Crédito antecipado em 2025 evitou rompimento de contratos do Prosub com o Naval Group, mas orçamento segue pressionado; conclusão do projeto é prevista para 2037
O desenvolvimento do 1º submarino brasileiro movido a energia nuclear corre o risco de ser parcialmente suspenso em breve caso o programa não receba um aporte adicional de cerca de R$ 1 bilhão em 2026. É o que diz a Marinha do Brasil. O valor é considerado mínimo pela força para manter o ritmo atual do Prosub (Programa de Desenvolvimento de Submarinos), responsável pela construção do submarino nuclear brasileiro Álvaro Alberto.
Sem o reforço orçamentário, áreas críticas do projeto podem ser paralisadas, o que atrasaria ainda mais o cronograma do projeto –com conclusão estimada para 2037– e colocaria em risco a manutenção de equipes altamente especializadas que atuam no Complexo Naval de Itaguaí e no Labgene, onde é desenvolvido o sistema de propulsão nuclear da embarcação.
A pressão por recursos se dá em um momento em que o tema da Defesa voltou ao centro do debate no governo. Na 2ª feira (9.mar.2026), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o Brasil precisa reforçar sua capacidade militar, sob o risco de “alguém invadir” o país. No Palácio do Planalto, a discussão sobre financiamento de longo prazo para as Forças Armadas ganhou força depois da captura do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro, durante uma operação militar dos Estados Unidos.
A avaliação interna é que o ambiente regional mais instável reduziu o espaço político para adiar decisões sobre modernização e capacidade de dissuasão.
Marinha do Brasil – 24.mar.2024
Submarino Tonelero (S-42) é lançado ao mar, no Complexo Naval de Itaguaí (RJ), em 2024
Nesse contexto, os comandantes das 3 Forças Armadas apresentaram a Lula um plano de investimentos de cerca de R$ 800 bilhões ao longo de 15 anos para reequipar a Defesa brasileira. Entre os projetos considerados estratégicos está o submarino de propulsão nuclear da Marinha, visto como peça central para a estratégia de negação de uso do mar –conceito militar que busca impedir que forças superiores utilizem áreas marítimas cruciais.
Como parte do Prosub, o Brasil já desenvolveu 4 submarinos convencionais:
2 estão operacionais – Riachuelo e Humaitá;
2 em fase final de testes – Tonelero e Almirante Karam.
O salto para um modelo movido a energia nuclear ampliaria significativamente as capacidades da frota, ao permitir longos períodos de operação submersa, maior velocidade e autonomia praticamente ilimitada. Diferentemente dos submarinos convencionais, a embarcação a propulsão nuclear também pode produzir seu próprio oxigênio e água potável, reduzindo a necessidade de emergir e aumentando sua capacidade de patrulhar áreas estratégicas do litoral brasileiro.
O Poder360 apurou que, em dezembro de 2025, o programa recebeu R$ 1 bilhão antecipado de um crédito suplementar autorizado pela Lei Complementar 221 de 2025. O valor integra o pacote de R$ 30 bilhões destinado às Forças Armadas, aprovado fora do arcabouço fiscal, e foi usado para evitar o cancelamento de contratos com o grupo francês Naval Group, parceiro do Brasil na transferência de tecnologia do programa.
O pacote estabelece repasses anuais de R$ 5 bilhões para o Ministério da Defesa até 2031. Na 1ª parcela, a Marinha ficou com a maior fatia entre as 3 Forças Armadas: R$ 1,89 bilhão (37,8% do total), segundo dados do MD. O valor supera os recursos destinados à Aeronáutica, com R$ 1,59 bilhão (31,8%), e ao Exército, com R$ 1,18 bilhão (23,7%).
PREJUÍZO EM CASCATA
Apesar de liderar a distribuição do orçamento, parte desses recursos já foi consumida antecipadamente. Com o adiantamento de R$ 1 bilhão, restam cerca de R$ 890 milhões disponíveis para todo o exercício de 2026 dentro desse mecanismo de financiamento.
Assim, segundo a Marinha, o quadro financeiro do programa continua pressionado e o risco de paralisação parcial é considerado real caso o orçamento não seja reforçado.
Na prática, a restrição de recursos pode obrigar a Força a fazer uma escolha difícil entre partes fundamentais do programa. A prioridade natural tende a recair sobre o Labgene (Laboratório de Geração Nucleoelétrica), instalado no Centro Experimental Aramar (CEA), em Iperó (SP), onde é desenvolvido o protótipo em terra do reator que equipará o submarino.
O laboratório é considerado o núcleo tecnológico do projeto. Todos os 6 países que dominam a propulsão nuclear naval –Estados Unidos, França, Rússia, Reino Unido, China e Índia– realizaram testes extensivos em reatores terrestres antes de instalá-los em submarinos operacionais.
COGESN/ Marinha do Brasil – 14.abr.2023
Submarino Riachuelo (S40) navega em águas brasileiras antes de submergir, em abril de 2023
Sem o aporte adicional, porém, a continuidade das atividades no Labgene pode significar a desaceleração ou mesmo a paralisação total de obras de infraestrutura em Itaguaí (RJ), onde estão sendo preparadas as instalações nucleares de apoio ao submarino. Entre elas está um dique seco de requisitos especiais, indispensável para o carregamento do combustível nuclear na embarcação.
Essa interrupção levaria a um prejuízo financeiro em cascata. Como as obras são executadas pela Novonor (antiga Odebrecht), a paralisação forçaria a Marinha a arcar com os custos de desmobilização do canteiro, que envolvem o desmonte de uma fábrica de concreto e a devolução de máquinas pesadas. Uma futura retomada exigiria pagar novamente por toda essa montagem estrutural.
PERDA DE MÃO DE OBRA ESPECIALIZADA
O crédito suplementar de R$ 1 bilhão, antecipado em dezembro de 2025, foi essencial para honrar o down payment (pagamento antecipado) de contratos internacionais que, se não fossem quitados, exigiriam renegociações com custos elevados.
Documentos revelam que, apenas em junho de 2025, a Marinha firmou 2 grandes acordos com o francês Naval Group: um de 246,3 milhões de euros para a montagem eletromecânica do Prédio Auxiliar Controlado do Labgene, e outro de 282,1 milhões de euros voltado à consultoria técnica de sistemas adicionais do submarino de propulsão nuclear.
Esses contratos internacionais de transferência de tecnologia somam-se a movimentos internos de consolidação técnica. No final de 2024, a Marinha formalizou o Convênio nº 42000/2024-002/00, no valor de R$ 49.467.947,38, com a Fundação Pátria. Com vigência de 60 meses, o acordo foca no suporte técnico para desenvolver, fabricar e montar os componentes internos do reator da Planta Nuclear Embarcada, em Aramar.
A viabilidade do cronograma também depende da aquisição de materiais estratégicos de longo ciclo de produção. As chapas de aço especial para o casco resistente, por exemplo, levam cerca de 20 meses entre a encomenda e a chegada ao Brasil, com previsão de entrega só para o início de 2027.
2SG MR Cassiano/ Marinha do Brasil – 8.mar.2023
O submarino Humaitá (S41) submerge no litoral fluminense, em março de 2023
Além do risco material, uma eventual paralisação preocupa os militares pela possível perda de capital humano especializado. O desenvolvimento mobiliza uma rede de engenheiros e físicos nucleares cujas competências, que se dispersas para o mercado offshore por falta de pagamento, levariam anos para serem reconstruídas.
Diante desse cenário, a Marinha considera o aporte adicional de R$ 1 bilhão para 2026 como o mínimo para evitar interrupções imediatas, embora o nível sustentável de investimentos seja estimado de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões anuais.
GOVERNANÇA INTERMINISTERIAL
A discussão sobre financiamento também reabriu dentro da Marinha um debate sobre o modelo de governança do Prosub.
Comandantes defendem que o programa passe a ter participação de diferentes áreas do governo, como os ministérios de Minas e Energia, Ciência, Tecnologia e Inovação, e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Hoje, a maior parte dos recursos do programa vem diretamente do orçamento da Defesa, que enfrenta um histórico de reduções e disputa interna entre diversos projetos estratégicos das 3 Forças. Na avaliação de oficiais da Marinha, essa estrutura torna o financiamento do submarino nuclear mais vulnerável a contingenciamentos e oscilações fiscais.
Oficiais da Marinha afirmam também que um arranjo institucional desse tipo poderia ampliar a base de financiamento e refletir melhor o caráter estratégico do programa, que envolve não apenas defesa, mas também desenvolvimento tecnológico e domínio do ciclo do combustível nuclear.
A construção do submarino nuclear brasileiro é resultado de um esforço iniciado ainda nos anos 1970, quando a Marinha passou a investir no domínio do ciclo do combustível nuclear. O projeto, no entanto, ganhou nova dimensão a partir de 2008, com o lançamento do Prosub em parceria com a França.