Dinheiro achado pela PF estava em hotel pago pelo Senado a Wagner

Diárias foram reembolsadas pela chamada “cota parlamentar” e por auxílio-moradia; polícia investiga se petista recebeu vantagens em esquema do Banco Master

Os US$ 49.000 em espécie encontrados pela Polícia Federal na manhã desta 5ª feira (18.jun.2026) estavam em um quarto do Brasília Palace Hotel cujas diárias foram pagas pelo Senado em nome do senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do Governo na Casa Alta.

O petista foi alvo da 9ª fase da operação Compliance Zero, que investiga fraudes financeiras envolvendo o Banco Master. A PF investiga se o político atuou no Congresso a favor de interesses da instituição fundada por Daniel Vorcaro, que atualmente está preso na capital federal. Ele nega irregularidades.

A ordem foi expedida pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Leia a íntegra (PDF – 256 kB).

O quarto ocupado por Wagner no Brasília Palace fica no 1º andar. Tratava-se da Suíte Alvorada, uma das mais luxuosas do local, que fica próximo ao Lago Paranoá.

A última mensalidade cobrada ao congressista foi de R$ 8.470,00. O Senado pagou R$ 3.252,33 desse valor via cota parlamentar e o restante foi bancado com o auxílio-moradia do senador, de R$ 5.500 por mês. Não há ilegalidade nessa transferência de dinheiro.

Reprodução/Senado

Na imagem, o recibo do pagamento do hotel de Jaques Wagner

Jaques Wagner ocupa o quarto em Brasília, pelo menos, desde março de 2023, quando o Senado começou a pagar sua hospedagem no local.

Em entrevista à BandNews na tarde desta 5ª feira (18.jun), o senador declarou que está “tranquilo” em relação ao dinheiro encontrado em seu apartamento. Afirmou que os valores são de diárias recebidas por ele para viagens internacionais.

“Nunca recebi dinheiro de ninguém, muito menos do Master ou do Augusto Lima, então estou absolutamente à vontade […] Os envelopes, inclusive, no caso de Brasília, eram os envelopes com o timbre do Senado Federal, que é quando você recebe a diária em espécie em dólar”, afirmou.

Além dos US$ 49.000, foram apreendidos mais US$ 6.175 e 33,5 mil euros em endereço ligado ao senador na Bahia, segundo o jornal Folha de S.Paulo.

CRÉDITO CONSIGNADO

Uma das pautas citadas é uma emenda a uma medida provisória que trata da ampliação de crédito consignado. A atuação do senador, segundo a investigação, se deu em data próxima às relações contratuais entre o Master e a empresa de Bonnie Bonilha, mulher do enteado de Jaques Wagner.

Também há menção à emenda apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) para aumentar o limite do FGC para R$ 1 milhão. A maioria das operações do Master se dava a partir da cobertura oferecida pelo fundo. A PF indica conversas, por voz e por texto, entre o senador e Augusto Lima sobre o texto apresentado a outra proposta que já tramitava no Congresso.

Em outra mensagem identificada pela PF, Augusto Lima disse: “você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!”, ao explicar a Jaques Wagner os termos da operação de venda do Master ao Banco de Brasília.

“A frase indica que Jaques não seria mero destinatário passivo de informações, mas interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo econômico investigado”, diz a decisão de Mendonça.

OUTRO LADO

A defesa de Augusto Lima afirmou ao Poder360 que as medidas “contribuirão para demonstrar que os fatos apurados nesta fase da investigação são rigorosamente lícitos”. Também disse que Lima “sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública”.

A manifestação é assinada pelos advogados Pedro Ivo Velloso, Eduardo Toledo e Sebastián Mello.

Leia a íntegra abaixo:

“As diligências realizadas pela Polícia Federal nesta data eram desnecessárias, uma vez que Augusto Lima está há 6 meses à disposição das autoridades para esclarecer os fatos em apuração.

“De todo modo, as medidas contribuirão para demonstrar que os fatos apurados nesta fase da investigação são rigorosamente lícitos. 

“Augusto Lima sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública.”

Em nota enviada ao Poder360, a assessoria de Jaques Wagner disse que o apartamento mencionado “jamais integrou” o patrimônio do senador e que ele não atuou “em favor do Banco Master ou qualquer outra instituição financeira”.

Leia a nota na íntegra:

“O senador Jaques Wagner (PT-BA) esclarece que não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados. O parlamentar acompanha com tranquilidade o andamento das investigações e mantém a confiança na condução delas.

“Cabe esclarecer que o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar. O senador também nega atuação em favor do Banco Master ou qualquer outra instituição financeira.

“Sobre os valores em espécie apreendidos, a assessoria informa que o montante é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais. Por fim, o senador Jaques Wagner reitera que permanece à inteira disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos, com a certeza de que a verdade prevalecerá.“

O Poder360 também tentou contato com os demais citados, mas não conseguiu localizar telefone ou endereço eletrônico válido para solicitar posicionamento. Este jornal digital seguirá tentando contato e atualizará este texto caso receba manifestações dos envolvidos.

COMPLIANCE ZERO

As apurações sobre as fraudes no Banco Master estão no escopo da Compliance Zero, autorizada inicialmente pela 10ª Vara Federal de Brasília em novembro de 2025. A 1ª fase prendeu provisoriamente os principais executivos ligados à instituição liquidada pelo BC. Ainda em novembro, o TRF-1 autorizou o uso de tornozeleira eletrônica e o retorno dos investigados para casa.

O caso passou a tramitar no STF a partir de dezembro de 2025, sob o comando do ministro Dias Toffoli. Ele autorizou a 2ª fase em janeiro de 2026, mas deixou a relatoria em 12 de fevereiro. André Mendonça assumiu. Vorcaro voltou a ser preso no início de março. Está detido na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Ele entregou uma proposta de delação premiada, cuja análise por parte do ministro do Supremo deve levar semanas.

Eis as fases da operação:

1ª fase (18.nov.2025) – Daniel Vorcaro foi preso pela 1ª vez em 17 de novembro de 2025, um dia antes de a operação ser deflagrada. Ele tentava deixar o Brasil. A ação cumpriu 7 mandados de prisão e 25 de busca e apreensão em 4 Estados e no DF. O ex-banqueiro foi solto em 29 de novembro;
2ª fase (14.jan.2026) – a PF realizou buscas em endereços ligados a Vorcaro. Foram apreendidos carros, relógios e dinheiro. Os valores bloqueados ou sequestrados na ação superaram R$ 5,7 bilhões. Tinha o objetivo de apurar o uso de fundos fraudulentos para maquiar os caixas do Master. Leia as íntegras das decisões que autorizaram a operação;
3ª fase (4.mar.2026) – Vorcaro voltou a ser preso. De acordo com a PF, o ex-banqueiro tinha um grupo que intimidava adversários e pagava propina para 2 funcionários do BC. No mesmo dia, um homem que trabalhava para o fundador do Master tentou se matar enquanto estava sob a custódia da PF –ele morreu em 6 de março. Leia a íntegra da decisão que deu aval à ação;
4ª fase (16.abr.2026) – a operação da PF prendeu Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. É investigado por suspeita de permitir operações sem lastro com o Master. Segundo a Polícia Federal, Costa recebeu propina de Vorcaro em imóveis de luxo. Leia a íntegra da decisão que autorizou a ação;
5ª fase (7.mai.2026) – o senador Ciro Nogueira (PP-PI) foi alvo. A PF cita o pagamento de propina de Vorcaro para o congressista –que negou. O relator do Master no STF, ministro André Mendonça, disse que a relação entre o político e o ex-banqueiro “extrapola a amizade”. Houve o bloqueio de R$ 18,85 milhões. Leia a íntegra da decisão que autorizou a operação;
6ª fase (14.mai.2026) – foram cumpridos 7 mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em SP, MG e RJ. O pai de Vorcaro foi preso. Era ele quem articulava o grupo de intimidação e espionagem do ex-banqueiro, de acordo com a PF. Leia a íntegra da decisão que autorizou a operação;
7ª fase (19.mai.2026) – a PF deflagrou uma operação para apurar o vazamento de informações sigilosas ligadas ao Master. Mendonça mandou afastar um perito da corporação;
8ª fase (26.mai.2026) – o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) foi alvo de mandados de busca e apreensão. A ação apura a suspeita de crimes envolvendo o Master e o Rioprevidência. O total movimentado é de R$ 3 bilhões, segundo a PF. Leia a íntegra da decisão que autorizou a operação.
9ª fase (18.jun.2026) – o senador Jaques Wagner (PT-BA) foi alvo de medidas cautelares autorizadas por André Mendonça. O ministro proibiu o congressista de atuar com empresas ligadas ao caso Master e de falar com investigados, salvo exceções familiares. Leia a íntegra (PDF — 256 kB).

 

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-justica/dinheiro-achado-pela-pf-estava-em-hotel-pago-pelo-senado-a-wagner/

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