Família mantém influência política em Goiás há mais de 2 séculos e volta ao centro do debate nacional com a candidatura presidencial de Ronaldo Caiado
O ano era 1889. A República acabara de ser proclamada, e o país ainda tateava os primeiros passos sob o novo regime. Em Goiás, um capitão monarquista do Exército, Felicíssimo do Espírito Santo Cardoso, decidiu escrever ao filho, João Bonifácio do Espírito Santo Cardoso, republicano convicto.
No telegrama, ficou um retrato raro da permanência do poder no Brasil –capturado no calor do momento, sem pretensão de virar documento histórico.
“Vocês fizeram a República que não serviu para nada. Aqui, agora como antes, continuam mandando os Caiado.”
Os séculos passaram e o documento ganhou dimensões impensáveis no momento em que foi escrito. O bisneto de Felicíssimo chegaria à Presidência da República. Seu nome: Fernando Henrique Cardoso, que governou o país de 1995 a 2003.
O episódio foi resgatado pelo próprio FHC, já presidente, em 1995, durante uma visita a Goiás. Voltaria a ser citado por ele em seu livro Um Intelectual no Poder, de 2021, e, ao longo do tempo, deixaria de ser apenas uma anedota familiar para ganhar status de interpretação histórica.
Até se tornou epígrafe do livro bestseller 1889, de Laurentino Gomes, sobre a proclamação da República. Em conversa com o Poder360, o jornalista e escritor diz que a escolha da epígrafe se explica menos pela frase em si e mais pelo que ela revela sobre o Brasil.
“O que mais me encanta nesse telegrama do bisavô do Fernando Henrique é que, além de ser uma coisa profética, é também um raio X da situação da política brasileira, da permanência das elites no poder. Veja o cenário que temos hoje de candidaturas à Presidência”, afirmou.
A referência é direta ao atual momento político. O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), é pré-candidato ao Palácio do Planalto e deve disputar espaço com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
“Me impressiona muito essa capacidade da elite brasileira de se adaptar às transformações políticas e continuar mandando, seja no Brasil colônia, na monarquia, na república, ora na ditadura, ora na democracia, mas a estrutura continua nas mesmas mãos”, completou.
Se o cenário se mantiver até outubro, Caiado disputará a Presidência pela 2ª vez. Novamente por um partido chamado PSD –ainda que não seja o mesmo de 1989, quando disputou a 1ª eleição presidencial.
Do telegrama para cá, passaram-se 137 anos. O sobrenome, porém, permanece.
O próprio Ronaldo Caiado afirma que o episódio atravessou sua trajetória política. Quando era deputado federal, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, conversou diversas vezes com o então presidente sobre o telegrama.
“O FHC brincava muito comigo sobre esse caso. Dizia que a gente continuava mandando no Estado. Falamos muitas vezes sobre isso. Eram conversas boas, ele sempre foi muito inteligente e tinha conversas aguçadas”, comentou Caiado em conversa com o Poder360.
Família Caiado no poder
A presença dos Caiado no poder antecede em muito a frase de 1889.
O primeiro registro da família em Goiás é de 1772, quando Manoel Caiado se casou com a filha de um proprietário de sesmaria e herdou parte das terras –ponto de partida de uma trajetória que atravessaria séculos. E permanece até hoje.
Longevidade
A longevidade da família no poder não se explica apenas por uma origem remota, mas pela capacidade de construir, adaptar e preservar influência ao longo do tempo. Foi essa engrenagem que levou a historiadora Miriam de Amaral Ribeiro a se debruçar sobre os Caiado em sua dissertação de mestrado, defendida em 1996.
O trabalho —intitulado “Memória, família e poder: história de uma permanência política – os Caiado em Goiás”— reúne 251 páginas e se baseia em mais de 40 entrevistas com pessoas da família. Leia a íntegra.
A partir desse material, a autora identifica um padrão contínuo de atuação ao longo das gerações.
“O que observamos […] é que foram produzidas estratégias de permanência política. São 12 gerações que produziram e reproduziram essas estratégias”, observa.
Segundo a pesquisa, essa longevidade se sustenta em 3 pilares centrais:
casamentos – historicamente orientados para preservar e ampliar o poder econômico e político;
profissão – predominância de carreiras como Direito e Medicina, associadas a prestígio e influência;
domínio do campo – valorização da força, da terra e do controle territorial como base de poder.
Há um conjunto de práticas educativas transmitidas de geração em geração. “Caiado tem que ser o melhor peão, porque, para mandar, tem que ser”, resume Miriam citando falas de familiares coletadas pelo trabalho. A frase condensa uma lógica em que a força física aparece como expressão direta do poder material e político.
Antônio Joaquim Caiado, conhecido como Totó –avô de Ronaldo e, segundo Miriam, o mais poderoso integrante da família até hoje– tinha cerca de 2 metros de altura. Ronaldo Caiado, de forma semelhante, também se aproxima dessa estatura. A dimensão física aparece, na narrativa familiar, como símbolo de autoridade.
No campo dos casamentos, a estratégia revela uma capacidade contínua de adaptação. Ao longo do tempo, a família buscou se alinhar a grupos posicionados no centro das estruturas de poder de cada período histórico.
“Casaram-se com paulistas na hegemonia do café, casaram-se com militares na ditadura –mas não é um ato mecânico, forçado. É uma tarefa assumida para a permanência política”, afirma Miriam.
Em paralelo, consolidou-se um repertório de práticas sobre como exercer e administrar o poder. Os Caiado não eram os únicos atores influentes em Goiás, mas desenvolveram uma forma própria de lidar com adversários –especialmente nos momentos de vitória. Famílias como os Bulhões e os Ludovico também figuram entre os grupos tradicionais de poder no Estado.
Miriam relata uma máxima recorrente entre os Caiado:
“Se você quer acabar com um inimigo político quando estiver por cima, não pise no pescoço dele —porque ele morde seu calcanhar. Dê um cargo para ele.”
A isso se soma outra máxima, de sinal mais agregador:
“Um Caiado não abandona aliado na Chapada.”
Esse conjunto de valores e estratégias sustenta uma trajetória de poder que atravessa gerações e, longe de se esgotar, se reinventa. No passado, esse sistema recebeu um nome: coronelismo.
Na leitura de Caiado, essa permanência se apoia em 2 eixos: formação e ambiente. Segundo ele, sempre houve uma cobrança rigorosa para que os integrantes da família estudassem e fossem autossuficientes –ao mesmo tempo em que cresciam inseridos em um cotidiano marcado pela política: “Tem que estudar. Tem que ser autossuficiente. Amanhã as situações mudam na política e o homem não pode ser dependente dela”, relatou.
“Convivi lá em casa, quando criança, com o Juscelino Kubitschek. Ele queria levar a capital para Brasília, e tinha grande oposição. Minha família estava a favor”, lembrou. A mudança foi formalizada pela Lei nº 3.273, de 1957, de autoria do deputado federal goiano Altamiro de Moura Pacheco, aliado político dos Caiado, a quem o ex-governador chama de “tio”.
Coronelismo
O coronelismo foi um sistema de poder local baseado no controle político, econômico e eleitoral exercido por grandes proprietários rurais sobre suas regiões, inicialmente com autorização da monarquia.
O escritor Laurentino Gomes interpreta esse fenômeno a partir de uma chave geográfica. Para ele, a dimensão continental do Brasil, combinada a um poder central historicamente frágil –na colônia, no Império e na Primeira República– favoreceu a ascensão de elites locais com ampla autonomia.
“São chamados coronéis porque eram coronéis da Guarda Nacional, que era, na prática, o delegado regional do imperador. Ele fazia justiça, fazia as leis, fraudava as eleições”, explica.
Mas, na avaliação de Laurentino, o traço mais marcante desses grupos não é apenas a força bruta, e sim a capacidade de adaptação –habilidade que ajuda a explicar por que certas estruturas de poder resistem ao tempo.
Ele argumenta que essas famílias ou grupos —nem sempre ligados por laços de sangue— conseguem se moldar às mudanças históricas. Cortam um dedo para não perder o braço. Mesmo no atual período democrático, o mais longo da história do país, seguem exercendo influência decisiva em amplas regiões.
“É recorrente. Se adaptaram muito bem ao Collor, ao Fernando Henrique, ao Lula, à Dilma, ao Temer, ao Bolsonaro e ao Lula novamente. E são as mesmas elites.”
Para Miriam, o fenômeno em Goiás tem contornos próprios, mas obedece à mesma lógica estrutural.
“Os Caiado representam e compõem um setor das classes dominantes e se constituíram como uma oligarquia que exerce, há mais de 150 anos, o coronelismo clientelista, o mandonismo local.”
Ela destaca que, mesmo nos momentos de mudança institucional, a lógica de poder se manteve.
“Nunca saíram de cena. Quando não estavam na frente, estavam se preparando para voltar.”
Laurentino amplia o diagnóstico e afirma que essa capacidade de adaptação não é exclusiva do Brasil — embora aqui tenha produzido efeitos particulares. Em outros países, diz, processos de ruptura e revoluções alteraram de forma mais profunda as estruturas de poder, ainda que com custos elevados.
“A elite brasileira é atrasada, mas tem uma sabedoria política muito grande: consegue se adaptar às transformações e impedir que haja revoluções genuínas no Brasil”, afirma.
Ele cita como exemplos de ruptura as revoluções francesa, russa e chinesa, além das guerras civis nos Estados Unidos e na Inglaterra. “No Brasil, nunca tivemos isso.”
Essa “sabedoria”, conclui, é também o que ajuda a explicar a persistência de padrões históricos –um país que muda, mas não rompe.
Auge
O auge da família, segundo Miriam, ocorreu entre 1909 e 1930, sob a liderança de Totó Caiado.
Nesse período, consolidaram-se práticas que ajudariam a sustentar a influência do grupo ao longo das décadas. Uma delas foi a formação profissional direcionada.
“São, ao longo das gerações, principalmente médicos e advogados. São educados para isso, assumem como tarefa da permanência política.”
A estratégia produzia efeitos concretos. Médicos estabeleciam vínculos duradouros com a população; advogados ocupavam posições-chave no Judiciário e ampliavam sua influência no Legislativo. Ronaldo Caiado segue essa lógica: é médico de formação e construiu reputação na área.
Outro eixo central eram os casamentos –com regras próprias, especialmente no papel reservado às mulheres.
“Nenhuma das mulheres da família Caiado, no passado, pagou dote ao se casar. A família entendia que entrar para o universo Caiado valia mais do que qualquer dote que um marido pudesse receber.”
A prática contrariava costumes da época e funcionava como afirmação de prestígio e poder simbólico do grupo.
Laurentino retoma o episódio do telegrama de 1889 para destacar o peso histórico desse nome no presente. Chama atenção, diz, que uma linhagem associada à permanência das elites ressurja como alternativa em um cenário político marcado pela polarização, especialmente desde 2018.
“Eu não tenho nada contra o Caiado. Acho que é uma opção até interessante diante da polarização. Mas é muito simbólico que esse nome, que lá atrás já aparecia como sinônimo de reciclagem e permanência das elites no poder, volte à agenda política no início do século 21 como alternativa”, afirma.
Futuro
Apesar da longa permanência do poder coronelista, Laurentino vê sinais de inflexão.
“Só agora, nos últimos 40 anos […] todos os brasileiros são chamados a participar da construção do futuro”, afirma.
Para ele, o principal indicador dessa mudança está na educação. Pela primeira vez, o país começa a formar, em escala, uma população capaz de intervir no próprio destino político.
“O Brasil tem povo, mas não povo como agente das mudanças políticas. Este é um país construído sobre analfabetismo, pobreza e escravidão. Quando Dom João chegou, eram 99% de analfabetos. Um século depois, ainda eram 90%”, diz.
Foi essa base –ou a ausência dela– que permitiu a consolidação do poder dos coronéis. Não por escolha consciente da população, mas pela impossibilidade de escolha. Sem educação e sem autonomia, não há disputa real de poder.
A atual fase democrática, que já ultrapassa 4 décadas, pode representar, ainda que lentamente, um ponto de inflexão nesse ciclo histórico.
“Embora essa elite continue aí, há mudanças estruturais em curso. Se o Brasil persistir na democracia e em zerar seus passivos históricos —sobretudo na desigualdade, na educação e no investimento em pessoas—, muito provavelmente a frase do capitão Felicíssimo do Espírito Santo está com os dias contados”, conclui o jornalista e escritor.