Presidente tenta evitar fragmentação da base em regiões estratégicas; conflitos envolvem definições para o Senado e aliados que disputam o mesmo palanque
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta disputas entre aliados em ao menos 7 dos 9 Estados do Nordeste —região que foi decisiva para sua vitória em 2022. O principal desafio não é a oposição, mas a fragmentação da própria base, que disputa vagas ao Senado, sucessões estaduais e protagonismo nos palanques locais.
Em alguns Estados, a base de Lula tem mais pré-candidatos ao Senado do que vagas disponíveis —como é o caso do Ceará, onde ao menos 6 aliados disputam duas cadeiras, e da Paraíba, onde nomes do PSB, MDB e PP pleiteiam espaço na chapa.
Como cada Estado elegerá 2 senadores em 2026, o presidente terá de arbitrar disputas entre partidos que hoje integram sua coalizão, como PT, PSD, MDB e PSB, muitos deles com ministros ou líderes estratégicos no Congresso.
Em outros casos, o impasse envolve rompimentos e rivalidades locais. No Maranhão, por exemplo, o racha entre o governador Carlos Brandão (PSB) e o ex-governador e ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino fragmentou a base lulista e abriu espaço para o crescimento da oposição. Em Pernambuco, o apoio do presidente é disputado pela governadora Raquel Lyra (PSD) e pelo prefeito do Recife, João Campos (PSB), ambos aliados de Lula, mas adversários entre si.
O risco para o presidente é sair do processo com palanques divididos, ressentimentos entre partidos da coalizão e menor coordenação eleitoral em uma região em que historicamente é bem votado e que ajudou a consolidar sua vitória em 2022. Uma fragmentação prolongada pode reduzir a mobilização da base e enfraquecer a hegemonia política do PT no Nordeste.
BAHIA: PT ESTUDA CHAPA PURA
O governador Jerônimo Rodrigues (PT) está no 1º mandato e busca a reeleição. O PT da Bahia avalia lançar uma chapa “puro-sangue”, o que retiraria o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) do posto de vice, atualmente ocupado por Geraldo Júnior.
A chapa pura também deixaria de fora o PSD (Partido Social Democrático). Além de não ocupar a vaga de vice, o partido também ficaria fora da disputa ao Senado.
Para a Casa Alta, Lula deve apoiar as reeleições do ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), e do senador Jaques Wagner (PT), líder do governo no Senado.
No Estado, o PSD é presidido pelo senador Otto Alencar (PSD-BA). Aliado de Lula, ele já sinalizou que o partido na Bahia apoiará a reeleição do presidente independentemente da chapa ao Senado.
No plano nacional, o PSD tem 3 pré-candidatos à Presidência: o governador Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul; Ratinho Jr., do Paraná; e Ronaldo Caiado, de Goiás.
O presidente do PSD Nacional é o secretário de Governo e Relações Institucionais de São Paulo, Gilberto Kassab, que já chegou a defender uma 3ª via a Lula e Flávio Bolsonaro.
CHAPA DO SENADO NO CEARÁ
A disputa pelo governo cearense envolve o atual governador Elmano de Freitas (PT) e o ex-aliado de Lula, Ciro Gomes (PDT). A oposição articula uma candidatura unificada e o bloco da base precisa definir 2 nomes ao Senado.
Dos atuais senadores, 2 podem disputar a reeleição: Eduardo Girão (Novo) e Cid Gomes (PSB). A senadora Augusta Brito (PT) está em meio de mandato. Girão, no entanto, é pré-candidato ao governo e Cid sinalizou não ter intenções de concorrer ao Senado.
Cid é irmão de Ciro, mas os 2 romperam. Assim, o senador deve apoiar a reeleição de Elmano.
Na base de Lula, há ao menos 6 nomes cotados para concorrer às duas vagas na Casa Alta. São eles:
deputado federal Junior Mano (PSB);
presidente do Republicanos no Ceará, Chiquinho Feitosa;
deputado federal e ex-presidente do Senado Eunício Oliveira (MDB);
deputado federal José Guimarães (PT);
deputada federal Luizianne Lins (PT);
chefe da Casa Civil estadual, Chagas Vieira.
O Psol (Partido Socialismo e Liberdade) e a Rede Sustentabilidade sinalizaram acolher Luizianne Lins caso não haja espaço para ela em uma chapa do PT. Entre os partidos da base de Elmano estão: PT, PV, PCdoB, PSB, PSD, MDB, PP, Republicanos, PRD e Solidariedade.
MARANHÃO: BRANDÃO E DINO
O racha no Estado é entre o governador Carlos Brandão (PSB) e Flávio Dino, ex-governador do Estado e ministro do STF (Supremo Tribunal Federal).
Brandão foi vice de Dino por 2 mandatos e foi eleito governador com apoio do ministro. Os 2 romperam em agosto de 2025 e o governador articula lançar o sobrinho Orleans Brandão (MDB) como sucessor do governo estadual.
Dino já demonstrou apoio ao vice-governador Felipe Camarão (PT). Brandão também rompeu com o petista e deve ficar no governo até dezembro para não passar o cargo ao adversário.
A base aliada de Lula no Estado teme que a fragmentação ajude a oposição, como na eleição de Rogério Marinho (PL) em 2022. Há preocupação com o crescimento nas pesquisas do ex-prefeito Lahesio Bonfim (Novo) para o governo.
PARAÍBA: RIBEIRO E LUCENA
O governador João Azevêdo (PSB) disputará uma vaga ao Senado e deve deixar o cargo até abril. O vice, Lucas Ribeiro (PP), é o nome da base para a sucessão.
Lucas é filho da senadora Daniella Ribeiro e sobrinho do deputado federal Aguinaldo Ribeiro. É aliado do presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Por outro lado, o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, era da base de Azevêdo, mas saiu do PP para o MDB. Ele também deve ser candidato ao governo da Paraíba. Lucena, assim como Ribeiro, apoia Lula.
A composição do Senado passa pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
As duas vagas da base seriam de Azevêdo e do prefeito de Patos, Nabor Wanderley (PP), pai de Motta.
Porém, do lado do MDB, o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB) tentará a reeleição e também apoia o petista.
PERNAMBUCO: CAMPOS E LYRA
O apoio de Lula é disputado pela governadora Raquel Lyra (PSD) e pelo prefeito do Recife, João Campos (PSB). Ambos devem concorrer ao governo e dividiram a atenção de Lula durante o Carnaval.
Lyra é do PSD, de Gilberto Kassab, e Campos preside o PSB Nacional. Ambos são da base de Lula e esperam apoio do presidente nos palanques da campanha.
MULHERES NO RN
A governadora reeleita do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), quer voltar ao Senado. A outra vaga da base seria de Zenaide Maia (PSD), senadora e vice-líder do governo Lula na Casa Alta.
Zenaide distanciou-se do PT e de Bezerra após o partido ter lançado candidatura própria em São Gonçalo do Amarante (RN) contra o atual prefeito Jaime Calado (PSD), marido da senadora.
Pesquisas de intenção de voto indicam que a liderança nas vagas ao Senado está com Capitão Styvenson (PSDB). Por competirem pela mesma vaga, uma aliança entre Bezerra e Maia, como a que ocorreu em 2022, se torna menos provável.
Outro possível postulante ao Senado é o vice-governador, Walter Alves (MDB). Se Bezerra e Alves saírem em abril para concorrer, haverá eleição indireta na Assembleia Legislativa. Fátima apoia o secretário da Fazenda, Cadu Xavier (PT), para o mandato tampão.
SERGIPE: CARVALHO E MITIDIERI
O governador Fábio Mitidieri (PSD) apoiará a reeleição de Lula e já comunicou a decisão a Kassab. Ele é próximo do ex-ministro da Secretaria-Geral, Márcio Macedo (PT).
Apoio a Lula vem mesmo com resistência de Mitidieri a Rogério Carvalho (PT), atual líder do PT no Senado e candidato à reeleição. O presidente do PT em Sergipe concorreu contra Mitidieri em 2022.
Carvalho ainda não se posicionou a favor do governador, mas teve uma conversa com ele em 9 de fevereiro.
Para o Senado, Mitidieri deve apoiar o ex-deputado André Moura (União) e o senador Alessandro Vieira (MDB). Embora estejam na mesma chapa, são rivais políticos.
CENÁRIOS CONTROLADOS EM AL E PI
Alagoas: o senador Renan Calheiros (MDB) deve tentar a reeleição contra a chapa do deputado Arthur Lira (PP). O ministro Renan Filho (MDB) disputará o governo. Na oposição, Lira apoia o prefeito de Maceió, JHC (PL). A disputa ainda não foi iniciada oficialmente, pois JHC não confirmou sua pré-candidatura.
Piauí: O PT fechou chapa ao Senado com Marcelo Castro (MDB) e o deputado Júlio César (PSD). O acordo isola Ciro Nogueira (PP). O governador Rafael Fonteles (PT) buscará a reeleição.
Reportagem realizada pela trainee em jornalismo do Poder360 Ludmyla Barros, sob supervisão da editora sênior Mariana Haubert.