Saiba como funciona e quais são os clubes da Libra

Bloco mantém modelo de gestão sem investidores externos e foca em contrato bilionário com o Grupo Globo para o ciclo 2025-2029

A Libra (Liga do Futebol Brasileiro) foi criada em maio de 2022, com sede em São Paulo. O bloco foi idealizado com a proposta de profissionalizar o esporte no país, produzir mais lucros para os times e reproduzir modelos bem-sucedidos como os existentes na Espanha (La Liga) e na Inglaterra (Premier League).

Assim como seu concorrente FFU (Futebol Forte União), a Libra funciona como bloco de negociação: os clubes se juntam e autorizam o bloco a representar seus direitos comerciais do Campeonato Brasileiro. Os direitos incluem transmissão de TV aberta e fechada, streaming e pay-per-view, mas podem envolver também patrocínios, placas de publicidade, licenciamento de marcas, dados estatísticos, conteúdos digitais e outros ativos comerciais ligados ao campeonato.

Até a formação das duas ligas, as negociações dos direitos comerciais do Campeonato Brasileiro eram conduzidas de forma fragmentada. Em muitos casos, cada clube negociava individualmente seus contratos com emissoras e plataformas. O modelo concentrava força nos times de maior audiência.

A Libra escolheu um modelo sem investidores externos. Os clubes mantêm a propriedade dos ativos e usam o bloco como estrutura coletiva para negociar com emissoras, plataformas digitais e patrocinadores. Nesse formato, o dinheiro entra conforme os contratos comerciais são fechados e executados. Foi com esse modelo que o bloco chegou ao acordo de R$ 6 bilhões com a Globo para a venda dos direitos do Brasileirão de 2025 a 2029.

Na data da sua criação, a Libra era composta por apenas 8 clubes, que assinaram o documento de fundação da liga. Naquela ocasião, os fundadores eram o Corinthians, Flamengo, Palmeiras, Red Bull Bragantino, Santos e São Paulo, Cruzeiro e Ponte Preta.

Atualmente, o grupo conta com 14 clubes, concentrando algumas das marcas de maior audiência do país:

Série A: Atlético Mineiro, Bahia, Red Bull Bragantino, Flamengo, Grêmio, Remo, Santos, São Paulo e Vitória;

Série C: Guarani, Paysandu, Brusque, Ferroviária e Volta Redonda.

Saída de uma potência

O Palmeiras, um dos maiores clubes do Brasil, anunciou sua saída da Libra em 5 de maio de 2026. Em comunicado, a diretoria do clube informou que “atitudes egoístas, quando não predatórias, inviabilizaram” sua permanência no bloco, que agora conta com 14 times: Flamengo, São Paulo, Bahia, Bragantino, Grêmio, Remo, Santos, Guarani, Paysandu, Brusque, Ferroviária, Volta Redonda, ABC e Sampaio Corrêa.  Eis a íntegra (PDF – 109 KB) do comunicado do Palmeiras.

A decisão do clube paulista se deveu a um desgaste causado por um acordo paralelo entre Flamengo e Grêmio. Para garantir o apoio do clube gaúcho em votações internas e garantir a continuidade de um contrato bilionário com a Globo, o Flamengo se comprometeu a repassar R$ 24 milhões ao Grêmio (R$ 6 milhões anuais, durante 4 anos) fora da liga. Essa movimentação, vista como uma tentativa de comprar votos, foi considerada pelo Palmeiras uma quebra de princípios e um exemplo de gestão predatória que inviabilizou a permanência alviverde no grupo.

Há também um aspecto pouco mencionado e até negligenciado pelos clubes: a exposição da marca de cada um deles quando um jogo é transmitido na TV aberta. Tome-se o caso de duas partidas pela Copa Libertadores, em 20 de maio de 2026: Palmeiras X Cerro Porteño e Flamengo X Estudiantes. Os jogos foram no mesmo horário e transmitidos pela TV Globo, parceira da Libra. Só que o confronto do Palmeiras só passou para os Estados de São Paulo e Paraná. Já o do Flamengo ficou ao vivo nos outros 24 Estados e no Distrito Federal. 

Tanto Palmeiras como Flamengo têm um ganho indireto quando seus jogos são transmitidos nacionalmente –a marca fica mais conhecida e seus patrocinadores, mais satisfeitos por terem exposição maior. Ocorre que a TV Globo (empresa cuja sede é no Rio) é dona da decisão de onde passar cada partida. Ainda que o Flamengo tenha a maior torcida do Brasil, nunca há uma explicação técnica para essa equipe sempre estar com suas partidas ao vivo na TV Globo em número muito maior de Estados do que as demais agremiações.

A Libra poderia atuar para oferecer um tratamento de exposição de imagem mais equânime aos times na TV aberta. Só que isso não ocorre. Não por acaso, o Palmeiras deixou o grupo.

A FFU também é vista com desconfiança pelos clubes. A liga adotou uma estratégia de capitalização imediata: os clubes cedem parte das receitas futuras a investidores privados em troca de aportes financeiros no curto prazo. Em 2023, os times da FFU fecharam um acordo para ceder até 20% das receitas futuras de seus direitos comerciais do Campeonato Brasileiro por 50 anos, em uma operação de cerca de R$ 2,6 bilhões.

Os clubes se queixam, no entanto, de uma asfixia financeira, de um conflito de interesses no modelo de negócio e de uma falta de clareza sobre a origem do dinheiro. Em comunicado conjunto de 6 de fevereiro de 2026, agremiações como América-MG, Ponte Preta, Ceará, Sport e Goiás expressaram o que chamam de “profunda preocupação” com a governança da liga. Leia a íntegra (PDF – 73kB).

CBF de volta

Enquanto as ligas enfrentam impasses internos e deserções, a CBF recupera espaço institucional. A confederação passou por um longo período de instabilidade política e jurídica, marcado pelo afastamento sucessivo de presidentes desde 2012. 

Ricardo Teixeira foi banido pela Fifa em abril de 2019 num caso em que houve uma investigação sobre suborno. José Maria Marin (1932-2025) foi preso em maio de 2015, no escândalo conhecido como “Fifagate”. Marco Polo Del Nero foi banido pela Fifa em abril de 2018 sob a alegação de ter cometido corrupção. Rogério Caboclo foi afastado da presidência da CBF em junho de 2021, depois de ser citado num caso de assédio moral e sexual (ele negou ter cometido esses delitos). Mais recentemente, em 15 de maio de 2025, Ednaldo Rodrigues também foi removido do cargo por decisão do TJ-RJ, tornando-se o 5º presidente afastado nos últimos mandatos.

A chegada de Samir Xaud à presidência da CBF, em maio de 2025, prometendo uma gestão estável, culminou no avanço da CBF sobre a fragilidade das ligas. Xaud tem criticado abertamente os resultados comerciais dos blocos, afirmando que “alguns valores negociados não foram bons”. Cita, em específico, o contrato da Série B. O posicionamento atraiu clubes que se sentiam desamparados, como São Bernardo e Náutico, que procuraram a CBF para vender seus jogos de forma independente, sob a chancela da confederação. Em evento realizado em 7 de maio de 2026, em Fortaleza, Xaud disse: “Acreditamos que não existe liga sem a CBF, que é quem cuida e zela pelo futebol brasileiro”.

O dirigente tem dito que a dificuldade da Libra e da FFU para construir consenso demonstra a necessidade de uma organização mediadora forte. Em 6 de abril de 2026, Xaud organizou uma reunião, na sede da CBF, com os 40 clubes das Séries A e B. A confederação apresentou um estudo sobre a adoção de uma liga única e ofereceu um cronograma institucional que os blocos não conseguiram estabelecer. A CBF fixou um prazo até julho de 2026 para receber propostas sobre o tema, com a meta de oficializar o estatuto de uma nova liga sob sua tutela até o fim deste ano. 

O problema maior desse modelo oferecido pela CBF é como os clubes que assinaram contratos de longo prazo com as ligas fariam para romper esses compromissos. Há obrigações financeiras a serem cumpridas e a solução não será trivial.

Procurada pelo Poder360, a Libra não quis se manifestar nesta reportagem.

Leia mais:

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-sportsmkt/saiba-como-funciona-e-quais-sao-os-clubes-da-libra/

Deixe um comentário