Sem luz e água, estudantes ocupam reitoria da USP pelo 2º dia

Grevistas dizem que só deixarão o prédio com a retomada das negociações; institutos da universidade criticam a invasão e falam em “escalada de violência”

Os estudantes da Universidade de São Paulo ocupam pelo 2º dia seguido o prédio da reitoria neste sábado (9.mai.2026). Mesmo após o corte de água e luz no local desde a noite de 6ª feira (8.mai), os grevistas prometem não sair até que o reitor Aluísio Augusto Cotrim Segurado retome as negociações para atender às pautas estudantis.

A principal reivindicação dos estudantes é o reajuste do PAPFE (Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil), destinado a alunos em vulnerabilidade socioeconômica. Hoje, o programa paga R$ 335 a estudantes com vaga em moradia estudantil e R$ 885 aos que dependem de apoio financeiro integral. Os manifestantes pedem que ambos os valores sejam elevados para R$ 1.804, equivalente ao salário mínimo paulista, sob o argumento de que os auxílios já não cobrem os custos de permanência na universidade.

João Lucas Casanova/Poder360 – 9.mai.2026

Bandeiras e cartazes de organizações estudantis foram pendurados nos portões

 João Lucas Casanova/Poder360 – 9.mai.2026

Acesso da imprensa ao prédio é limitado

João Lucas Casanova/Poder360 – 9.mai.2026

Alguns estudantes usam máscaras com receio de serem identificados e sofrerem represálias da reitoria

João Lucas Casanova/Poder360 – 9.mai.2026

Muitas da mensagens pedem condições melhores para permanência estudantil

João Lucas Casanova/Poder360 – 9.mai.2026

Grevistas também expõem caricaturas do reitor Aluísio Segurado

João Lucas Casanova/Poder360 – 9.mai.2026

Alunos evitam se aproximar dos portões

A ocupação iniciou na 5ª feira (7.mai), depois que a reitoria encerrou a conversa com os estudantes, em greve há 25 dias. Alunos acampavam em frente à entrada da reitoria pela manhã e, ao fim da tarde, um grupo derrubou portas de vidro para entrar no saguão da administração central. A USP criticou a invasão do prédio, que chamou de “escalada da violência”. Institutos da universidade também se posicionaram contra.

Assista ao vídeo do momento em que estudantes entram no prédio da reitoria:

📹 #Vídeo Estudantes da USP ocupam reitoria e cobram retomada de negociações

🏛️ Alunos da Universidade de São Paulo ocuparam, na 5ª feira (7.mai.2026), o prédio da reitoria da instituição. O grupo cobra que o reitor Aluísio Augusto Cotrim Segurado retome as negociações sobre… pic.twitter.com/tLGw31SKyn

— Poder360 (@Poder360) May 9, 2026

Na 6ª feira (8.mai), a instituição cortou o fornecimento de água e luz do prédio com o objetivo de tornar inviável a permanência dos estudantes. Para contornar a dificuldade, sindicatos de funcionários, centros acadêmicos e docentes da universidade têm fornecido alimentos e galões de água aos alunos.

Com tendas para descanso, caixas de som e comissão para limpeza do espaço, os alunos se organizam para manter a mobilização. Um show da artista independente Sophia Chablau está previsto para o fim da tarde na rua da reitoria. 

O acesso da imprensa à parte interna do prédio está limitado. Os estudantes temem ser identificados e sofrer represálias da reitoria. Vários utilizam máscaras.

DEMANDAS

Em resposta às demandas para elevar o auxílio até R$ 1.984, a reitoria ofereceu aumento de R$ 27 no auxílio integral e R$ 5 no parcial. Segurado diz que a demanda dos estudantes mudou e que o salário mínimo paulista nunca esteve nas discussões. Os estudantes negam.

Além do PAPFE, os alunos reivindicam mudanças nas regras de uso dos espaços acadêmicos, criação de cotas trans e de vestibular indígena. Uma minuta sobre o uso dos espaços chegou a ser revogada pela reitoria depois da ampliação da greve estudantil. 

Os estudantes também se queixam da infraestrutura da universidade. Os grevistas relatam problemas no restaurante universitário, como a presença de larvas, baratas e pedaços de vidro nas refeições. A contratação de professores, central na greve estudantil de 2023, é outra demanda.

IMPASSE

Segurado não mostrou intenção de ceder. Em entrevista a jornalistas na 6ª feira (8.mai), o reitor disse não reconhecer erro na condução das negociações que levaram à invasão do prédio. 

Afirmou que a proposta da instituição, realizada na última reunião com estudantes em 30 de abril, era a final considerando as “possibilidades orçamentárias da universidade”.

O reitor criticou o que chamou de “outra agenda, externa à universidade”. Segurado mencionou o uso de símbolos em camisas e bandeiras de partidos. Citou também a convocação de um ato contra o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) como indício de um orquestramento político. 

A classe estudantil nega a associação. Para um estudante de comunicação da universidade, que preferiu não ser identificado, a tentativa de associação partidária feita pelo reitor “é uma forma de tentar deslegitimar os alunos que estão aqui”.

Segundo o estudante, “discursos políticos, de debate político, estão presentes, mas é algo natural e não ligado organicamente a algum tipo de partido político ou movimento específico”.

ESTOPIM

A greve estudantil acompanhou a de funcionários técnicos e administrativos da USP, encerrada em 24 de abril após acordo com a reitoria. Foram 10 dias de paralisação. 

A movimentação se deu depois da criação da GACE (Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas) pela reitoria, bônus destinado a professores por atividades adicionais, em 31 de março. 

No fim, os trabalhadores aceitaram a bonificação de cerca de R$ 1.600 mensais, que equipara os ganhos ao valor destinado a professores por meio da GACE.

Dentre as garantias concedidas aos funcionários pela instituição estava justamente o diálogo da reitoria com os estudantes sobre as pautas da categoria. Como resultado, rodadas de conversa foram realizadas, mas sem chegar a um destrave. 

Segundo o reitor, em entrevista ao Jornal da USP, “não cabe mais negociação quando uma das partes entende que ela só termina com o atendimento total de todas as demandas”. 

Esta reportagem foi produzida pelo estagiário de jornalismo João Lucas Casanova sob supervisão do secretário de Redação Assistente Guilherme Pavarin

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-educacao/sem-luz-e-agua-estudantes-ocupam-reitoria-da-usp-pelo-2o-dia/

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