, tem se consolidado como alternativa aos mecanismos tradicionais de financiamento do setor.
Hoje, o agro brasileiro depende do Plano Safra, mas a escala que o país atingiu (3º maior produtor e maior exportador líquido de alimentos) passou a exigir novas fontes de capital.
“A agricultura brasileira cresce muito mais rápido que a disponibilidade orçamentária”, disse Rogério Boueri, economista e diretor da recém-fundada ABFiagro. “O plano [safra] está se esgotando, é vítima do próprio sucesso”, afirmou ao Poder360.
Assista à entrevista (30m13s):
Em junho, os Fiagros vão completar 5 anos. O estoque de investimentos é de aproximadamente R$ 40 bilhões. Em média, são R$ 8 bilhões por ano investidos no setor.
Nesse cenário, Boueri defende ampliar o uso do Fiagro e a participação do mercado de capitais no financiamento do setor.
A proposta passa por reorganizar o papel do Estado no crédito rural, hoje baseado em subsídios amplos. Além disso, permitir novas ações, como compra de dívidas de agricultores, mecanismo presente em outras áreas da economia.
“O recurso do governo deve ser cada vez mais focado nas operações que têm externalidade, como a agricultura familiar.”
Leia trechos da entrevista:
Poder360 – O agro depende muito do dinheiro público para financiar a produção, sobretudo com o plano safra. O investimento privado, como os Fiagros, pode mudar esse jogo?
Rogério Boueri – Sim. O agro, embora ainda dependa do Plano Safra, de fundos públicos e de regras que obrigam instituições financeiras a aplicar no setor, está cada vez menos dependente. A agricultura brasileira cresce muito mais rápido que a disponibilidade orçamentária. O próprio Fiagro é uma manifestação desse descompasso. Há também outros instrumentos em expansão, como CPRs e LCAs. A proposta do Fiagro é liberar o potencial do mercado de capitais para financiar, sobretudo, a grande agricultura. Com isso, o recurso público, que não cresce no mesmo ritmo dos negócios, tende a se concentrar em operações com maior externalidade, como a agricultura familiar e iniciativas com impacto ambiental positivo. Estamos falando de um agronegócio que precisa ser conduzido e financiado como um business.
Como o governo gasta com o Plano Safra?
Vamos supor a Selic em 15%. No Plano Safra, o produtor rural acessa crédito a 10%. A diferença de 5 pontos percentuais, somada a cerca de 2% de custos administrativos, é bancada pelo governo. O agricultor paga os 10% contratados, enquanto os outros 7% vêm do orçamento público, via Tesouro Nacional. Esse mecanismo é a equalização da taxa de juros. Há ainda a exigibilidade: bancos com patrimônio líquido acima de R$ 500 milhões devem direcionar 31,5% dos depósitos à vista ao crédito rural. Esse modelo foi bem-sucedido —ajudou a transformar o Brasil de importador de grãos no maior exportador líquido agropecuário do mundo, além de 3º maior produtor e 2º maior exportador total. Mas começa a dar sinais de esgotamento. Hoje, a agricultura já não cabe no orçamento.
E como o fiagro chega na sociedade?
O Fiagro tem várias modalidades, mas funciona como uma ponte entre a produção agropecuária e a poupança popular. Com cerca de R$ 10, qualquer pessoa pode comprar uma cota na bolsa. Antes, 99% das operações ligadas ao produtor rural ou ao agronegócio eram restritas a investidores profissionais ou qualificados. A lógica é simples: a agricultura brasileira tende a crescer nas próximas décadas, impulsionada pelo aumento da população mundial e da renda. Quem sai da pobreza passa a consumir mais alimentos e energia. O Brasil é um dos poucos países com capacidade de expandir a produção sem desmatamento. Há mais de 20% do território em pastagens, metade degradada, que pode ser convertida. É possível, em tese, dobrar a produção. O que falta é financiamento. O Fiagro surge como forma de conectar esse potencial ao investidor. A FAO estima que a agricultura brasileira pode crescer mais de 40% nos próximos 10 anos para atender à demanda global. Esse crescimento exige capital. Ao mesmo tempo, o Plano Safra é uma despesa discricionária —só se torna obrigatória após a contratação. Com o avanço das despesas obrigatórias, o espaço orçamentário fica mais restrito. Nesse contexto, o mercado de capitais tende a assumir um papel maior no financiamento do agro.
Em quais modalidades o fiagro se divide?
Há várias modalidades. Na criação, a CVM estruturou 3 principais: FIP (participações), FIDC (direitos creditórios) e imobiliário. O FIP investe em empresas do setor; o FIDC compra dívidas de produtores; e o imobiliário adquire terras. Nos fundos imobiliários e nos FIPs, o retorno vem sobretudo da valorização das cotas —por exemplo, ao comprar uma terra, melhorar sua produtividade e capturar esse ganho no preço. Já o FIDC se aproxima da renda fixa: o investidor financia o produtor, recebe juros e esses fluxos viram dividendos. A cota oscila no mercado, podendo gerar ganho ou perda de capital, mas os rendimentos tendem a ser recorrentes —em geral mensais, como nos FIIs (Fundos de Investimento Imobiliário), que inspiraram o modelo dos Fiagros.
Hoje, qual o estoque de Fiagros no mercado de capitais?
Algo entre R$ 35 bilhões e R$ 40 bilhões, com espaço para crescer, apesar da expansão recente. Os FIIs levaram de 10 a 15 anos para ganhar tração; o Fiagro tem cerca de 5 anos. A regulamentação inicial da CVM foi bem desenhada e, agora, a resolução 175 amplia as possibilidades, ao permitir estruturas multimercado e maior flexibilidade nas operações. Com a taxa de juros elevada, esses fundos perdem competitividade frente à NTN-B, do Tesouro Direto. Ainda assim, a expectativa é de retomada do crescimento —ainda que em ritmo mais gradual.
Qual o fluxo anual dos Fiagros?
Os Fiagros não crescem de forma linear. Mudanças nas regras de provisionamento bancário impulsionaram o mercado em determinados momentos, tornando esses ativos mais atrativos para os bancos. Em termos médios, porém, R$ 40 bilhões em 5 anos equivalem a cerca de R$ 8 bilhões por ano —com oscilações relevantes. Houve forte entrada no início, seguida de retração com a guerra da Ucrânia, depois nova expansão e, mais recentemente, uma desaceleração. Essa redução recente também reflete o cenário externo, como a guerra no golfo [Pérsico], ainda que com impacto limitado para o agro brasileiro.
Qual a relação dos fundos de investimento imobiliário com a taxa de juros?
O princípio é o mesmo nos Fiagros e nos FIIs. Suponha um investimento de R$ 100: o Fiagro pode oferecer CDI +10, mas com mais risco. Já a NTN-B, em alguns momentos, paga CDI +7, com risco bem menor. Para competir, o Fiagro precisa elevar o retorno —por exemplo, para CDI +13— o que ocorre via ajuste no preço da cota. Ao cair o preço, o valor investido diminui e, como os dividendos tendem a ser mais estáveis, a rentabilidade sobe. É esse o mecanismo de ajuste entre risco e retorno no mercado.
E por que a guerra no golfo Pérsico não impacta tanto a agricultura?
Há impacto negativo, sobretudo pelo lado dos fertilizantes. A guerra no golfo afeta insumos como nitrogênio e enxofre, usados nos fosfatados. No Brasil, porém, o efeito é menor no caso do nitrogênio, já que a soja utiliza fixação biológica —tecnologia desenvolvida pela Embrapa. O enxofre segue como ponto de atenção. Pelo lado da demanda, o fluxo continua. O Irã segue comprando milho brasileiro, ainda que com alguma redução. Para os países do Golfo, o setor tem buscado rotas alternativas. O custo logístico aumentou, mas as exportações não foram interrompidas. A agricultura brasileira segue batendo recordes. É um cenário desafiador, mas, por ora, longe de ser desastroso.
A guerra entrou na fase de estrangulamento. A impressão é que não será tão duradoura. Como o agro antevê o fim dessa disputa?
Se a tática de estrangulamento continuar, a logística tende a ficar mais cara, mas o agro já busca alternativas. Um exemplo é o uso de rotas via Turquia, com entrada pelo Mediterrâneo e transporte terrestre. Fica mais caro? Fica. Mas chega. Não é um cenário favorável, mas o Brasil tem diversificação de mercados e capacidade de adaptação. Tensões comerciais globais também abrem oportunidades —como a ampliação de negociações com Japão e Coreia para carne bovina, em meio a rearranjos nas cadeias internacionais. A diplomacia agrícola e a base de clientes ajudam a sustentar as exportações. Em paralelo, fatores climáticos podem alterar a competitividade relativa. Eventos como El Niño tendem a afetar concorrentes relevantes, como Índia (açúcar) e Vietnã (café), enquanto a extensão territorial do Brasil permite compensações regionais. Essa diversificação geográfica —com produção do Pará ao Rio Grande do Sul— funciona como hedge climático, reduzindo a volatilidade que outros grandes produtores não conseguem mitigar na mesma escala.
A ABFiagro tem pouco mais de 1 mês. Como vocês pretendem ampliar os Fiagros?
No caso do Plano Safra, a ideia é usar o arsenal dos Fiagros e do mercado de capitais para complementar a atuação do governo. Já existem operações conduzidas por gestoras com produtores endividados, que podem ser ampliadas. Outra frente é direcionar recursos hoje ociosos para os Fiagros, permitindo que instituições financeiras atuem como cotistas. A proposta é canalizar esse capital ao produtor rural, sob supervisão do Banco Central.
Recentemente, vocês tiveram uma reunião no Ministério da Agricultura e levaram uma série de propostas. Quais as principais?
A principal proposta é o Fiagro de renegociação. Trata-se de uma operação já existente, ainda em menor escala e totalmente privada, que pode ser ampliada com participação do governo. A ideia é substituir o gasto direto com renegociação no Plano Safra pela compra de cotas desses Fiagros. Hoje, essa frente funciona como “fundo perdido”, via subsídio de juros. Com o Fiagro, o recurso se transforma em ativo: permanece aplicado e pode retornar ao governo ou ser reutilizado em novas operações após a quitação das dívidas.
Outra bandeira que vocês têm é o apoio às mudanças nas regras de seguro rural. Como essas novas regras podem impactar a agricultura como um todo?
As regras atuais buscam estimular o seguro rural, mas o modelo é considerado pouco eficiente. Hoje, há duas estruturas principais. Uma é o programa de subvenção, em que o governo paga parte do prêmio e a seguradora assume o risco. A outra é o Proagro, que não é formalmente um seguro, mas funciona como tal: o Tesouro cobre a dívida do produtor em caso de perdas, assumindo integralmente o risco. Como o Proagro é despesa obrigatória, pressiona o orçamento e reduz espaço para a subvenção. A proposta em discussão, associada ao projeto da senadora Tereza Cristina, busca reorganizar esse sistema e priorizar modelos em que o governo paga, mas não carrega o risco. A ABFiagro também defende aprimorar o uso do seguro rural como garantia de crédito. A ideia é estabelecer regras contratuais que permitam seu reconhecimento como mitigador de risco para fins de Basileia, reduzindo a exigência de capital dos bancos e, potencialmente, o custo do financiamento. O Banco Central, segundo Boueri, demonstrou abertura inicial à proposta.
A CCJ da Câmara dos Deputados aprovou a redução da escala de trabalho de 6 X 1. Como essa mudança na escala de trabalho impacta o agro?
No agro, há uso intensivo de mão de obra nos períodos de safra e de semeadura, o que torna a produtividade um fator central. Para o produtor, não basta reduzir a jornada se houver queda na produção por trabalhador. No curto prazo, como os salários são rígidos e não podem ser reduzidos, a mudança tende a elevar custos. Com o tempo, porém, em um ambiente de inflação mais alta, o ajuste ocorre via salário real, que se adapta à nova escala.