Economista afirma que país pode ter maior acesso a mercados globais e que precisa fortalecer a relação com os Estados Unidos
O economista Marcos Troyjo, 59 anos, afirmou que há “desperdícios de oportunidades” nas relações entre Brasil e Estados Unidos.
Em entrevista ao Poder360, criticou as decisões de aumento de tarifas do presidente dos EUA, Donald Trump (Partido Republicano) por prejudicarem a economia do país. Mas disse que, para o Brasil, isso pode favorecer o acesso a mercados de países que passaram a procurar diversificar as relações comerciais depois das decisões de Trump.
Assista à íntegra da entrevista:
Troyjo afirmou que o Brasil deve procurar negociar com os EUA para evitar ao menos parte da proposta de elevação de tarifas em até 37,5%. Independentemente disso, afirmou que o Brasil deveria buscar o aumento do comércio com os norte-americanos.
Na avaliação do economista, o Brasil também precisa intensificar as trocas comerciais com outros países para impulsionar o crescimento econômico.
O Brasil teve exportações de 15,3% do Produto Interno Bruto em 2025. Ficou em 15º lugar na comparação com os demais integrantes do G20.
As importações em 2025 foram 12,9% do PIB brasileiro. O país ficou em 16º lugar na comparação com outros integrantes do G20.
O economista avalia que uma eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) impediria o fortalecimento das relações comerciais com os EUA.
Troyjo foi secretário especial de Assuntos Internacionais do Ministério da Economia em 2019 e 2020 no governo de Jair Bolsonaro (PL).
Também atuou como presidente do NDB (Novo Banco de Desenvolvimento), o Banco dos Brics, de 2020 a 2023 por indicação do governo brasileiro. Em 2023, Lula indicou a ex-presidente Dilma Rousseff para a presidência do banco.
Troyjo foi escolhido o Wilhem Fellow 2026-2027 pelo Centro de Estudos Internacionais do MIT (Massachusetts Institute of Technology) em Cambridge, nos EUA.
Poder360 – Por que as exportações e importações do Brasil são mais baixas do que as de outros países do G20?
Marcos Troyjo – O Japão, desde 1945, a China, desde 1978, a Espanha, desde 1982, e Israel, desde 1985, conseguiram um desempenho econômico vibrante. Muitos dizem que isso se deve ao regime político, outros que se deve ao investimento em educação. São países que têm diferentes berços civilizacionais. Alemanha e Japão, por exemplo, cresceram durante períodos democráticos, no pós-guerra. A China, num regime de oxigênio democrático mais rarefeito. Nesses países houve uma grande ênfase no comércio exterior como uma mola propulsora do crescimento. Eu publiquei há 20 anos o livro “Nação Comerciante”, que tentava argumentar que esses países privilegiaram o comércio exterior como um dos principais vetores da sua expansão econômica, da sua prosperidade.
Também é possível identificar países que privilegiaram mais uma estratégia de fechamento, em si mesmos. É o caso do Brasil, da Argentina, da Rússia, da Turquia. Na comparação, países que privilegiaram o comércio exterior têm tido ao longo dos anos uma performance muito mais impressionante do que aqueles que ficaram voltados para si.
Alguns vão dizer: é porque o Brasil é muito grande. Mas a China é um país territorialmente maior que o Brasil. Tem cerca de 7 vezes a população brasileira. E é um país que deve muito desse desempenho vertiginoso dos últimos 48 anos ao comércio exterior. Foi um pouco, no Brasil, o reflexo dos modelos de substituição de importações, de privilegiar o mercado interno sobre o mercado externo.
Tem gente dizendo que, por conta do aumento do protecionismo internacional, o mundo está dando razão ao modelo brasileiro. Mas o fato é que os países que atrelaram o seu vagão à locomotiva do comércio se desempenharam muito melhor ao longo dos anos.
O governo dos EUA estuda aumentar as tarifas para produtos brasileiros. É possível o comércio entre os 2 países crescer mesmo com restrições?
Eu consigo pensar em poucos desperdícios maiores de oportunidades no comércio global do que a relação entre Brasil e Estados Unidos.
Os Estados Unidos têm um percentual razoavelmente pequeno do seu PIB na forma de importações. Mas isso incide sobre um PIB de US$ 31 trilhões. Mas é um valor nominal de US$ 3,6 trilhões. É maior do que o PIB da França, que é a 6ª maior economia do mundo. E é um valor também maior do que o PIB somado dos mais de 50 países do continente africano. Os Estados Unidos são um grande comprador do comércio internacional.
Qual é a fatia ocupada pelo Brasil? Só 1%. Apenas US$ 36 bilhões. Em 2 de abril de 2025, o presidente Trump anuncia o que ele chama de política de comércio justo e recíproco. Ele se vale de poderes emergenciais do presidente, e distribui tarifas para praticamente todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos. O que foi alocado no 1º momento para o Brasil foi apenas uma tarifa de 10%.
Na famosa carta de 9 de julho, em que o presidente Trump faz referências também ao que ele julga ser um tratamento injusto ao presidente Bolsonaro, acrescenta 40%. Inicia-se, 4 ou 5 dias depois, uma investigação por parte do Escritório Comercial dos Estados Unidos, que na sigla em inglês se diz USTR, sobre práticas desleais do Brasil. Não é uma coisa voltada única e exclusivamente contra o Brasil.
O USTR abriu esse tipo de investigação com base em uma seção chamada 301 contra a China, Coreia do Sul e Nicarágua. Além de outras investigações. Tem uma voltada ao tema do trabalho forçado com mais de 60 países.
O resultado dessas investigações foi anunciado e se recomenda, por parte do USTR ao presidente americano, impor 25% sobre as exportações brasileiras. E depois, num outro julgamento, sobre o trabalho forçado, mais 12,5%.
No início do ano, a Corte Suprema derrubou aquelas medidas adotadas pelo presidente Trump em 2 de abril do ano passado. Ele teve que buscar outras ferramentas para aquilo que ele entende ser a política americana de protecionismo. Mais uma vez, com a sessão 301.
No caso do Brasil, esses 25% resultantes da investigação específica voltada ao país, mais os 12,5%, que dizem respeito a dúvidas quanto ao possível trabalho forçado, incidirão apenas sobre cerca de 25% das exportações brasileiras. Se nós exportamos para os Estados Unidos US$ 36 bilhões, estamos falando aqui de incidência de tarifas sobre um pouco mais do que US$ 9 bilhões. Representa macroeconomicamente um valor muito pequeno para a economia dos Estados Unidos e para a economia do Brasil também.
O USTR está recomendando tarifas para mais de 70 países ao abrigo dessas duas investigações. Eu acho que a gente tem que lutar com tudo para evitar que esse tipo de tarifa seja adotada contra as exportações brasileiras, porque, apesar de macroeconomicamente não ser algo de gigantesco relevo, para setores específicos é muito ruim.
Para alguns estados, por exemplo, Paraná, um pouco para São Paulo, Rio Grande do Sul, seguramente Santa Catarina, há setores que vão sofrer. Mas vão sofrer também os consumidores americanos. O comprador e o vendedor ficam com o freio de mão puxado, não se lançam à atividade econômica. Em alguns casos, o comprador americano não tem uma alternativa ao alcance da mão em algum outro país. A maneira de continuar o negócio é pagar o sobrepreço, que vai ser repassado para o consumidor.
Acho que está se fazendo do lado do governo brasileiro um alarde gigante sobre esse assunto, até porque quer se impingir a um dos candidatos a culpa por isso, como se isso estivesse acontecendo única e exclusivamente com o Brasil e não fosse uma política que serve a praticamente todos os parceiros americanos.
A gente tem que lutar bastante para que, até o prazo estipulado, em 15 de julho, consigamos fazer ver que não é do interesse do Brasil e dos Estados Unidos ter mais obstáculos ao comércio bilateral.
Na sua avaliação, o governo dos Estados Unidos vai impor as novas taxas?
Está tudo em aberto. A administração Trump gosta de chamar o 2 de abril de Dia da Libertação. Eu não concordo com essa noção porque o deficit comercial americano só cresceu.
Não houve aumento da participação do setor de manufaturas na composição do PIB. Há maior pressão sobre preços nos Estados Unidos. Também gerou em outros parceiros uma ideia de casamento de ocasião. Os europeus e os chineses estavam se bicando até um tempo atrás. Voltaram a conversar muito proximamente. Foi a mesma coisa entre China e Índia.
Outro exemplo é o acordo Mercosul-União Europeia. Eu fui um dos negociadores. Quando nós concluímos o acordo em 2019, a nossa expectativa era que tivesse uma tramitação procedimental, legislativa, bastante ágil. Não foi o que aconteceu, também pelo advento da pandemia. Ora, foi com o presidente Trump eleito nos Estados Unidos, em novembro de 2024, que rapidamente os europeus tiraram o acordo da gaveta e falaram agora vamos em frente. Esse fechamento americano, esse neoprotecionismo americano, convida à formação de outras geometrias de comércio internacional com vários outros parceiros.
Os americanos acabam perdendo espaço. Mas, a julgar pelo que é o histórico da 1ª e da 2ª administração Trump, por vezes este ou aquele instrumento tarifário é utilizado como uma força de pressão na mesa negociadora para obter aquilo que o lado americano vai entender como um benefício para eles. Por exemplo, acesso a um determinado mercado, intensivo em tecnologia, talvez maior liberalização do campo do etanol, eventualmente algum tipo de parceria de mais longo prazo em áreas que os americanos hoje consideram como essenciais, caso dos minerais críticos.
Em uma entrevista em 2024, já com Trump eleito, mas ainda não empossado, o senhor mencionou que o governo dele poderia ser favorável à economia brasileira. Ainda é possível manter esse prognóstico?
O que a gente está percebendo em algumas áreas é que o Brasil tem grandes vantagens comparativas. A China é o maior produtor mundial de alimentos, mas, por conta do tamanho da sua população e do seu aumento de renda, é também o maior importador de alimentos. Até 2020, os Estados Unidos foram o grande exportador de alimentos para a China. Nestes últimos 4, 5 anos, os americanos foram ultrapassados por um outro país. Que país é esse? O Brasil.
Por conta desse neoprotecionismo americano, vários outros parceiros vão buscar alternativas, seja em volume, seja em qualidade, seja em agilidade, seja em previsibilidade, àquilo que estava vindo dos Estados Unidos. O Brasil, em algumas áreas, é esse parceiro. No campo dos investimentos estrangeiros diretos, se a gente tivesse entrado numa máquina do tempo e voltado para 2006: você é um gestor de ativos ou então é responsável por investimentos industriais de um conglomerado transnacional. Você olha para a China, crescendo 10% a 11% ao ano. O que você vai dizer? Vou aumentar a minha exposição à China.
Você olha para a Rússia, maior país do mundo, gigante de commodities minerais e energéticas. Eu vou aumentar a minha exposição à Rússia. Você olha para a União Europeia. Há anos, o maior PIB do mundo não era o americano, era o PIB combinado da União Europeia. E você olhava para os Estados Unidos: sempre aquela economia vibrante, mercado interno muito vigoroso e, do ponto de vista financeiro, mais estabilidade e mais previsibilidade. Todos esses pontos que eu mencionei estão piscando com maior fraqueza do que 20 anos atrás.
A China baixou bastante a sua taxa de crescimento. Ainda está crescendo 4,5%, agregando US$ 900 bilhões ao PIB a cada ano. Mas muitas empresas estão diminuindo a sua exposição ao risco China, não apenas por conta de guerra comercial, mas também por conta da experiência traumática que foi ter de contar com insumos que vinham do país durante a pandemia. Você olha para a União Europeia: há várias economias flertando com recessão.
A Rússia é sancionada. E tem uma consultoria de risco político, geopolítico, muito famosa, que na virada de 2025 para 2026, identificou nos Estados Unidos uma das principais fontes de risco e de incerteza do mundo.
Essa trepidação em outros possíveis destinos de investimento aumenta a atratividade relativa do Brasil. É um ator fundamental nos campos da segurança alimentar e da diversidade energética, tem o segundo maior volume de minerais críticos comprovados, que são os insumos da ciência do século 21. Então, se você olhar as estatísticas dos últimos 4 anos, dos fluxos de investimento estrangeiro direto, no agregado, o Brasil é o 2º país que mais recebeu investimento estrangeiro direto.
Não estou falando aqui daquele investimento de curto prazo, alocação de portfólio. Acho que as barbeiragens macroeconômicas do atual governo acabam, de certa forma, atraindo um tipo de investidor que não é tão desejado porque sai muito rapidamente. Para aquele investidor que está olhando para além do ciclo político eleitoral, que está com a antena ligada nessa história de, mais uma vez, segurança alimentar, diversidade energética, tem um capital importante chegando para o Brasil, que, em outras situações, estava sendo disputado por outras partes do mundo, inclusive pelos Estados Unidos. Tem uma maneira de você enxergar a presidência Trump, mesmo sendo promotora de um neoprotecionismo, como benéfica ao Brasil.
Quem desperdiça mais oportunidades na relação bilateral: Brasil ou Estados Unidos?
Ambos. Eu fico pensando, de 1982, quando fiz intercâmbio nos Estados Unidos, para cá, quantas oportunidades foram desperdiçadas. Nós vimos a ascensão do sudeste asiático, da China, de países que utilizaram o acesso privilegiado ao mercado dos Estados Unidos como um grande foguete para a sua ascensão econômica. Nós jamais fizemos isso.
O Brasil ainda é um destino importante de investimento direto americano por conta da diversificação. Mas o nosso intercâmbio comercial é pequeno. Nosso plantel de parcerias podia ser muito mais amplo, alguns até no campo de pesquisa, desenvolvimento, inovação, ciência e tecnologia. Somos as duas maiores democracias do Ocidente. Somos as duas maiores economias do nosso continente e o nosso intercâmbio está aquém do que poderia ser.
No início do século havia uma conversa muito ativa, para a criação da Área de Livre Comércio das Américas, a Alca. Quando houve a eleição do PT no Brasil em 2023, automaticamente veio esse tom de “não, queremos evitar o neocolonialismo, como é que a gente vai permitir toda uma integração econômica em que um dos atores é tão maior do que os outros”. Recentemente, no período que eu estava no governo, a gente trabalhou muito para fazer do Brasil membro da OCDE, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Havia uma resistência americana. Nós trabalhamos muito para ter essa resistência levantada. Conseguimos um endosso no governo americano. Mas essa foi uma agenda que se perdeu também em tempos mais recentes.
Hoje, de cada US$ 2 que o Brasil exporta, US$ 1 vai para a Ásia. Nós precisamos de mais fluxos com a Europa e precisamos de mais fluxos com os Estados Unidos. Acho que essa é uma situação que só se resolve com eleições e com a mudança de governo no Brasil.