Com alta de feminicídios, Alesp tem só 16 PLs para proteger mulheres

No trimestre com alta histórico de 86 feminicídios no Estado, deputados apresentaram 109 propostas honoríficas como “Dia do Cogumelo”

Em 18 de fevereiro de 2026, a policial militar Gisele Alves Santana foi encontrada morta no apartamento em que morava com o marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, em São Paulo. O caso da soldado foi um dos 86 feminicídios registrados no 1º trimestre do ano –o maior número já registrado no Estado para o período desde o início da série histórica. Nos mesmos três meses, a Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) apresentou apenas 16 PLs (Projetos de Lei) voltados à proteção das mulheres no Estado.

O total de propostas relacionadas ao tema é 6,8 vezes menor do que os 109 projetos apresentados no mesmo período para criar datas comemorativas ou conceder títulos simbólicos, como a transformação da cidade de Pilar do Sul em “Capital da Uva Gourmet” ou a instituição do “Dia do Cogumelo”.

Dos 16 projetos relacionados à proteção das mulheres, apenas 2 tratam diretamente do combate ao feminicídio. As demais propostas focam medidas preventivas, como combate ao assédio no ambiente de trabalho, campanhas educativas e mecanismos de proteção em plataformas digitais.

Das 16 iniciativas, 7 foram protocoladas exclusivamente por deputadas, 6 por deputados homens e 3 em coautoria entre parlamentares de ambos os sexos.

O Poder360 questionou a deputada estadual Paula Nunes (Psol), da bancada feminista da Casa, coautora de 3 PLs presentes no levantamento, sobre a ausência de projetos voltados especificamente ao assassinato de mulheres. Segundo ela, medidas de prevenção e proteção são fundamentais para impedir que a violência evolua para o feminicídio.

“Uma das nossas primeiras necessidades, quando nós falamos sobre feminicídio, é romper ciclos de violência e atuar antes que ela aconteça”, disse.

ORÇAMENTO MENOR PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

O orçamento aprovado pela Alesp para 2026 reduziu os recursos destinados à Secretaria de Políticas para as Mulheres. Os deputados estaduais aprovaram o texto final da peça orçamentária em dezembro de 2025, com previsão de R$ 30,6 milhões para a pasta, uma queda de 15,4% em relação ao orçamento do ano anterior.

Questionado pelo Poder360 sobre a redução da verba e as produções legislativas voltadas à proteção e combate à violência contra a mulher, o presidente da Alesp, André do Prado (PL-SP), afirmou que “a violência contra a mulher é caso de polícia” e não comentou o corte de verbas aprovado pela Assembleia.

Segundo a deputada Paula Nunes, o orçamento da secretaria já era considerado insuficiente e parte dos recursos aprovados sequer é executada integralmente pelo governo paulista. “Existe responsabilidade dos deputados, mas me chama muita atenção como o governo do Estado não assume a sua responsabilidade nesse enfrentamento”, disse a deputada.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (PL) afirmou ao Poder360, por meio de nota, que o enfrentamento à violência contra a mulher é prioridade de sua gestão e que mantém “diálogo permanente com os diferentes poderes e parlamentares para aprimorar as políticas públicas voltadas à proteção das mulheres”.

PROJETOS SIMBÓLICOS DOMINAM PAUTA

Dos 285 projetos de lei protocolados na Alesp no 1º trimestre de 2026, 109 são honoríficos. O dado inclui nomeação de infraestruturas públicas, instituição de dias e reconhecimento de importância em homenagem a diversas instituições, pessoas e bens culturais.

Segundo Paula, muitos congressistas priorizam propostas honoríficas por terem tramitação mais simples e maior chance de aprovação.

“Os deputados apresentam projetos honoríficos, de denominação e de datas porque esses projetos acabam sendo aprovados uma hora ou outra na Assembleia”, afirmou.

Esta reportagem foi produzida pela estagiária em jornalismo Gabriella Santos sob a supervisão do editor Gil Alessi

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-brasil/com-alta-de-feminicidios-alesp-tem-so-16-pls-para-proteger-mulheres/

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