Colunista no “NYT” e vencedor do Pulitzer afirma que nação asiática quer que “todos no mundo dependam” dela, mas que ela “não dependam de ninguém
O jornalista norte-americano Thomas Friedman, colunista do New York Times e vencedor do prêmio Pulitzer por 3 vezes, disse que o presidente da China, Xi Jinping, opera na lógica de “vamos produzir tudo para todos”. Segundo ele, o país asiático busca fazer com que “todos no mundo dependam” deles, mas que eles “não dependam de ninguém” –algo que declarou não ser sustentável e que pode se virar contra os chineses.
Friedman participou nesta 3ª feira (2.jun.2026) do 14º Fórum de Lisboa. O keynote speech teve como tema “Nova ordem global: tecnologia, geopolítica e o futuro da democracia”. Ele estava acompanhado do ministro do Supremo Tribunal Federal e anfitrião do evento, Gilmar Mendes, e de André Esteves, chairman e sócio-sênior do BTG Pactual.
A edição deste ano do Fórum de Lisboa tem uma mudança de embocadura. O evento está mais globalizado e com um recorde de palestrantes internacionais –e não só concentrado em temas brasileiros e portugueses. Friedman, que já havia participado do evento em 2024, voltou a participar.
“Eu diria que um mundo onde a China tenta produzir tudo para todos é um mundo que eventualmente se voltará contra a China. Não acho que seja sustentável”, disse o jornalista.
“Ao mesmo tempo, é impressionante o que eles estão fazendo, mas também é impressionante porque Xi Jinping continua demitindo todos os seus secretários de Defesa e líderes militares. Algo está acontecendo lá que não entendemos”, declarou.
Friedman afirmou que, se fosse desenhar uma caricatura da China, “teria a parte superior do corpo do Popeye”, cheia de músculos, “e a parte inferior do corpo de sua mulher”, a Olívia Palito.
“Parte superior do corpo: incríveis capacidades de manufatura avançada, diferentes de qualquer outro país do mundo. Parte inferior do corpo: sem previdência social, sem um sistema de saúde decente e no meio da maior bolha imobiliária da história do país. Então, sabe, duas coisas acontecendo ao mesmo tempo”, declarou.
Marina Ferraz/Poder360 – 2.jun.2026
Da esquerda para a direita: André Esteves, do BTG Pactual; o jornalista Thomas Friedman; e Gilmar Mendes, decano do STF
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Friedman usou parte significativa do seu discurso falando sobre o desenvolvimento da inteligência artificial e as ramificações no mundo. Segundo ele, a IA é a maior questão legal, judicial, ética e democrática com a qual o mundo lida neste momento.
Ele disse que, na sua avaliação, a IA é “uma nova espécie” e que a humanidade precisa aprender a lidar com isso ou será usada pela tecnologia. Afirmou que o mundo passou de “plano” para uma sociedade “fundida”, “hiperconectada” e “interdependente”.
O jornalista declarou: “Essa é a nossa condição. Vamos ascender juntos ou vamos cair juntos. Mas, seja o que for que façamos daqui para frente, faremos juntos. E é com isso que o mundo está lidando agora”.
Friedman mencionou que o mundo enfrenta “problemas de escala planetária” que “só têm soluções de escala planetária”. Uma delas é a gestão da IA. “Não é à base de carbono como nós. É à base de silício, mas é uma nova espécie. Em 1º lugar, temos que lidar com isso juntos”, disse.
Quando falava sobre a China, o jornalista afirmou que “a única forma de gerenciar” a tecnologia é uma união entre o país asiático e os Estados Unidos. Segundo ele, as duas superpotências da IA precisam “se unir” e “concordar com regras legais, éticas e morais para a era da IA”.
O jornalista lembrou do problema que os EUA tiveram com o TikTok, quando o presidente norte-americano, Donald Trump (Partido Republicano), queria banir o aplicativo sob o argumento de que os dados dos usuários norte-americanos eram gerenciados pela China por meio da ByteDance, empresa responsável pela rede social.
“O que acontece na era da IA, quando tudo é digital? Seu carro, seus óculos, [a IA] está entrando em tudo”, declarou.
Além da IA, ele mencionou outros “problemas de escala planetária” que precisam de união mundial para serem resolvidos: mudanças climáticas, armas nucleares e biológicas, imigração e cadeias de suprimentos globais.
De acordo com Friedman, “os pequenos agora podem agir de forma realmente grande, e os grandes agora podem agir de forma realmente pequena”. Ele usou como exemplo o conflito no Oriente Médio.
“Os Estados Unidos da América, com um ataque, um único ataque, mataram todos os principais líderes do Irã. Um ataque. Isso é o grande agindo de forma pequena”, afirmou.
“Desde então, o pequeno tem agido de forma muito grande, porque com os US$ 10.000 que tinha, o Irã foi capaz de fechar o estreito de Ormuz e desafiar a potência norte-americana rica e milionária”, disse.
“O que a Ucrânia está fazendo com a Rússia, o que o Hezbollah está fazendo com Israel, o que o Irã está fazendo com os Estados Unidos agora, está mudando a dinâmica do mundo, com os pequenos agindo de forma grande. É um mundo pequeno, atuante e em construção. Um mundo útil, poderoso e inteligente. E estamos colocando IA em tudo”, declarou.
14º FÓRUM DE LISBOA
O tema do Fórum de Lisboa deste ano é “Nova ordem internacional, tecnologia e soberania: desafios democráticos, econômicos e sociais”. Todos os debates serão realizados de 1º a 3 de junho na Universidade de Lisboa.
O evento terá a presença de nomes como Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, Magda Chambriard, presidente da Petrobras, e Aloízio Mercadante, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
O número total de participantes no Fórum de Lisboa aumentou de 360 em 2025 para 450 em 2026. É um recorde para o evento. Mas o total de autoridades brasileiras caiu com relação ao ano passado –a única exceção é no Legislativo, que terá 2 congressistas a mais neste ano. A mudança de embocadura do tema central do encontro, mais globalizado, é a razão de haver mais palestrantes de outros países e não apenas do Brasil e de Portugal.
O 14º Fórum de Lisboa recebeu o Alto Patrocínio da Presidência da República Portuguesa, dada pelo presidente português a iniciativas, eventos, congressos, projetos ou comemorações que são considerados de especial interesse público, relevância cívica, cultural, científica, social ou econômica para Portugal.
Não se trata de conceder financiamento ou apoio material. É uma chancela de reconhecimento e prestígio institucional.
A distinção, segundo a organização do evento, “reconhece a relevância institucional, acadêmica e cívica do evento, bem como sua contribuição para o fortalecimento do debate democrático e para a reflexão sobre os desafios contemporâneos enfrentados por Portugal, pelo Brasil e pela comunidade internacional”.
Leia mais sobre o 1º dia do 14º Fórum de Lisboa:
Leia mais sobre o 2º dia do 14º Fórum de Lisboa: