O que diz a ciência sobre testes genéticos para atletas mulheres

Comitê Olímpico exigirá exame para detectar o gene SRY a partir dos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028

Por Jamila Alessandra Perini

O Comitê Olímpico Internacional anunciou que, a partir dos Jogos de Los Angeles 2028, a categoria feminina será limitada a atletas do sexo biológico feminino, com base em testes genéticos. E qual o motivo dessa medida?

Segundo Kirsty Coventry, 1ª mulher a presidir o COI, as evidências científicas são bem claras: o cromossomo masculino cria vantagens em esportes que envolvem força, potência e resistência.

O teste genético será exigido para confirmar se a atleta é realmente do sexo feminino, isto é, se ela não apresenta o cromossomo Y. Isso porque, em humanos, o sexo é determinado pela presença do cromossomo Y. Assim, um indivíduo com cariótipo 46,XX é considerado do sexo feminino, enquanto 46,XY é do sexo masculino.

O cariótipo corresponde ao conjunto de cromossomos de um indivíduo, representando a constituição genética dele. Em um cariótipo humano normal, cada célula analisada deve apresentar 22 pares de cromossomos autossômicos (1 ao 22).

Os 22 pares de cromossomos autossomos humanos são cromossomos não sexuais, idênticos em ambos os sexos, que contêm a vasta maioria dos genes responsáveis por características estruturais e metabólicas do corpo. Além disso, há um par de cromossomos sexuais (XX ou XY), totalizando 23 pares de cromossomos = 46 cromossomos.

Síndromes cromossômicas

Existem alterações que podem mudar o número de cromossomos. Na Síndrome de Klinefelter, os indivíduos apresentam 3 cromossomos sexuais (cariótipo 47,XXY). Neste caso, são considerados do sexo masculino, pela presença do cromossomo Y.

No caso da Síndrome de Turner (cariótipo 45,X) que afeta só o sexo feminino, as portadoras têm um único cromossomo X.

Outros exemplos são a Síndrome de Insensibilidade aos Andrógenos e a Síndrome de Swyer (Disgenesia Gonadal XY), em que os indivíduos apresentam cromossomos XY, com perda da função do cromossomo Y. Assim, o desenvolvimento do corpo segue o padrão feminino, mas são, em geral, inférteis.

Testes genéticos nos esportes

Por essas e outras síndromes, não é de hoje que os testes genéticos, questões de sexo e gênero são discutidos e desafiadores no meio esportivo. Temos alguns exemplos na história.

A neozelandesa Laurel Hubbard foi a 1ª mulher abertamente transgênero a competir nos Jogos Olímpicos, participando na categoria acima de 87 kg do levantamento de peso feminino nos jogos de Tóquio 2020, realizados em 2021. Aos 43 anos, ela fez história ao competir, mas foi eliminada precocemente depois de 3 tentativas fracassadas no arranco.

Tifanny Abreu é um outro exemplo. Ela foi a 1ª atleta trans do país a atuar na Superliga Feminina de Vôlei Brasileira, com autorização da FIVB (Federação Internacional de Voleibol).

A partir de 2028, visando impedir que atletas com cromossomo Y participem de competições em categorias femininas, o COI exigirá, uma única vez, o teste que detecta a presença do gene SRY (região determinante do sexo no cromossomo Y). É um exame genético simples, usado para identificar a presença do cromossomo Y.

Existem genes que estão envolvidos na determinação e diferenciação sexual. O gene SRY, por exemplo, é exclusivo do cromossomo Y e desempenha um papel fundamental no equilíbrio entre genes promotores testiculares, apresentando uma regulação rigorosa e essencial. Sua expressão acontece já no período fetal, cerca de 40 dias após a fertilização em humanos.

Mas, a diferenciação das gônadas (testículos nos homens e ovários nas mulheres) depende de uma rede complexa de genes. Os níveis “normais” de expressão que ativam a via testicular simultaneamente reprimem a via ovariana, ou vice-versa, para determinação do sexo biológico.

O exame pode ser realizado com qualquer amostra biológica, incluindo sangue, saliva ou cotonete (swab) bucal para extração do DNA e posterior análise por PCR. Dessa forma, só atletas com resultado negativo, sem a presença do gene SRY, poderão competir na categoria feminina.

Muito além dos genes

A questão imposta pelo COI é complexa e ainda não existe um consenso no meio científico. Assim, o Comitê e muitos outros órgãos esportivos estão determinando as categorias esportivas masculino/feminino, com base no sexo biológico. Com isso, tentam garantir a igualdade dentro da competição feminina.

O desempenho atlético é uma característica multifatorial e poligênica, modificada por interações complexas entre inúmeros genes, modulados pela interação gene-ambiente.

Recentemente, estudos baseados em análises genéticas no meio esportivo buscaram identificar marcadores associados ao desempenho, resistência e potência, características cruciais em atletas de elite.

Outros estudos também tentaram avaliar riscos de desenvolvimento de lesões, sugerindo programas de treinamento individualizado para melhorar o desempenho no esporte.

Genes em quase todos os cromossomos (autossômicos, sexuais X e Y e mitocondriais) já foram identificados como marcadores genéticos relacionados ao esporte. A grande polêmica sobre as vantagens genéticas e/ou biológicas de atletas com cariótipo 46,XY (sexo biológico masculino) atuarem em categorias esportivas femininas, deve-se, principalmente, pelo papel fundamental do hormônio testosterona durante a puberdade masculina. No sexo feminino, a quantidade de testosterona é quase 20 vezes menor do que nos homens.

Mesmo que, atualmente, as atletas com sexo biológico masculino (cariótipo 46,XY), após a supressão hormonal, não tenham níveis detectáveis do hormônio testosterona no corpo, no passado, toda a sua estrutura óssea e musculoesquelética foi beneficiada pela presença da testosterona. Isso é especialmente válido para atletas que competem em modalidades esportivas que requerem força e explosão.

O que isso significa?

Durante a puberdade, a testosterona promove uma maior densidade óssea, o que impacta diretamente em estruturas ósseas mais longas, maior envergadura, tamanho e robustez, além de melhorar a capacidade pulmonar e cardíaca, fundamentais para o desempenho esportivo. A testosterona também atua na recuperação muscular mais rápida e contribui para um maior ganho de força.

Apesar do avanço e do conhecimento científico, dos ganhos relacionados a equidade de gênero e a outras questões sociais, ainda existe uma lacuna para os atletas com gêneros variados.

Talvez, as competições mistas de gênero/sexo, fora da tradicional divisão de categorias esportivas masculino/feminino, possam emergir como uma oportunidade para os atletas poderem competir. Ainda precisamos conhecer e avançar nestas questões.

Jamila Alessandra Perini é professora do curso de Farmácia e líder do Laboratório de Pesquisa de Ciências Farmacêuticas na UERJ.

Este texto foi publicado originalmente pela The Conversation às 10h14 de 1º de abril de 2026 e adaptado para publicação pelo Poder360.

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-saude/o-que-diz-a-ciencia-sobre-testes-geneticos-para-atletas-mulheres/

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