Adaptação hollywoodiana do clássico grego é o 1º longa todo filmado com a tecnologia; obra estreia nesta 5ª feira (16.jul)
“A Odisseia”, novo filme do diretor Christopher Nolan, estreia nos cinemas brasileiros nesta 5ª feira (16.jul.2026). Adaptação do poema épico grego de Homero, o longa é o 1º da história a ser filmado inteiramente em câmeras Imax.
O feito é responsável por parte do orçamento robusto de US$ 250 milhões, conforme a Variety. A produção da Universal Pictures é estrelada por diversos astros de Hollywood, como Tom Holland, Zendaya e Anne Hathaway, além de Matt Damon no papel do protagonista Odisseu (ou Ulisses, na tradição latina).
Nolan já utilizou câmeras Imax em vários de seus longas, como no vencedor do Oscar de Melhor Filme “Oppenheimer”, de 2023. Mas nunca nessa dimensão.
A história a ser contada talvez explique a grandiosidade da produção. “A Odisseia” relata o retorno do herói da Guerra de Tróia a sua terra natal, uma epopeia que dura 10 anos. A obra é considerada como fundadora da literatura ocidental.
ENTENDA O IMAX
As câmeras da empresa Imax promovem um salto na qualidade da imagem. Filmam em uma resolução extremamente alta e a razão disso é o seu formato: películas de 65 mm, quase o dobro do utilizado no cinema comercial analógico (35 mm).
Tradicionalmente, o rolo do filme é rodado na câmera na vertical e cada fotograma tem cerca de 4 perfurações no formato 35 mm, e 5 no 70 mm comum. No caso do Imax, a película percorre na horizontal e tem 15 perfurações.
Reprodução/Reddit @ObamiumNitrate
Na imagem, película de 35 mm (à esq.) e a do formato Imax 70 mm (à dir.); ambas são do filme “Interestelar”, também dirigido por Christopher Nolan
“A vantagem do Imax é que, rodando na horizontal, você consegue uma área maior. Em resumo, é o melhor formato de captação de imagem que existe”, afirma Adriano Barbuto, diretor de fotografia e professor do curso de Imagem e Som na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).
Isso significa que, quando projetado, o filme Imax tem a área cerca de 10x maior que o do 35 mm convencional.
NEM TUDO SÃO FLORES…
A qualidade, porém, tem um preço que vai além do financeiro. Há muitas limitações técnicas. O compartimento de película dessas câmeras só permite filmagens contínuas de cerca de 3 minutos. Depois disso, o rolo se esgota e precisa ser recarregado. A adaptação de Nolan da epopéia tem 2 horas e 52 minutos de duração.
Existe também o problema sonoro. “Quanto maior o tamanho da sua película, mais barulho vai fazer para arrastar o negativo”, explica Barbuto.
Durante muito tempo, isso praticamente inviabilizou o uso da câmera Imax na totalidade de um filme, ficando geralmente restrito às cenas de ação em que não há necessidade de som direto —até Nolan e sua “A Odisseia”.
Ao programa norte-americano “60 Minutes”, da emissora CBS, Matt Damon disse que o diretor e a equipe da Imax trabalharam para criar um equipamento que abafasse o som de funcionamento da câmera, permitindo filmar cenas mais íntimas em que os diálogos pudessem ser captados sem problemas.
Mas isso causa outros obstáculos. A estrutura com a câmera se torna gigantesca, um “dirigível” do tamanho de um “caixão” e com cerca de 136 quilos, segundo Damon.
Reprodução/Youtube @Universal Pictures
Imagem do set de “A Odisseia” com a câmera Imax acoplada ao dirigível
Com isso, em cenas em que um ator contracenava com outro, no modelo ação e reação, era necessário que houvesse uma distância maior entre eles.
O resultado é que o ângulo de visão soava estranho: no conjunto, não pareceria que ambos conversam frente a frente. Nessa situação, “o ator fica meio longe do centro do olhar”, afirma Barbuto. A solução foi a montagem de um esquema de espelhos. “Você podia ficar ao lado da câmera Imax, olhar para um espelho que refletia a imagem de volta para a câmera, e meu olhar ficava bem próximo da lente. E funcionou perfeitamente”, disse Damon.
Barbuto explica que essas artimanhas logísticas não são algo propriamente novo, mas algo corriqueiro na história do cinema. Câmeras como a clássica Technicolor, utilizada principalmente nos anos 1930 aos 1950, também faziam muito barulho e exigiam adequações técnicas na filmagem.
Para o professor, o escopo da produção justifica as complicações técnicas. “Se você está preocupado com o espetáculo, com uma coisa que ninguém viu, para mim faz todo sentido”, afirma.
MÚLTIPLAS FORMAS DE ASSISTIR
O modo idealizado pelo cineasta Christopher Nolan para ver “A Odisseia” é a exibição em salas Imax em película 70 mm (5 mm a mais que o negativo usado na filmagem, diferença que remonta ao período em que havia espaço na fita a ser ocupado pela banda sonora). No Brasil, não há salas de cinema que comportem esse formato.
Na realidade, só 41 salas no mundo inteiro são habilitadas para esse tipo de exibição, sendo que 25 estão nos Estados Unidos.
Divulgação/Universal Pictures
Pôster de “A Odisseia”
Mas é possível assistir, no Brasil, em salas Imax, com projeção digital. Têm telas mais amplas e uma proporção parecida com um quadrado, diferentemente do formato Scope, mais panorâmico.
Isso significa que assistir em uma sala de cinema comum acarreta em um corte parcial da perspectiva oferecida pelas telas Imax, para as quais o filme foi pensado.
Barbuto argumenta, porém, que a qualidade superior de imagem permanece graças à captação. “Filmar com a melhor resolução é sempre melhor. Mesmo que o Imax termine no DVD ou no streaming”.
Esta reportagem foi produzida pelo estagiário em jornalismo João Lucas Casanova sob supervisão da editora-assistente Giovanna Pacheco.