Acidente deixou cidade inabitável e mudou a visão mundial sobre segurança nuclear
A explosão do reator de Chernobyl, na Ucrânia, completa 40 anos neste domingo (26.abr.2026). O acidente foi o mais grave da história nuclear industrial e mudou a visão mundial sobre segurança energética nuclear.
Em 1986, um dos reatores da Usina Nuclear de Chernobyl, perto de Pripyat (na época União Soviética e, atualmente, Ucrânia) explodiu e tornou a cidade inteira inabitável. Foram contaminados cerca de 150.000 km² ao redor da usina.
Cerca de 200.000 pessoas foram realocadas, incluindo os 49.360 habitantes de Pripyat. O número exato de mortes diretamente ligadas ao desastre é debatido, mas sabe-se que ao menos 30 liquidadores (funcionários que trabalharam na contenção e limpeza) morreram nas primeiras semanas. Estima-se também que milhares de outras vítimas tenham desenvolvido cânceres e outras complicações em decorrência da radiação.
O ACIDENTE
O acidente foi um combinado de falhas técnicas e humanas durante um teste de segurança das turbinas do reator 4. O teste pretendia checar se, durante uma queda de energia, ainda seria possível manter as bombas de resfriamento funcionando. Os funcionários reduziram a potência do reator abaixo dos níveis seguros e desativaram os sistemas emergenciais de desligamento.
O reator utilizado, do tipo RBMK, funcionava como um bloco de grafite com tubos verticais por onde circulavam água e urânio, o combustível nuclear. Dentro dos tubos, o urânio passava pela fissão nuclear, liberando calor e nêutrons. A água absorvia o calor e virava vapor, que movimentava as turbinas e gerava eletricidade.
Na maioria dos reatores, a água resfria o sistema e absorve nêutrons, diminuindo a reação. Já no RBMK, quando a água virava vapor, deixava de absorver nêutrons, enquanto o grafite continuava acelerando a reação. Isso criava um ciclo de superaquecimento incontrolável.
Para manter a estabilidade, o reator usava barras de controle de boro com pontas de grafite. Ao serem inseridas, causavam um pico inicial de energia antes da redução. Esse pico fez o reator perder o controle, resultando em duas explosões e um incêndio que durou dias, liberando grande quantidade de material radioativo. Após a explosão, os destroços foram cobertos por uma estrutura de concreto e aço chamada “sarcófago” para reduzir a dispersão de partículas radioativas. Apesar do acidente, a usina continuou operando com outros reatores até 2000.
Assista ao vídeo que mostra o “sarcófago” (1min3s):
SEGURANÇA NUCLEAR
Depois do acidente, a visão sobre a segurança nuclear mudou de forma global.
Em setembro de 1986, em Viena, foram assinadas por mais de 60 países a Convenção sobre a Pronta Notificação de Acidente Nuclear e a Convenção sobre Assistência em Caso de Acidente Nuclear. Ambos os tratados foram elaborados pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) como uma tentativa de evitar novos desastres.
Para Polina Kolodiazhna, coordenadora de Programas do Greenpeace Ucrânia e que trabalha diretamente com riscos nucleares, o impacto de Chernobyl na sociedade ucraniana criou uma nova consciência pública sobre os perigos do sigilo, da falta de responsabilização estatal e do risco tecnológico, mas que é deixada de lado.
“Infelizmente, muitas das lições do desastre de Chernobyl foram ignoradas e muitas estão sendo deliberadamente esquecidas. Para a indústria nuclear ocidental, fora da União Soviética, a alegação era de que Chernobyl não poderia acontecer com seus reatores. Uma das razões apresentadas era que projetos ocidentais, como o Reator de Água Leve Pressurizada da Westinghouse ou o Reator de Água Fervente da General Electric, têm contenção revestida de aço e concreto, o que o RBMK de Chernobyl não tinha, e, portanto, uma liberação maciça de radioatividade não seria possível. O desastre de Fukushima Daiichi em 2011 provou que eles estavam completamente errados. Reatores nucleares de todos os projetos são capazes de falhas catastróficas […]. Hoje, o lobby da indústria nuclear está tentando, e conseguindo, reduzir e até mesmo eliminar critérios de segurança. Por exemplo, a Comissão Reguladora Nuclear dos EUA (NRC) pretende isentar novos reatores da necessidade de contenção e também da inclusão de análises de acidentes graves no projeto, justificando essa medida com o argumento de que o risco de acidentes é tão baixo que se torna desnecessário”.
Polina diz que a decisão não é científica, mas puramente econômica. Segundo a coordenadora, a indústria nuclear “não tem futuro se não conseguir reduzir drasticamente os custos”.