Banco de desenvolvimento incluiu mineradora de propriedade estrangeira para incentivar a exploração de terras-raras
O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) selecionou projeto da mineradora estrangeira Serra Vede para investir em exploração de terras-raras em Minaçu (GO). O anúncio foi feito em junho de 2025, durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No programa, a Serra Verde recebeu avaliação positiva da Finep (Agência Nacional de Inovação e Política Ambiental). O projeto foi selecionado junto com outros 55 na chamada pública do banco de desenvolvimento para apoiar investimentos em transformações de minerais estratégicos. O investimento potencial era de R$ 85,2 bilhões em 124 propostas de planos de negócio.
Em 12 de junho de 2025, o BNDES anunciou que foram selecionados 56, com valor estimado em R$ 45,8 bilhões. A Serra Verde disse que foi aprovada. O BNDES e a Finep liberaram até R$ 5 bilhões em instrumentos financeiros, incluindo crédito, subvenção econômica e apoio não reembolsável.
O BNDES disse que o edital fomenta investimentos em produção, inovação e manufatura, envolvendo minerais como lítio, grafite, cobre, níquel, terras raras e outros insumos essenciais para tecnologias limpas e renováveis.
O banco de desenvolvimento disse que poderiam participar do processo de seleção as empresas brasileiras com atuação nas cadeias produtivas de minerais. Segundo o edital, as companhias estrangeiras –como a Serra Verde–também estavam autorizadas a se inscrever, desde que “a submissão dos pedidos de apoio financeiro (projetos)” fosse realizada por empresa brasileira. Leia a íntegra (PDF – 154 kB).
O investimento poderia ser feito via:
Crédito;
Participação acionária;
Recursos não-reembolsáveis para projetos cooperativos entre empresas e instituições tecnológicas;
Subvenção econômica.
FINANCIAMENTO PENDENTE
Em nota, o BNDES disse que tem buscado estimular a cadeia de minerais estratégicos para a transição energética e para descarbonização no Brasil.
O banco de desenvolvimento disse que o edital tem como objetivo fomentar planos de negócios de empresas brasileiras, mas que não há vedação para financiamento de empresas com controle de capital estrangeiro.
O Poder360 questionou o BNDES se manterá medidas para investimento –via crédito, subvenção, ou outros– na Serra Verde. Segundo a estatal, sempre que há uma mudança societária “deve haver uma reavaliação da empresa, considerando os novos participantes da sua árvore societária, que poderá ou não indicar algum impedimento para realização de operações com o BNDES”.
A Serra Verde recebeu a “indicação de instrumentos financeiros” do BNDES e da Finep que poderão ser utilizados para apoiar a realização dos empreendimentos. A empresa estrangeira ainda não tem contrato formalizado de financiamento. O BNDES disse que, por isso, não há como mantar sobre condições do crédito e do plano de negócios da empresa, por sigilo empresarial.
“No momento, a maior parte das empresas e projetos inseridos nos planos de negócios selecionados estão em fase de detalhamento de informações para realização das análises pertinentes ao processo de concessão de financiamento”, disse.
Leia a íntegra da nota:
“O BNDES tem buscado estimular a cadeia de minerais estratégicos para a transição energética e para a descarbonização no Brasil, em sintonia com os objetivos da Nova Indústria Brasil (NIB) do Governo Federal.
“A chamada pública lançada pelo BNDES em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) teve como objetivo expresso no edital fomentar Planos de Negócio de empresas brasileiras que contemplem investimentos em capacidade produtiva e P,D&I para transformação de minerais estratégicos e obtenção de materiais transformados ou produtos manufaturados para transição energética e descarbonização no Brasil.
“Cabe informar que, embora não exista vedação para financiamento de empresas com controle de capital estrangeiro, sempre que há uma mudança societária deve haver uma reavaliação da empresa, considerando os novos participantes de sua árvore societária, que poderá ou não indicar algum impedimento para realização de operações com o BNDES.
“Conforme previsto no edital, as empresas que tiveram planos de negócios selecionados, incluindo a Serra Verde Pesquisa e Mineração Ltda, passaram pela fase de elaboração do Plano de Suporte Conjunto (PSC) e receberam a indicação de instrumentos financeiros do BNDES e da Finep que poderão ser utilizados para apoiar a realização dos empreendimentos. No momento, a maior parte das empresas e projetos inseridos nos planos de negócios selecionados estão em fase de detalhamento de informações para realização das análises pertinentes ao processo de concessão de financiamento. No caso da Serra Verde Pesquisa e Mineração Ltda, ainda não há contrato formalizado de financiamento. Desta forma, não há como o BNDES comentar sobre condições de financiamento tampouco sobre o plano de negócios da empresa em questão, por este ser protegido por sigilo empresarial”.
PARTICIPAÇÃO EM EVENTO
Pedro Burnier, diretor de Sustentabilidade, Estratégia e Assuntos Corporativos da Serra Verde, participou de evento do BNDES em 10 de março de 2025 como palestrante. Ele disse que que a Serra Verde foi a 1ª empresa com operação 100% licenciada produzindo e vendendo concentrados de terras-raras.
Ele declarou que o projeto em Minaçu foi totalmente financiado pelos acionistas da empresa e que buscava, em março de 2025, novas iniciativas.
“A Serra Verde comunga com, exatamente, o que o governo brasileiro quer, que é liderar uma transição energética justa, não só na questão dos minerais críticos, mas também dos combustíveis e da energia limpa”, disse.
No seminário, o painel “Caminhos para instalação de indústrias de produtos transformados de Terras Raras” também teve a participação de:
Kevin Morris, COO da Neo Performance Materials;
Marcelo Juliano de Carvalho, diretor da Meteoric S.A;
Pedro Burnier, diretor ESG and Corporate Affairs da Mineração e Pesquisa Serra Verde Ltda;
André Pimenta de Faria, coordenador de PDI – CIT SENAI ITR;
Ramón Barúa Costa, CEO da Acalara.
O diretor declarou que a mina de Serra Verde é estratégica, porque é a única mina operacional 100% licenciada “produzindo e vendendo” terras-raras no Brasil.
O executivo disse que são quase 1.000 pessoas que trabalham no interior de Goiás. A demanda para terras-raras “pesadas”, principalmente para produção de imãs, deve crescer mais de duas vezes até 2050. Mais de 30 projetos novos serão necessários até 2035 para garantir que atender essa procura, segundo ele.
“O Brasil está localizado numa jurisdição que permite a mineração. Sabemos das dificuldades […], mas são projetos que a gente vê que o setor pode fazer diferença”, declarou Burnier.
Minaçu é uma cidade mineradora, onde fica localizada a Sama Mineração, única empresa que explora amianto na América Latina. O executivo da Serra Verde disse que a companhia aproveitou a mão de obra e infraestrutura que já existiam na região.
A Serra Verde tem parceria com o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). Segundo o diretor da empresa, o projeto demorou quase 15 anos, mas que teve apoio dos acionistas desde o início.
A empresa teve ainda investimento em 2024 de US$ 150 milhões dos EUA, quando foi inscrita no MSP (Minerals Security Partnership), parceria entre União Europeia e outros países focada em acelerar o desenvolvimento de cadeias de suprimento de energia crítica diversificadas e sustentáveis. Os Estados Unidos integram o grupo.
MINERAÇÃO E POLÍTICA
Depois de ter anunciado a sua venda para a empresa norte-americana USA Rare Earth, a mineradora estrangeira Serra Verde teve a negociação questionada em representação na PGR (Procuradoria-Geral da República) por congressistas do Psol. Os deputados Glauber Braga (Psol-RJ), Fernanda Melchionna (Psol-RS) e Sâmia Bomfim (Psol-SP) apontaram ilegalidade na operação e pedem a anulação imediata dos atos sob defesa de que houve violação de princípios constitucionais.
O ex-governador de Goiás e pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) disse, em março de 2026, que o Estado assinou um acordo de cooperação em minerais críticos e terras-raras. Afirmou que Goiás deixou de ser “apenas um Estado que fornece matéria-prima” e passou a ser um parceiro do país norte-americano.
A Serra Verde é uma empresa de capital privado que pertence aos grupos de private equity Denham Caital e EMG (Energy and Minerals Group), com sede nos EUA, e Vision Blue, com sede no Reino Unido. Fora da Ásia, é a única produtora em larga escala de terras-raras pesadas críticas (HREEs), como disprósio e térbio, elementos usados em ímãs de alto desempenho e tecnologias de ponta.
Segundo a USA Rare Earth, o acordo é definitivo para adquirir 100% do Grupo Serra Verde, que explora terras-raras em Goiás. O pagamento será de US$ 300 milhões em transferências e 126.849 milhões de ações ordinárias recém-emitidas da USAR (USA Rare Earth). O valor das ações era de US$ 19,95 na 6ª feira (17.abr.2026), o que totaliza US$ 2.530.638.
A aquisição deverá ser concluída no 3º trimestre de 2026 depois das habituais aprovações regulatórias.