Candidato de centro que tentou fugir da polarização nunca conseguiu ir ao 2º turno até agora; em 1989, eleição para o Planalto foi solteira e esquerda se dividiu para ficar em 2º lugar
Nas 9 eleições presidenciais realizadas no Brasil desde 1989, nenhum candidato da chamada 3ª via, de centro ou alternativo à polarização entre esquerda e direita, prosperou. Os resultados mostram que esse movimento é mais um wishful thinking (quando se confunde desejo com probabilidade real) de parte da elite do país e não tem conexão com a realidade.
O Poder360 compilou os resultados de todos os pleitos para presidente desde a redemocratização. Os dados são do Tribunal Superior Eleitoral e da página Políticos do Brasil (com dados eleitorais históricos e mantida por este jornal digital desde o ano 2000).
As pesquisas hoje indicam que a disputa de 2026 está cristalizada entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A história recente indica ser improvável que surja um nome viável do chamado centro político ou de alguma outra tendência para desbancar algum desses 2.
Nos próximos intertítulos, um resumo de como pontuaram as forças políticas em cada ano:
ELEIÇÕES DE 1989
O pleito daquele ano foi o 1º direto para Presidência da República depois da ditadura militar (1964-1985). Tratou-se de uma eleição solteira, só para presidente –situação que difere da atual, em que os candidatos a presidente, governador, senador, deputado federal, deputado estadual e deputado distrital são votados no mesmo dia e fazem campanhas no mesmo período.
A eleição de 1989 foi a única com um 3º candidato competitivo desde a volta do Brasil à democracia.
Houve uma clara polarização entre um candidato mais à direita, que era representado por Fernando Collor (à época no PRN), e outros 2 mais à esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Leonel Brizola (PDT). A 3ª via daquela disputa seria o tucano Mario Covas (1930-2001), só que ele fracassou e ficou em 4º lugar. Não teve chances reais de vencer em nenhum momento.
Brizola ficou em 3º lugar, mas só 0,7 ponto percentual atrás de Lula. Os 2 disputavam a mesma faixa do eleitorado, de esquerda, que ficou dividido, e por isso seria incorreto dizer que o pedetista representava naquele momento uma 3ª via.
A eleição de 1989, no entanto, foi a única das 9 disputas para presidente desde a redemocratização em que a diferença entre o 2º e o 3º colocados ficou abaixo de 5 pontos percentuais. O infográfico abaixo mostra a votação no 1º turno:
ELEIÇÃO DE 1994
Naquele ano Fernando Henrique Cardoso (PSDB) surfava na popularidade do Plano Real, que reduziu a inflação no país e trouxe estabilidade para a economia. Virou o candidato central da eleição com esse trunfo. Foi eleito no 1º turno.
Lula ficou em 2º lugar, 19,7 pontos percentuais à frente do 3º colocado, que foi Enéas Carneiro (Prona). Orestes Quércia (1938-2010), ex-governador de São Paulo e candidato do então poderoso PMDB, teve só 4,4% dos votos no 1º turno.
A eleição de 1994 também marcou o início da polarização entre PT e PSDB, que perdurou até a disputa de 2014.
ELEIÇÃO DE 1998
Essa foi a 1ª disputa depois de ter sido aprovada a possibilidade de reeleição. FHC venceu no 1º turno novamente. Lula ficou mais uma vez na 2ª posição.
Ciro Gomes (PPS, à época) disputou sua 1ª eleição presidencial. Terminou em 3º lugar, mais de 20 pontos atrás de Lula:
ELEIÇÃO DE 2002
Foi o pleito que marcou a chegada do PT à Presidência. Lula venceu os 1º e 2º turnos. Derrotou José Serra (PSDB). O 3º colocado naquele ano foi Anthony Garotinho (PSB, à época).
Depois de Brizola, Garotinho foi o 3º colocado que mais chegou perto de ir ao 2º turno. Ainda assim, ficou mais de 5 pontos atrás de Serra.
O candidato do PSB era uma personalidade controversa da política. Atuava mais como um líder popular com discurso às vezes pró-esquerda. Não emulava o espírito de 3ª via que alguns partidos tentam hoje.
ELEIÇÕES 2006
Lula ficou em 1º lugar no 1º turno mesmo depois de forte desgaste por causa do Mensalão, caso revelado no ano anterior. Disputou o 2º turno com Geraldo Alckmin (PSDB). O petista se saiu vitorioso no fim e foi reeleito.
O 3º lugar naquela época ficou com Heloísa Helena, do Psol. O partido socialista disputou em 2006 sua 1ª eleição presidencial e teve seu melhor desempenho até agora. Ela, no entanto, ficou 34,79 pontos percentuais atrás de Alckmin.
ELEIÇÃO DE 2010
A disputa teve Dilma Rousseff (PT) como vencedora. Ela havia sido indicada por Lula para sua sucessão. Era apresentada como a “mãe do PAC”, o programa de aceleração do crescimento (um conjunto de obras com forte injeção de dinheiro público).
Lula tinha cerca de 80% de aprovação em seu último ano de mandato e a impressão que se tinha quando se olha para aquela época era a de que o petista teria conseguido eleger qualquer político que quisesse ter indicado.
O tucano José Serra (PSDB) até foi ao 2º turno, mas terminou derrotado. A 3ª colocada naquele pleito foi Marina Silva (PV, à época), também de esquerda, que terminou 13,28 pontos percentuais atrás do 2º colocado.
ELEIÇÃO DE 2014
Foi o pleito em que Dilma Rousseff (PT) se reelegeu, apesar de estar fragilizada por causa dos protestos contra seu governo com reivindicações diversas que haviam sido realizados no ano anterior.
Seu principal adversário foi Aécio Neves (PSDB), que chegou a ir ao 2º turno, mas terminou derrotado.
Marina Silva (PSB, à época) ficou em 3º lugar novamente naquela disputa. Era originalmente candidata a vice-presidente, mas assumiu a cabeça da chapa de Eduardo Campos (PSB) quando o político morreu em um acidente aéreo cerca de 2 meses antes da eleição.
A comoção com a morte trágica do ex-governador pernambucano alavancou a candidatura de Marina, que disparou nas pesquisas pouco depois do episódio e chegou a empatar com Dilma nos levantamentos mais relevantes. Depois, perdeu tração, mas conseguiu manter a confiança de cerca de 1/5 do eleitorado até o dia da votação. Mesmo assim, ficou 12,23 pontos atrás do 2º colocado:
ELEIÇÃO DE 2018
A disputa daquele ano foi mais uma fortemente polarizada entre direita e esquerda.
Jair Bolsonaro (PSL à época) derrotou no 2º turno Fernando Haddad (PT), que assumiu a candidatura à Presidência depois de Lula ser formalmente barrado da disputa pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O ex-presidente estava preso por condenações na operação Lava Jato. Havia sido enquadrado na Lei da Ficha Limpa.
Bolsonaro soube usar as redes sociais a seu favor. Aproveitou-se também do início do processo de derrocada do PSDB, que não se renovou e ficou incapaz de manter um discurso antipetista convincente para parte da sociedade.
Ciro Gomes ficou em 3º lugar naquele pleito, 16,81 pontos atrás de Haddad. Tentou se apresentar como uma opção à polarização, mas não chegou nem perto de ir ao 2º turno.
ELEIÇÃO DE 2022
Jair Bolsonaro chegou à disputa fragilizado pelos impactos da pandemia de covid-19 na economia e no comportamento social.
O então presidente havia feito vários comentários considerados insensíveis durante a crise sanitária (como quando imitou uma pessoa com falta de ar). Acabou sendo o principal alvo de quase todos os candidatos daquele pleito por causa desse comportamento. Até chegou ao 2º turno, mas perdeu para Lula por uma diferença de só cerca de 2 milhões de votos. Tornou-se o 1º presidente a não conseguir a reeleição.
Lula conseguiu um inédito 3º mandato pelo voto direto. Tornou-se o político mais velho a tomar posse para comandar o Planalto (tinha 77 anos, hoje tem 80).
Simone Tebet (MDB à época) ficou em 3º lugar, mas 39,04 pontos percentuais atrás de Bolsonaro. Ciro Gomes (PDT, à época) ficou em 4º lugar, com 3,04% dos votos válidos. Foi mais uma eleição sem uma 3ª via competitiva.
ELEIÇÃO 2026
O 1º turno será em 4 de outubro.
Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) estão à frente das últimas pesquisas de intenção de voto. Em simulações de 2º turno, há empate entre os 2 na maioria dos levantamentos mais sérios.
O cenário de hoje afasta a possibilidade de uma 3ª via competitiva. O PSD, partido mais ao centro do espectro político, ainda decide quem vai lançar para concorrer ao Planalto: se será Ronaldo Caiado (governador de Goiás) ou Eduardo Leite (governador do Rio Grande do Sul). A tendência é que Caiado seja o escolhido.
O governador de Goiás é conhecido por ser mais linha dura em questões como segurança e nos chamados temas de “costumes” –que envolvem aborto e liberação das drogas. Alinhou-se de forma mais intensa nos últimos anos a políticos de direita.
A leitura que alguns analistas têm hoje é que Caiado pode dividir votos desse campo político com Flávio e que talvez a disputa até lembre um pouco o que aconteceu em 1989. Naquele ano, 1 candidato de direita ficou em 1º lugar e 2 de esquerda disputaram a 2ª colocação. Neste ano, esse cenário poderia ser ao contrário: 1 de esquerda em 1º e 2 de direita tentando chegar ao 2º turno.
O senador filho de Jair Bolsonaro é um candidato ainda não muito conhecido. No período de campanha, a tendência é que Lula, as esquerdas e até alguns partidos mais ao centro concentrem a artilharia nele.
O levantamento AtlasIntel realizado de 18 a 23 de março e divulgado na 4ª feira (25.mar) mostra que, por enquanto, a polarização esquerda-direita segue predominante:
A pesquisa fez 5.028 entrevistas. O intervalo de confiança é de 95%. A margem de erro é de 1 ponto percentual, para mais ou para menos. O levantamento está registrado no TSE sob o nº BR-04227/2026. A pesquisa custou R$ 75.000 e foi paga com recursos próprios.
Não há nenhum sinal de que um candidato de 3ª via possa emplacar num futuro próximo. O padrão das eleições passadas reforça essa direção para a disputa deste ano.
Um nome de centro que se opõe à polarização parece ser algo ainda a ser construído no Brasil. Enquanto isso, a polarização fica cada vez mais sólida.
Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/nenhuma-3a-via-deu-certo-em-9-eleicoes-para-presidente/