Setor vê crescimento no país mesmo com as medidas lançadas pelo republicano para barrar a expansão de parques eólicos
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não esconde seu desprezo pela energia eólica, que ao longo dos anos ele atribuiu falsamente a casos de câncer e à morte de baleias no Oceano Atlântico. Mas seu sentimento antieólico assumiu novas proporções desde que ele voltou ao poder.
Nesse período, ele criou obstáculos para barrar a expansão da energia eólica, que vão desde a retirada de licenças e a emissão de ordens de paralisação de obras até o pagamento a empresas que toparem interromper projetos offshore e investir na exploração de petróleo e gás.
Ainda assim, Trump provavelmente liderará a maior expansão da energia eólica da história dos EUA. Até 2027, espera-se que tenham quase 35 vezes mais capacidade de geração de energia eólica offshore do que tinham quando ele assumiu o cargo.
“É uma história de dois mundos”, disse Jeremy Firestone, professor emérito da Escola de Ciência e Política Marinha da Universidade de Delaware.
Em um momento em que os preços dos combustíveis estão elevados, a demanda por eletricidade cresce por causa de data centers de inteligência artificial que consomem muita energia e o aquecimento do planeta se agrava, defensores da energia limpa afirmam que retirar a energia eólica dessa equação terá consequências para os consumidores.
“Com o foco real nos data centers e no preço da eletricidade, do petróleo e dos combustíveis, seria ainda mais absurdo continuar bloqueando projetos de energia limpa e aumentar ainda mais os preços da eletricidade “, afirmou Ted Kelly, diretor de energia limpa da ONG Fundo de Defesa Ambiental (EDF).
Guerra contra a energia eólica
Ainda assim, bloquear é exatamente o que Trump tem feito. No 1º dia de seu 2º mandato, emitiu um memorando executivo congelando o arrendamento de novas áreas para projetos eólicos – apelidado por ativistas de “proibição da energia eólica”.
Em seguida, emitiu ordens de paralisação das obras em todas as 5 iniciativas offshore em construção que haviam sido aprovadas, citando preocupações de segurança nacional, e retirou as licenças de outros projetos já autorizados.
A intervenção não parou por aí. Uma de suas medidas mais recentes envolve um pagamento para empresas que desistirem de projetos eólicos. Em março, o governo destinou quase 1 bilhão de dólares (R$ 5,3 bilhões) à gigante francesa de energia TotalEnergies, que havia adquirido concessões para desenvolver parques offshore próximos à Carolina do Norte e a Nova York.
Um mês depois, ele ofereceu pagamentos a duas outras empresas, totalizando 885 milhões de dólares. De acordo com o secretário do Interior americano, Doug Burgum, a medida ajudaria a “reduzir os custos cotidianos de energia” para os americanos, que “não terão mais de arcar com projetos de energia caros, pouco confiáveis e intermitentes”.
Apesar de toda a pressão, a energia eólica vive um momento de destaque nos tribunais. “Quando a energia eólica offshore chega à Justiça, ela tem vencido”, disse Pasha Feinberg, estrategista de energia eólica offshore da ONG americana Conselho de Defesa de Recursos Naturais.
Em dezembro de 2025, um juiz derrubou a proibição à energia eólica imposta por Trump, ao considerar que ela excedia sua autoridade. E, embora o governo esteja recorrendo, outros tribunais também decidiram que a construção pode ser retomada em todos os 5 projetos que receberam ordens de paralisação.
Enquanto isso, a legislação de cortes de impostos do governo, que eliminou créditos fiscais para energia limpa criados durante o governo do ex-presidente Joe Biden, provocou uma corrida para iniciar obras de projetos de energia renovável antes que os incentivos expirem em julho.
Espera-se que novos parques eólicos offshore adicionem cerca de 6 gigawatts à rede elétrica até 2027 – o suficiente para abastecer aproximadamente 2,5 milhões de residências. Um deles é o projeto Empire Wind, da empresa norueguesa de energia Equinor, localizado ao sul de Long Island.
Antes atingido por uma ordem de paralisação que acabou sendo derrubada, o projeto usará turbinas tão potentes que uma única rotação de uma pá deverá fornecer energia para uma casa por um dia e meio.
Impacto nas contas de luz
Em 2025, a energia eólica gerou cerca de 10% da eletricidade dos Estados Unidos, atrás do gás natural, com 40%, e da energia nuclear, com aproximadamente 17%.
Mesmo sem subsídios, a energia eólica e a solar continuam entre as novas fontes de energia mais baratas do país, segundo a consultoria financeira Lazard. Quando produzida em parques eólicos offshore, seu custo de geração é mais caro, porém ainda amplamente competitivo com novas usinas a gás e muito mais barato do que a nuclear.
Depois que uma turbina é construída, o vento não custa nada, o que permite que parques eólicos vendam eletricidade no mercado atacadista a preços muito mais baixos do que a gerada a gás ou carvão, o que tende a reduzir os preços para todos.
O efeito já é visível. Uma onda de frio na Nova Inglaterra, em dezembro, deveria ter feito os preços da energia dispararem, mas o projeto Vineyard Wind – quase concluído, na costa de Massachusetts – estava operando com os fortes ventos de inverno no oceano, substituindo o gás natural, cujos preços são voláteis.
Segundo o EDF, a economia gerada para os consumidores da região foi de 2 milhões de dólares por dia.
Projetos eólicos também produzem cerca de US$ 2 bilhões por ano em impostos estaduais e locais e em pagamentos por arrendamento de terras.
O setor emprega 133 mil pessoas, em comparação com aproximadamente 115.900 que trabalhavam na exploração de petróleo e gás em 2024. Técnicos de manutenção de turbinas eólicas estão entre as duas ocupações que mais crescem nos Estados Unidos nesta década, segundo o Departamento de Estatísticas do Trabalho.
O futuro da energia eólica
Ainda assim, a volatilidade política prejudica a confiança dos investidores, mesmo nos casos em que Trump perdeu na Justiça, segundo analistas. Antes do retorno do presidente ao poder, a BloombergNEF havia projetado 39 gigawatts de capacidade eólica offshore nos Estados Unidos até 2035. Essa previsão foi reduzida para 6 gigawatts, por enquanto.
“Não vemos novos projetos de energia eólica offshore entrando em operação sem mudanças significativas na política”, disse Harrison Sholler, analista de energia eólica da BloombergNEF.
Com a demanda cada vez maior por eletricidade e a preocupação com as contas de energia, defensores argumentam que a lógica econômica da energia eólica acabará prevalecendo. Os três principais estados produtores de energia eólica em terra – Texas, Iowa e Oklahoma – são majoritariamente conservadores.
Mais de 8 em cada 10 eleitores americanos apoiam mais energia renovável, incluindo 77% dos republicanos, segundo pesquisa do grupo de defesa da energia eólica offshore Turn Forward.
“Não temos escolha a não ser usá-la se quisermos atender às nossas demandas energéticas”, disse Feinberg. “Ela vai prevalecer.”
A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. O texto foi publicado em 26 de maio de 2026 e adaptado para o padrão do Poder360.
Facebook | Twitter | YouTube| WhatsApp | App | Instagram | Newsletter