Iniciado em 1946, Tribunal de Tóquio condenou 7 membros do alto escalão militar japonês à pena de morte por crimes de guerra
Em 2026, completam-se 80 anos da abertura do Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, também conhecido como Tribunal de Tóquio. Essa Corte foi o equivalente asiático do Tribunal de Nuremberg, que julgou membros do alto escalão nazista por crimes contra a humanidade e de guerra. No Tribunal de Tóquio, os réus foram os membros do governo e do exército japonês que atacou a China em 1937 e as Filipinas e a Indonésia ao longo da 2ª Guerra Mundial (1939-1945).
A data por si só já é uma importante memória histórica para os chineses, o povo que mais sofreu com comprovadas atrocidades cometidas por tropas japonesas que ocuparam parte do país por 14 anos. Mas a data fica ainda mais emblemática pelo atual estado das relações entre China e Japão. Desde o final do ano passado, com a ascensão da primeira-ministra Sanae Takaichi (Partido Liberal Democrata, direita), a base política dos laços diplomáticos entre os países foi prejudicada.
A crise começou por 2 motivos, e ambos têm ligação direta com a primeira-ministra japonesa.
Em novembro, Takaichi declarou que ajudaria militarmente Taiwan em um cenário de um ataque chinês contra a ilha. Poucas falas são tão sensíveis ao governo chinês quanto uma indicação de que se envolveria em qualquer assunto na relação China-Taiwan. Como esperado, Pequim condenou a fala de Takaichi e, desde então, os 2 governos não dialogam diretamente.
A outra ponta da crise é a própria bandeira de campanha de Takaichi. A primeira-ministra foi eleita com um discurso de remilitarização do país e já tem encaminhado agendas para possibilitar um crescimento de sua indústria e arsenal militar. Takaichi está revertendo a chamada “Doutrina Fukuda”, criada em 1977 e que era uma promessa de que o Japão não voltaria a ser uma potência militar e reforçava sua Constituição “pacifista” promulgada em 1946.
Nos últimos meses, o governo japonês:
revogou a proibição, que perdurava há 60 anos, à exportação de armas letais –o país passa a poder vender equipamentos de defesa como caças, mísseis e navios de guerra para aliados;
instalou seu 1º pacote de mísseis de longo alcance em uma província voltada para a costa chinesa
acelerou o programa de expansão militar iniciado em 2023 que estabelece dobrar os gastos de defesa do Japão para 2% do PIB (Produto Interno Bruto).
A China monitora com atenção os movimentos do país vizinho. O governo chinês já declarou em diversas oportunidades que os esforços japoneses para revigorar sua indústria militar representam uma ameaça para a paz na Ásia. Encontrou na Rússia uma parceira que também classifica como um grave risco à remilitarização japonesa.
É nesse contexto que a China prepara uma série de eventos para homenagear a morte de milhões de soldados e civis na guerra contra o Japão. Além de promover a conscientização internacional sobre a história do Tribunal de Tóquio, Pequim mira angariar mais apoio para podar o governo Takaichi.
TRIBUNAL DE TÓQUIO E O MASSACRE DE NANQUIM
De 3 de maio de 1946 a 12 de novembro de 1948, uma Corte de 11 juízes de 11 diferentes nacionalidades que combateram contra o Japão– China, Estados Unidos, União Soviética, França, Reino Unido, Índia, Nova Zelândia, Filipinas, Holanda, Austrália e Canadá– julgaram 28 autoridades japonesas que participaram da 2ª Guerra Sino-Japonesa (1931-1945) e da 2ª Guerra Mundial.
Desse total, 25 foram julgados até o final do processo, 2 morreram antes do veredito e um foi considerado inimputável por insanidade. Dos 25 considerados culpados, 7 foram condenados à pena de morte, 16 à prisão perpétua, um a 20 anos de prisão e outro a 7 anos.
O principal nome entre os réus era o do primeiro-ministro japonês de 1941 a 1944, Hideki Tojo. Em setembro de 1945, Tojo tentou se matar antes de ser capturado por tropas norte-americanas, mas foi socorrido e sobreviveu até ser julgado pelo tribunal. Foi enforcado em dezembro de 1948.
A principal controvérsia em torno do Tribunal de Tóquio foi a não persecução penal do imperador do Japão, Hirohito. Em seu depoimento na Corte, Tojo declarou que Hirohito estava ciente dos planos de guerra japoneses, incluindo o ataque à base norte-americana de Pearl Harbor.
No entanto, Hirohito não foi alvo do tribunal. A principal tese sobre a decisão de não colocar o imperador no banco dos réus é que os EUA pressionaram para poupá-lo, pois enxergavam Hirohito como a única figura capaz de liderar uma transição pacífica no Japão do pós-guerra.
Entre todos os crimes nos quais o Tribunal de Tóquio se debruçou, o mais famoso é o Massacre de Nanquim. O massacre foi um período de aproximadamente 6 semanas marcadas pela extrema violência das tropas japonesas depois da captura da então capital chinesa, Nanquim, em 13 de dezembro de 1937. Estima-se que mais de 300 mil civis e soldados desarmados tenham sido mortos, enquanto dezenas de milhares de mulheres foram vítimas de estupro.
Eric Napoli / Poder360 – 29.abr.2026
Na imagem, flores depositadas no Memorial das Vítimas do Massacre de Nanquim
Atualmente, Nanquim possui dezenas de memoriais sobre o massacre e o evento é amplamente estudado nas escolas chinesas. O principal espaço de memória das vítimas do massacre é o Memorial das Vítimas do Massacre de Nanquim pelos Invasores Japoneses.
Desde 2014, a China realiza um evento de mobilização nacional em memória das mortes em Nanquim.
O massacre já foi tema de diversas produções chinesas. A mais recente foi o filme “Dead to rights” (“Nanjing: Luz na Escuridão” em português) lançado em julho do ano passado, já em um contexto de campanha pelos 80 anos da vitória na Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa e na Guerra Antifascista Mundial –nomes usados na China para os confrontos. O filme teve uma bilheteria de US$ 423 milhões (R$ 2,1 bilhões).