Presidentes começaram o ano com elogios e uma tentativa de aproximação por parte do governo brasileiro; conflito no Oriente Médio marcou inflexão do petista, que passou a criticar o republicano com mais intensidade: foram 18 declarações em 52 dias
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começou 2026 elogiando Donald Trump (Partido Republicano). Chamou o presidente dos Estados Unidos de amigo e falou em “amor à primeira vista”. Dois meses depois, passou a chamá-lo de imperador, pediu que parasse com a “loucura” das guerras e sugeriu, com ironia, dar-lhe o Nobel da Paz.
Em 28 de fevereiro, os EUA e Israel iniciaram o conflito no Irã. A partir daí, Lula fez 18 críticas ao líder norte-americano em 52 dias. Reprovou o republicano em temas como democracia, Cuba e até o Pix.
Assista aos principais trechos:
As declarações mais contundentes foram feitas em solo europeu. Lula embarcou na 5ª feira (16.abr.2026) para um giro de 6 dias pela Espanha, Alemanha e Portugal.
A agenda oficial era econômica e diplomática. Lula passou pela 1ª Cúpula Brasil-Espanha com o presidente da Espanha, Pedro Sánchez, na 6ª feira (17.abr.2026), em Barcelona, pela Hannover Messe, uma feira sobre indústria, na Alemanha, e por reuniões bilaterais em Lisboa com o primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro (PSD, direita), e com o presidente português, António José Seguro (PS, esquerda).
Mas o périplo também serviu de palanque para as críticas a Trump. No sábado (18.abr.2026), em Barcelona, Lula participou do Fórum Democracia Sempre –evento que ele mesmo criou em parceria com Sánchez em 2024. Diante de uma plateia ideologicamente alinhada, o petista escalou o tom.
Lula elogiou a Espanha por não ceder à pressão dos EUA para entrar no conflito. “Ninguém precisa ter medo no mundo democrático de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite a regra do jogo democrático. (…) E o meu elogio, meu querido Pedro Sanchez, é pelo fato de você ter tido a coragem de não permitir que os aviões de guerra dos Estados Unidos não saíssem daqui para atirar no Irã”, disse.
E pediu que os integrantes do Conselho de Segurança da ONU encerrem os conflitos: “Eu queria dizer ao presidente Trump, ao presidente [Vladimir] Putin [Rússia], ao presidente [Emmanuel] Macron [França] e ao Primeiro-Ministro da Inglaterra [Keir Starmer], que são os 5 membros do Conselho de Segurança da ONU. Convoquem uma reunião e parem com essa loucura de guerra, porque o mundo não comporta mais”.
No domingo (20.abr.2026), já em Hannover, Lula criticou o bloqueio a Cuba e invasões feitas pela gestão do norte-americano. “O que eu queria dizer para você é o seguinte, eu serei contra a invasão de Cuba, como eu fui contra a da Venezuela, como eu fui contra a da Ucrânia, como eu fui contra a de Gaza, como eu sou contra a do Irã”, disse Lula.
O petista citou pressões sobre os integrantes do G20. Disse que nenhum país deve ser impedido de participar de fóruns multilaterais. Referiu-se à exclusão da África do Sul do encontro de 2026 e disse que o presidente Cyril Ramaphosa (Congresso Nacional Africano, centro-esquerda) deveria se fazer presente mesmo se isso significasse contrariar Trump.
“Vamos brigar, Ramaphosa, para você ir para o G20 nos Estados Unidos, porque o presidente americano não tem o direito de tirar você do G20, porque ele não é dono do G20”, disse.
Na última parada do tour, em Lisboa, na 3ª feira (21.abr.), Lula ironizou Trump ao sugerir que o Nobel da Paz resolveria os conflitos. A declaração foi dada à imprensa após reunião com o primeiro-ministro português, Luís Montenegro (PSD, direita).
“O que a gente vê todo santo dia são declarações, não sei se brincadeira ou não, do presidente (Donald) Trump dizendo que já acabou com 8 guerras e ainda não ganhou o Nobel da Paz. Então, é importante que a gente dê logo um prêmio Nobel ao presidente Trump para não ter mais guerra, aí o mundo vai viver em paz tranquilamente”, declarou.
O “imperador” e o nordestino nervoso
A 1ª declaração do novo ciclo foi feita numa 6ª feira (13.mar.2026), quando Lula reagiu à tensão diplomática envolvendo vistos negados a integrantes do governo brasileiro.
“Aquele cara americano que disse que vinha pra cá pra visitar o Jair Bolsonaro, ele foi proibido de visitar. E eu o proibi de ir ao Brasil enquanto não liberar os vistos do meu ministro da Saúde, que estão bloqueados”, afirmou.
Em 2.abr.2026, foi a vez do Pix entrar na lista de temas. Lula rebateu as críticas norte-americanas ao sistema de pagamentos brasileiro. “Ele (Donald Trump) disse que (o Pix) distorce o comércio internacional porque cria problema para a moeda dele. O que é importante a gente dizer pra quem quiser nos ouvir: o Pix é do Brasil e ninguém vai fazer a gente mudar”, disse o petista
A alcunha de “imperador” foi dada em 8.abr.2026, quando Lula criticou indiretamente o estilo de gestão de Trump.
“Nós vamos ter que levar mais a sério isso, inclusive fortalecer a indústria da defesa, porque um país do tamanho do Brasil não pode ficar desprovido de segurança. Qualquer dia alguém resolve invadir a gente. Nós temos um cidadão no mundo que acha que é imperador, que ele [Donald Trump] todo dia passa um Twitter, todo dia decide uma coisa, todo dia faz uma coisa, e o Brasil não pode ficar vulnerável “, declarou.
Em 10.abr.2026, o petista recorreu ao regionalismo para endurecer o recado. “Trump não sabe que é um pernambucano, senão ele não vai fazer ameaça nunca aqui. (…) Se ele soubesse que é um nordestino nervoso, não brincaria com o Brasil”, afirmou.
Na 2ª feira (14.abr.2026), Lula foi ainda mais direto sobre uma possível ingerência americana em sua campanha: “Não temo interferência. Se tentar me atacar, só vai me ajudar a ganhar. “No mesmo dia, avaliou o impacto econômico das políticas do republicano: “Com Trump à solta, a chance de competir é mais difícil”, disse.
Na 4ª feira (16.abr.2026), o presidente voltou a usar o termo. Lula disse que “não foi eleito imperador do mundo” e não pode ficar “ameaçando outros países com guerra o tempo todo”. A fala foi feita em entrevista à revista Der Spiegel, da Alemanha
Antes da guerra: cautela e “amor à 1ª vista”
No início do ano, o tom era outro. Em 20 de janeiro, Lula deu sua 1ª alfinetada pública sobre o estilo de gestão do republicano. “Vocês já perceberam que o presidente Trump quer governar o mundo pelo Twitter?”
No mesmo dia, sobre o convite para integrar o Conselho da Paz proposto por Trump, o petista pregou cautela. “O mundo está virando do avesso, cara. Nesse aspecto, eu sou muito equilibrado. Primeiro, eu não tomo decisão com 39 graus de febre; eu espero a febre baixar. Segundo, eu não estou preocupado com o que acontece depois das 10 horas da noite. Eu quero dormir bem. Se eu perder o sono porque o presidente de tal país falou alguma coisa, dane-se. Falou, falou”, disse o presidente.
Dias depois, em 23 de janeiro, o tom ficou um pouco mais crítico em relação ao Conselho da Paz. Lula afirmou que a carta das Nações Unidas “está sendo rasgada” e que Trump “está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU em que ele sozinho é o dono da ONU”.
Mas na 2ª feira seguinte (26.jan.2026), depois de um telefonema direto com o republicano sobre Gaza, Lula adotou postura propositiva. Segundo comunicado do Planalto, o petista pediu ao norte-americano que o Conselho da Paz “preveja assento para a Palestina”.
Em 27.jan.2026, o petista anunciou publicamente que planejava visitar Washington: “Estou discutindo a questão do multilateralismo, a questão da democracia no mundo inteiro e espero marcar com o presidente Trump no começo de março.”
No dia seguinte, em 28 de janeiro, no Fórum Econômico no Panamá, Lula soltou uma indireta sobre o estilo empresarial de Trump sem citá-lo. “Um presidente da República não faz negócios, mas um presidente da República abre a porta para os que fazem negócio”, afirmou.
Em 5 de fevereiro, Lula disse que tinha disposição para dialogar com Trump em qualquer tema. “A minha pauta com o Trump é uma pauta longa. Eu vou discutir comércio, vou discutir parcerias universitárias, vou discutir a população brasileira que mora nos Estados Unidos, mas quero discutir sobretudo qualquer assunto, inclusive investimento americano no Brasil, que faz tempo que deixou de existir”, declarou.
Sem date em Washington
O encontro entre os 2 presidentes não saiu do papel. Lula queria uma reunião em março, mas o Planalto avalia que Trump, absorto com a guerra, não tem tempo para o Brasil. O petista espera viabilizar o encontro até julho. Depois disso, o calendário eleitoral brasileiro, com votação marcada para 4 de outubro, deve consumir toda a agenda.
Uma possibilidade mais remota seria um encontro em Nova York, em setembro, na abertura da Assembleia Geral da ONU. Lula abre e Trump discursa na sequência. O petista quer participar, mas o encontro já vai estar muito próximo do pleito no Brasil. O 1º turno será realizado em 4 de outubro.
Por que isso importa
Porque o petista está apostando que bater em Trump rende votos. Não está claro, porém, se a Casa Branca está contabilizando os ataques nem como vai reagir.
Nos EUA, está em curso uma investigação sobre as práticas comerciais do Brasil, com base na Seção 301 da lei de comércio norte-americana, que pune parceiros considerados desleais. O Pix é um dos alvos: empresas de cartões de crédito alegam perder mercado para a plataforma estatal brasileira e apontam vantagem injusta e desproporcional.
Há também questionamentos sobre tarifas consideradas exorbitantes, como a que incide sobre o etanol brasileiro –que entra nos EUA com imposto reduzido, enquanto o etanol norte-americano paga taxas muito mais altas para entrar no Brasil.
Não é improvável que os EUA concluam que o Brasil adota políticas comerciais anticompetitivas. Se isso acontecer, tarifas adicionais a produtos brasileiros poderão ser impostas –e Lula deverá surfar novamente no discurso do patriotismo durante a campanha.
Para complicar ainda mais o cenário, os EUA anunciaram na 2ª feira (20.abr.2026) o desejo de repatriar o adido da Polícia Federal em Miami, Marcelo Ivo de Carvalho. Lula já ameaçou reagir na mesma moeda. Nesta 4ª feira (22.abr) deu o 1º passo: a Polícia Federal retirou as credenciais de um agente dos Estados Unidos em Brasília.
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