Deficit de 0,20% do PIB não faz o mundo cair, diz Lula

Presidente comparou a situação brasileira com a de países ricos, em discurso na reunião do Conselhão, na 4ª feira (10.jun)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse na 4ª feira (10.jun.2026) que os riscos de o Brasil ter um deficit primário na casa dos 0,20% do PIB não fazem “cair o mundo”. Comparou ainda a situação brasileira com a de países ricos. A declaração foi feita durante a 7ª reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão, realizado em Brasília (DF).

“De vez em quando, a Faria Lima escreve nos jornais, sempre no jornal ‘Valor’, que se a gente tiver um deficit de 0,20% vai cair o mundo. Deficit de 0,20%, deficit de 0,15%, enquanto nos Estados Unidos a dívida pública externa deles é de 120% do PIB, na Itália é quase 200%, no Japão é quase 300%. Ou seja, isso não abala o país. Aqui nós vivemos por conta disso e muitas vezes não se preocupam com o avanço que a sociedade brasileira está tendo”, afirmou.

A renda per capita dos EUA, do Japão e da Itália é significativamente superior à brasileira. Segundo estimativas recentes do FMI (Fundo Monetário Internacional), os EUA têm um PIB per capita de aproximadamente US$ 90.000 por habitante, a Itália cerca de US$ 43.000 e o Japão aproximadamente US$ 35.000. Já o Brasil apresenta um PIB per capita em torno de US$ 12.000 por habitante.

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Leia a íntegra do discurso do presidente Lula na reunião do Conselhão:

“Eu só queria primeiro agradecer a vocês, agradecer a dedicação de cada mulher, de cada homem que assumiram a responsabilidade de participar desse conselho, de preparar propostas para ajudar o governo a fazer coisas diferentes, a fazer coisas apresentadas pela sociedade civil. Nem sempre é possível colocar, porque muitas vezes as coisas que parecem simples são as mais difíceis, porque são aquelas que atendem a parte da sociedade que nunca foi atendida. E vocês sabem que atender a sociedade que durante século foi tratada como invisível, embora custe muito pouco do ponto de vista financeiro, é muito difícil do ponto de vista da compreensão política de que essa gente também são cidadãs e cidadãos brasileiros que merecem comer uma fatia do bolo que nós produzimos.

“Mas eu acho que eu queria fazer da fala de todo mundo aqui a minha fala e dizer para vocês que eu tô muito, mas muito agradecido com as coisas que estão acontecendo no Brasil. Eu só quero que um dia a gente esteja com esse país tão preparado que as pessoas não precisam votar numa pessoa pela pessoa, que as pessoas votem num projeto político, um projeto que seja construído a muitas mãos, um projeto que possa ser fiscalizado por muitas mãos, porque nós estamos vivendo um momento, querida Laura, muito delicado na política e na humanidade. A narrativa e o argumento não valem mais nada. Não valem mais nada. O que vale é a rapidez da mentira nas redes digitais. Tanto para direita quanto para esquerda é uma disputa simplesmente do quanto mais curto, melhor e do quanto menos explicar, melhor. E eu acho que o mundo só vai ser civilizado quando a gente voltar a ter por conta de que é o argumento, é a narrativa das coisas que pode convencer a seriedade de alguém que disputa um cargo, seja em qualquer lugar. E nós não estamos vivendo esse momento.

“Agora mesmo no México, está acontecendo um pouco daquilo que aconteceu aqui em 2013. Todo mundo tá lembrado de que uma simples reivindicação de 20 centavos de aumento do transporte foi o pretexto para que a extrema-direita tomasse conta das ruas utilizando o verde amarelo. Todo mundo sabe que 20 centavos não causaria nenhuma revolução em lugar nenhum do mundo, nem da própria empresa de ônibus que tava pedindo aumento. A partir daquele movimento inventaram o black bloc que fez uma quebradeira em São Paulo e a partir dali a extrema-direita tirou proveito e fez o impeachment da Dilma. E aí vocês conhecem o resultado, elegeu até um presidente da República. Então a minha conversa com a Cláudia porque eu acho que isso está acontecendo no México agora. E eu às vezes acho que tem o dedo de alguém que talvez nem seja mexicano, tá? Então, nós precisamos ficar muito atentos sobre essas questões.

“A economia do Brasil tá correta. Obviamente que eu gostaria de crescer 10%. Mas o importante não é o quanto você vai crescer. O importante é se o que você crescer é distribuído, porque esse país já cresceu 14% ao ano e não distribuiu. Então, o que é importante é que aos poucos a gente vai colocando a parte mais sensível e mais pobre da população dentro do orçamento do país, levando a sério a educação, a saúde, a legalização de terras indígenas, a questão de demarcar as zonas que nós precisamos demarcar, tanto no oceano quanto nas florestas, a questão dos quilombolas. Só para vocês terem ideia, com a entrega que nós vamos fazer para as mulheres quilombolas, acho que amanhã, nós estaremos entregando em 3 anos e 4 meses 48% de tudo que é terra quilombola registrada nesse país, em apenas 3 anos e meio. E obviamente que cada reserva florestal que a gente faz, cada terra indígena que a gente legaliza, cada benefício que você dá para um pobre, aqueles que estavam acostumados que o país fosse só deles, ficam irritados. De vez em quando, a Faria Lima escreve nos jornais, sempre no jornal ‘Valor’, porque é o porta-voz, de que se a gente tiver um deficit de 0,20% vai cair o mundo. Deficit de 0,20%, deficit de 0,15%. Enquanto nos Estados Unidos a dívida pública externa deles é de 120% do PIB. Na Itália, é quase 200, no Japão é quase 300. Ou seja, e não abala o país. E aqui nós vivemos por conta disso. E muitas vezes não se preocupam com o avanço que a sociedade brasileira tá tendo. Eu digo para meus ministros uma frase que é o seguinte: nesse país a gente nunca conseguiu avançar.

“O que precisava avançar porque existe uma palavra, uma desgraça de uma palavra chamada gasto. Tudo que a gente quer fazer para o pobre aparece alguém ‘não, isso gasta muito’, ‘investir na alfabetização, investir na universidade, em instituto federal gasta muito’. As pessoas nunca pararam para escutar e fazer a grande pergunta. Quanto custou não fazer a porra das coisas sérias no tempo que você deveria fazer? Quanto custou? Esse é o desafio. Esse é o desafio que a sociedade brasileira tem que responder. Ou seja, nós vamos ficar discutindo quanto custa e não discutir o quanto custou não fazer. Quanto o Brasil perdeu por não alfabetizar o povo na década de 50 quando começou o êxodo rural. Quanto o Brasil perdeu por não ter feito a reforma agrária na década de 50, quando foi feito inclusive no Japão? Quanto o Brasil perdeu por não investir em tecnologia na hora certa e investir na saúde na hora certa. Então é esse custo que nós temos que ver. Aliás, eu falei agora pro nosso querido Clemente. É preciso que vocês me apresentem o estudo urgente do que ganha um trabalhador americano, porque essa última imputação de taxa que eles colocaram para nós, nós não temos o direito de aceitar por dignidade e respeito ao que nós fazemos aqui pros trabalhadores brasileiros. Eu quero saber quais são os direitos que os trabalhadores americanos têm para vir um tal de diretor financeiro não sei das contas impor multa, gente, impor multa por conta do desmatamento. Será que eles não percebem que eles já tão careca e que nós ainda estamos como um jogador cortando só um pedacinho aqui do lado? Será que não se dão conta de que nós nesses 3 anos e meio diminuímos o desmatamento em todos os biomas brasileiros?

“Então gente, é o seguinte. Eu acho que esse conselho é o retrato do que pode significar a democracia nesse país. Não basta votar, é preciso votar, fazer e controlar. Eu vou aproveitar para terminar fazendo uma consulta a vocês para vocês se transformarem num conselho deliberativo. Eu faz 10 dias, eu vou contar uma coisa aqui, eu não deveria contar, mas eu vou contar. Faz 10 dias que o ministro da Justiça me apresentou um estudo para colocar em prática uma coisa chamada telefone seguro. Nós temos o cadastro, o endereço e o chassis do celular de 2 milhões e meio de celulares roubados. Nós não sabemos quem roubou, mas sabemos que os telefones foram roubados porque nós temos um número de telefone e eu ia passar uma mensagem, eu ia apertar um botãozinho e passar a mensagem dizendo que todos 2 milhões e meio de pessoas que estão com celular roubado tem que devolver. Precisa devolver porque ele pode estar cometendo um delito e se ele for pego, ele pode sofrer uma punição desnecessária. Eu sei que rico não compra telefone roubado, mas eu sei que os pobres compram. Quem é que não gosta de comprar uma coisinha barata? Todo mundo gosta ou mais barata? Entretanto, essa inquietação econômica de quem está com telefone roubado mexeu com a minha cabeça. Mas eu não posso ficar com essa dúvida, porque o telefone seguro vai deixar 200 milhões de brasileiros tranquilo de que ele não vai ter mais o seu celular roubado. Então eu estou disposto. Hoje eu convoquei uma reunião com o ministro porque já era para ter convocado, eu não convoquei. Vou efetivamente despachar o sinalzinho para quem tiver com o telefone roubado devolver, porque senão poderá ter consequências. A dúvida é que eu não quero devolver na delegacia, eu quero devolver no correio. Porque devolver na delegacia as pessoas têm até medo porque não sabme o tipo de delegado que vai encontrar ou o tipo de policial. Então vamos tentar se a gente vai no correio. Mas eu queria que vocês votassem. É uma votação, sabe? Com a mão levantada. É o seguinte, quem acha que eu tenho que fazer isso independente dos 2 milhões e meio que tem, sabe? Levante a mão. Quem acha que eu não tenho o que fazer, abaixa a mão. Só você, cara. Por maioria absoluta, nós vamos divulgar a notícia que nós temos pro povo brasileiro. Gente, um abraço, que Deus abençoe vocês e até o próximo Conselhão.”

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Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-governo/deficit-de-020-do-pib-nao-faz-o-mundo-cair-diz-lula/

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