El Niño ameaça preços internacionais do agro em 2026, diz especialista

Fenômeno pode favorecer a produção de grãos, mas elevar os riscos climáticos em algumas regiões do país

O El Niño pode ter efeitos ambíguos sobre o agronegócio brasileiro. A afirmação é do analista de inteligência de mercado da StoneX –empresa de serviços financeiros com atuação em commodities–, Rafael Bulascoschi. O fenômeno pode favorecer a produção de grãos em parte das principais regiões produtoras, mas também pressionar os preços internacionais e elevar o risco de eventos climáticos extremos em áreas como o Sul do país.

Segundo a agência americana responsável pelo monitoramento das águas do Oceano Pacífico, a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, na sigla em inglês), já é quase certo que o El Niño ocorrerá. Dados da agência apontam para 82% de probabilidade de formação do fenômeno entre o início de maio e o fim de julho de 2026. Nos meses seguintes, a chance é elevada para 92% e 98% posteriormente –a partir de agosto.

Há ainda de 3% a 35% de chance de o El Niño ser classificado como “forte”, a depender do período analisado. Já a probabilidade de o fenômeno atingir a categoria “muito forte” chega a 37%.

IMPACTO NAS COMMODITIES AGRÁRIAS

O impacto do El Niño sobre o agro ocorre principalmente pela mudança no regime de chuvas e temperaturas em regiões produtoras. Em alguns países, o fenômeno reduz o risco de estiagens e melhora as condições de desenvolvimento das lavouras. Em outros, aumenta a probabilidade de seca ou de excesso de precipitação, o que pode prejudicar a produtividade.

No mercado de commodities, essa dinâmica afeta a relação entre oferta e demanda. Quando o clima favorece grandes produtores, a produção tende a crescer, aumentando a disponibilidade global de grãos e pressionando os preços para baixo. Quando há quebra de safra em regiões relevantes, o efeito pode ser o oposto: menor oferta, estoques mais apertados e cotações em alta.

Bulascoschi afirma que, no caso dos grãos, a preocupação para o Brasil pode estar mais ligada aos preços do que a uma perda expressiva de produtividade. 

“O El Niño tende a estar correlacionado a momentos de baixa nos preços de grãos”, disse.

A lógica, segundo ele, é que o fenômeno costuma favorecer a produção em países como os Estados Unidos, principal produtor mundial de milho e um dos líderes globais em soja. Com mais oferta, os preços internacionais tendem a recuar.

Porém, o especialista ressalta que o efeito é reverso na China e no Sudeste Asiático como um todo, que são importantes produtores. Nestes casos, o El Niño tende a estar relacionado com anos de quebra de safra e restrição na oferta das commodities.

“Então, a gente também pode ver uma coisa compensando a outra, o que acaba sendo um fator bastante importante”, disse.

Esse efeito ganha peso porque o setor já enfrenta pressões de custo. Bulascoschi menciona a escalada dos preços de fertilizantes e do diesel, associados à guerra no Irã, como fatores que comprimem as margens dos produtores. Nesse contexto, uma eventual queda das cotações internacionais representaria um impacto adicional sobre a receita do agro brasileiro.

OS RISCOS CLIMÁTICOS NO BRASIL

O analista pondera que os efeitos do El Niño sobre a produção brasileira tendem a ser mais brandos, em termos agregados, do que em outras regiões do mundo. Estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, que concentram parte importante da produção de soja e milho, não necessariamente sofreriam impactos severos sobre a produtividade.

Isso não significa ausência de risco. O El Niño tende a elevar o volume de chuvas no Sul da América do Sul, especialmente a partir da primavera. No Brasil, o Rio Grande do Sul aparece como a região mais sujeita a excesso de precipitação, o que pode elevar o risco de enchentes localizadas e perdas pontuais de safra. A Argentina, importante produtora de grãos, também entra nesse mapa de atenção.

De acordo com o especialista, em anos de El Niño podem ocorrer níveis elevados de produtividade, mas a chuva mais intensa “eleva um pouco o risco de enchentes localizadas”. Segundo ele, trata-se mais de um fator de incerteza do que de um indicativo automático de quebra de safra.

O CASO DA SOJA

A soja é a cultura em que a relação entre El Niño e preços pode aparecer com mais clareza. Isso porque a produção mundial está altamente concentrada no Brasil, nos Estados Unidos e na Argentina. Como esses 2 últimos países costumam ter condições de maior precipitação em anos de El Niño, a oferta global pode ser favorecida.

Ao mesmo tempo, o excesso de chuvas no Sul do Brasil e na Argentina é tratado como ponto de atenção. Nos EUA, onde a safra já está em andamento, qualquer problema climático teria potencial de apertar o balanço global.

DO MILHO

No milho, o quadro é mais misto. O El Niño pode favorecer a safra em partes da América do Sul, mas o excesso de chuvas seguirá no radar. Nos Estados Unidos, a nova safra começa com menor área plantada, o que torna o clima ainda mais relevante para a produtividade e para a formação do balanço global.

A China também merece atenção. Segundo o especialista, o El Niño pode trazer mais seca para o Nordeste do país, onde se concentra parcela relevante da produção chinesa de milho. Caso haja perdas, as importações do país podem aumentar, compensando parte do efeito baixista causado por uma produção mais forte em outras regiões.

Por isso, o impacto sobre os preços do milho tende a ser menos linear do que no caso da soja. O fenômeno pode aumentar a oferta em regiões produtoras importantes, mas também restringir a oferta em outros casos.

E DO CAFÉ

Para o café, Bulascoschi afirma que o efeito mais relevante do El Niño pode aparecer fora do Brasil. Países asiáticos como Vietnã e Indonésia, importantes produtores globais, tendem a sofrer mais com condições adversas associadas ao fenômeno, especialmente seca. Isso poderia reduzir a oferta mundial da commodity e favorecer os preços.

No Brasil, o analista avalia que o cenário de 2026 é, por ora, mais positivo para o agronegócio brasileiro. Ele menciona expectativa de safra recorde no país. Ainda assim, ressalta que boa parte dessa leitura se baseia no comportamento típico de eventos moderados de El Niño. Caso o fenômeno de 2026 se confirme em intensidade acima do usual, os efeitos podem ser ampliados e se tornar menos previsíveis.

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-agro/el-nino-ameaca-precos-internacionais-do-agro-em-2026-diz-especialista/

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