Investigação de centros de dados se torna área de pesquisa à parte

Três jornalistas lançam nova luz sobre os armazéns sem janelas que impulsionam uma revolução tecnológica

Por Andrew Deck e Neel Dhanesha

Os data centers têm sido a base da internet como a conhecemos, mas o boom da IA ​​generativa inaugurou uma nova era de desenvolvimento rápido e praticamente sem controle. Espera-se que Microsoft, Google, Amazon e Meta, juntas, invistam mais de US$ 700 bilhões em despesas de capital em 2026, um aumento de 60% em relação a 2025. Grande parte desse dinheiro será direcionada para o armazenamento de chips especializados e para a construção de novos e enormes data centers nos EUA e em todo o mundo.

Muitos dos antigos centros de dados empalidecem em comparação com as novas instalações focadas em IA, algumas das quais têm o tamanho de campi universitários. O rápido desenvolvimento inspirou um novo termo para as gigantes da tecnologia que os constroem: hiperescaladores.

Para os jornalistas, este momento de investimentos desenfreados e aquisição agressiva de terras rurais por empresas de tecnologia representa uma oportunidade –e uma responsabilidade– de investigar. Os centros de dados impulsionam as mudanças climáticas ao queimar combustíveis fósseis, consumir grandes quantidades de eletricidade e exigir até 5 milhões de galões de água por dia para abastecer os sistemas de refrigeração. Pesquisas mostram que essas instalações podem prejudicar a saúde dos moradores locais por meio da poluição sonora e do ar, além de oferecerem um estímulo mínimo à geração de empregos a longo prazo. Apesar dos subsídios dos governos nacional e local, muitos centros de dados propostos têm sido criticados por ocultarem os impactos projetados nas comunidades locais sob o pretexto de “segredos comerciais”.

“Se você é jornalista de tecnologia, pode entrar. Se você é jornalista de clima, também pode entrar. Se você cobre negócios ou energia, ou se é um jornalista bem local, há uma matéria para você”, disse Laís Martins , jornalista investigativa do Intercept Brasil, que publicou uma série de reportagens importantes sobre data centers no Brasil no último ano. (Martins e Andrew Deck, do Nieman Lab, trabalharam juntos anteriormente como repórteres na publicação sem fins lucrativos “Rest of World”).

Jornalistas que se aventuram pela 1ª vez na cobertura de data centers podem achar o tema intimidantemente técnico e difícil de humanizar. Vistos de fora, esses espaços podem parecer só armazéns sem janelas repletos de máquinas barulhentas. Mas grandes investigações realizadas no último ano mostraram como histórias reais e estratégias inovadoras de reportagem estão surgindo no universo dos data centers.

“É realmente importante tentar fazer com que os leitores compreendam a dimensão do problema.”

Quando Hannah Beckler e sua equipe do Business Insider começaram a investigar data centers para o que se tornaria uma série premiada com o George Polk Award sobre seus impactos nas redes elétricas, no abastecimento de água e nas comunidades em todo o país, esses centros ainda eram relativamente desconhecidos. “[Estávamos] tentando entender o que são essencialmente prédios gigantescos e vibrantes”, disse Beckler, correspondente do Business Insider. “Como podemos despertar o interesse das pessoas e fazê-las entender por que é tão importante monitorá-los do ponto de vista da responsabilidade e da regulamentação?”

Para começar, eles precisavam de uma estrutura para mapear e rastrear data centers, e a equipe teve seu 1º grande avanço quando uma fonte na Virgínia disse à repórter Ellen Thomas para investigar as licenças ambientais, necessárias para que os data centers usassem geradores de reserva. Da mesma forma, as licenças de água –que permitem que os data centers desviem água para resfriar seus racks de servidores extremamente quentes –fornecem uma ideia de quanta água eles estão usando. Mas obter essas licenças exigiu horas de trabalho.

“Submetemos, creio eu, 103 pedidos diferentes de acesso a registros públicos [para licenças de emissão de poluentes atmosféricos]”, disse Beckler. Alguns estados possuem distritos de qualidade do ar com suas próprias pequenas agências que supervisionam as licenças, e a equipe teve que enviar solicitações a cada um desses distritos, em vez de as agências ambientais estaduais. “O licenciamento de água é ainda mais fragmentado”, disse ela. É especialmente complicado nos estados do oeste norte-americano, onde a água é escassa, mas há muita terra disponível para desenvolvimento. Estados como o Arizona, por exemplo, viram um desenvolvimento massivo de data centers. “Há todos esses minúsculos órgãos reguladores e operadores. Então, foram centenas de solicitações individuais para essas pequenas agências, e várias vezes elas haviam sido privatizadas, então, de repente, não havia mais nenhuma informação pública sobre o funcionamento delas.”

Os repórteres enfrentaram forte resistência em relação aos seus pedidos de acesso a registros. Duas empresas de serviços de água no Colorado pediram a um juiz que negasse os pedidos –a 1ª vez que Beckler viu uma agência tomar medidas legais desse tipo– e a equipe jurídica do Business Insider foi obrigada a responder para evitar uma sentença à revelia que poderia criar um precedente prejudicial para pedidos futuros. Depois que todos os pedidos foram atendidos (às vezes a equipe precisava enviar pedidos adicionais para verificar as informações), os jornalistas tiveram que descobrir quais grandes empresas de tecnologia estavam por trás de quais data centers; as licenças geralmente eram emitidas para empresas de fachada obscuras com nomes como “Greater Kudu LLC” ou “Magellan Enterprises LLC”.

Ao longo do processo, Beckler e sua equipe perceberam que dados federais, como um conjunto de dados da EPA sobre justiça ambiental, estavam desaparecendo à medida que o governo Trump removia registros de sites públicos. “Eu consegui esses dados 24 horas antes de eles desaparecerem”, disse Beckler.

Usando os dados dos pedidos de acesso à informação, Beckler e sua equipe criaram um mapa de centros de dados em todo o país. Eles enviaram repórteres à Virgínia, Geórgia, Arizona e Ohio para conversar com moradores de comunidades que estavam passando por um desenvolvimento explosivo de centros de dados. Como repórteres nacionais, seu foco era encontrar locais que fossem emblemáticos do problema maior; no condado de Maricopa, no Arizona, por exemplo, eles encontraram centros de dados sendo construídos em uma das regiões com maior escassez hídrica do país –um local onde construtoras e agricultores já haviam interrompido projetos por causa da falta de água.

“É muito importante que os leitores consigam entender a escala”, disse Beckler. “Uma coisa é usar generalizações amplas, que podem ser impactantes, mas ter algo específico para comparar [é fundamental].” Eles descobriram que os data centers em todo o país consomem uma quantidade de eletricidade equivalente à que todo o estado de Ohio consumiu em 2023, e que 322 deles são responsáveis ​​por 80% do consumo de energia. “Essa é uma transformação geracional”, afirmou ela.

Quando a equipe do Business Insider finalmente publicou sua série no verão passado, inicialmente não divulgou o mapa dos data centers. Mas um documentário em vídeo que acompanhava a investigação viralizou (com cerca de 5,4 milhões de visualizações no YouTube até o momento da publicação) e Beckler começou a receber pedidos de leitores pelo mapa. Então, ela convenceu seus editores a criar um mapa interativo como um serviço jornalístico, para que os leitores pudessem encontrar o data center mais próximo. “Isso realmente despertou a curiosidade de muitos leitores imediatamente”, disse Beckler. “As pessoas se importam porque isso impacta suas comunidades.”

“É importante que mudemos nosso vocabulário visual em relação aos centros de dados.”

Os centros de dados não são muito interessantes de se ver. Muitos deles ficam escondidos atrás de cercas e árvores, o que dificulta a visualização a partir do solo, mas também tendem a ser armazéns sem graça que revelam pouco do que é realizado lá dentro.

Evan Simon queria mudar isso. Então, ele alugou um drone com câmera térmica.

“É importante mudarmos nossa linguagem visual em relação aos data centers”, disse Simon, produtor da Floodlight, uma organização sem fins lucrativos de investigação climática. “As imagens térmicas oferecem uma maneira única de observar essas instalações. Elas não são só armazéns vazios sem janelas. Ao ativar a imagem térmica, é possível ver a energia pulsando por meio delas, e acredito que isso nos ajuda a enxergar essas estruturas pelo que realmente são. As pessoas não se dão conta de que elas estão se tornando, literalmente, usinas de combustíveis fósseis.”

Simon analisou especificamente um projeto de data center no Mississippi, onde a xAI de Elon Musk instalou um data center com sua própria usina de energia a gás –o que é conhecido como um projeto “atrás do medidor”, que não se conecta à rede elétrica convencional. Esse tipo de projeto está se tornando mais comum nos Estados Unidos, à medida que os data centers crescem mais rápido do que as empresas de energia locais conseguem acompanhar, e 75% deles são alimentados por gás natural.

Por meio de notícias locais, Simon sabia que os moradores da região reclamavam do barulho e da poluição da usina a gás, que não tinha licença e operava ilegalmente. Mas, por causa das cercas e das árvores que a cercavam, ninguém tinha visto a usina.

“Sempre me interessei por usar novas ferramentas de reportagem, especialmente aquelas que podem ajudar a visualizar ameaças ambientais de maneiras convincentes e únicas”, disse Simon. Inspirado por uma investigação do Southern Environmental Law Center sobre uma usina semelhante no sul de Memphis, ele optou pela termografia, que poderia comprovar se as turbinas da usina estavam funcionando ou não –caso estivessem, emitiriam uma intensa assinatura térmica.

Simon passou meses se preparando. Para começar, ele precisava obter sua licença de operador de drones. Mas o drone era só uma parte de seu arsenal, que também incluía métodos padrão de reportagem, como conversar com moradores que vinham documentando as turbinas a gás. Ele também precisava encontrar um local para operar o drone; embora pudesse ter estacionado legalmente na rua em frente ao complexo de turbinas e operado o drone dali, ele não queria correr o risco de se deparar com a segurança. Em vez disso, ele entrou em contato com uma proprietária de um imóvel particular cuja casa ficava tão perto das turbinas que ela havia se mudado para outra parte da cidade.

O que Simon viu foi impressionante. “Assim que levantei o drone térmico acima da linha das árvores, pude ver várias chaminés enormes emitindo fortes assinaturas de calor que pareciam velas gigantes acesas”, disse ele. Embora os moradores já ouvissem as turbinas há meses, as imagens de Simon foram a 1ª vez que as viram.

“Muitas pessoas nem imaginavam que isso estava acontecendo”, disse Simon. “Então, quando essas imagens começaram a circular na comunidade, houve uma reação real e palpável, do tipo ‘ah, é isso que está acontecendo bem aqui, no nosso quintal’.”

A investigação resultante, publicada em parceria pela Floodlight e pelo The Guardian, foi uma das primeiras reportagens a visualizar o consumo de energia de centros de dados para além de mapas e gráficos. Embora as imagens térmicas não ofereçam um panorama completo –elas mostram o calor, o que comprova o funcionamento das turbinas, mas não os poluentes reais que estão sendo emitidos–, a resposta tem sido extremamente positiva, e Simon pretende continuar explorando novas maneiras de visualizar o seu impacto.

“Uma história que recompensa a teimosia”

Embora muitas reportagens individuais sobre data centers sejam hiperlocais, o tema em si é inegavelmente global. Gigantes da tecnologia americanos e chineses estão se voltando para mercados fora da América do Norte e da Europa Ocidental em busca de terrenos mais baratos, custos operacionais mais baixos e maiores incentivos fiscais. Laís Martins, repórter do Intercept Brasil, inspira-se no trabalho de jornalistas de outras regiões para levar uma cobertura jornalística transparente aos seus leitores brasileiros.

Em particular, Martins reconhece a Rede de Responsabilização da IA ​​do Centro Pulitzer como um recurso valioso. A iniciativa incentiva a troca de conhecimento entre jornalistas que cobrem os impactos sociais da IA. As primeiras reportagens de Pablo Jiménez Arandia, que começou a investigar o desenvolvimento de data centers em 2024, serviram de modelo para Martins. Jiménez recentemente co-escreveu uma série de reportagens sobre os “mega” data centers construídos pela Amazon Web Services, Microsoft e Google na Espanha, Chile e México.

“Aprendi diferentes maneiras de tentar contornar as barreiras que governos e empresas privadas impõem”, disse Martins. “Isso basicamente confirmou minha impressão inicial, baseada em minhas reportagens, de que, em nosso contexto –o Sul Global–, as grandes empresas de tecnologia não usam seus próprios nomes. Elas usam empresas de fachada ou intermediários, o que torna a apuração ainda mais difícil.”

No início de março, Martins foi coautora de uma reportagem que detalhava como grandes empresas de tecnologia estão mascarando seus projetos de desenvolvimento de data centers no Brasil por meio de parcerias com empresas locais menos visíveis. O TikTok, por exemplo, direcionou secretamente um projeto de data center no Nordeste do Brasil por meio de uma empresa de energia eólica. No Estado de São Paulo, uma empresa de gestão esportiva serviu de fachada para uma proposta de projeto de data center secretamente apoiada pela Microsoft.

Mesmo quando os projetos chegam a comunidades a centenas de quilômetros de Brasília, o contato com fontes dentro do governo federal tem sido fundamental. Para sua 1ª publicação no TikTok, Martins buscou registros de reuniões públicas que mostravam o chefe de infraestrutura da empresa no Brasil reunido com autoridades federais de alto escalão. Ela então contatou as fontes governamentais presentes nos registros para confirmar que eles estavam discutindo uma proposta de data center que ela já havia identificado no estado do Ceará, no Nordeste.

Em dezembro, meses depois da reportagem do Intercept Brasil, o TikTok confirmou publicamente seu envolvimento no projeto. Nessa altura, um grupo indígena do Ceará já havia se mobilizado para se opor ao desenvolvimento do projeto em suas terras e apresentou uma denúncia formal às autoridades federais. Alguns líderes comunitários locais disseram que não sabiam o que eram data centers até que a notícia sobre o projeto do TikTok viesse à tona.

“Quando você consegue identificar a empresa por trás [do data center], a reportagem tem muito mais impacto”, disse Martins, comparando a repercussão com outras matérias que ela publicou, nas quais só mencionava desenvolvedores relativamente desconhecidos. Alguns leitores disseram a ela que desinstalaram o TikTok de seus celulares depois de a investigação. “Isso torna a história mais fácil de se identificar para as pessoas.”

O universo dos data centers é um terreno fértil, mas Martins aprendeu em 1ª mão que essas histórias raramente são simples.

“A cobertura jornalística de data centers é uma área que recompensa a persistência. Os avanços vieram de repórteres… que não desistiram ao 1º não”, disse ela. “No começo, você pensa: ‘Não tenho ideia do que estou fazendo’ –como se estivesse andando em um quarto escuro. Mas, com o tempo, as coisas começam a se encaixar e, quanto mais você aprende, melhor fica.”

Texto traduzido por Gustavo Caixeta. Leia o original em inglês.

O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.

Fonte: https://www.poder360.com.br/nieman/investigacao-de-centros-de-dados-se-torna-area-de-pesquisa-a-parte/

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