Chanceler iraniano declarou que os 2 países pensavam que conseguiriam mudar o regime e agora não parecem ter em mente desfecho realista para o conflito
O chanceler iraniano Abbas Araghchi afirmou, em entrevista transmitida pela PBS News na 3ª feira (9.mar.2026), que os Estados Unidos e Israel “fracassaram” em seu plano inicial em relação aos ataques contra o Irã e agora estão “sem rumo”.
Para Araghchi, os 2 países pensaram “que em 2 ou 3 dias poderiam mudar o regime e alcançar uma vitória limpa e rápida, mas fracassaram. E não acho que eles tenham em mente qualquer desfecho realista, porque há uma espécie de caos no que dizem e no que fazem”.
Na entrevista, o chanceler acusou os EUA e Israel de atacar o Irã “cegamente” e de ter conduzido ofensivas contra zonas residenciais, hospitais, escolas e infraestruturas. “Não vejo nenhum objetivo razoável sendo perseguido por eles. Eles falharam em alcançar seus objetivos no início. E, passados 10 dias, acho que estão sem rumo”, acrescentou.
CRISE NO PETRÓLEO
Questionado se o Irã busca pressionar seus inimigos por meio de ações que afetem o mercado global de petróleo, Araghchi respondeu que esse não é um plano do país.
“Não é nossa culpa. A produção e o transporte de petróleo reduziram o ritmo ou foram interrompidos não por nossa causa, mas por causa dos ataques e da agressão realizados por israelenses e norte-americanos contra nós. Eles tornaram a região inteira insegura”, afirmou.
O chanceler disse também que “os navios estão temerosos em atravessar o Estreito de Ormuz” por causa da insegurança provocada pelo conflito. E negou que o Irã tenha fechado o estreito.
Assista à entrevista na íntegra (12min44s):
No dia 5 de março, a IRGC (Guarda Revolucionária Islâmica) havia afirmado que o Estreito de Ormuz estava fechado a navios dos EUA, de Israel, da Europa e de outros aliados ocidentais.
A medida reforçou a percepção de que Teerã passou a usar o controle da passagem marítima como instrumento de retaliação militar e de pressão diplomática.
“Isso é o resultado da agressão que tornou toda a região insegura, instável e as consequências são enormes, não só para nós, mas para toda a região e para a comunidade internacional”, disse o chanceler.
NEGOCIAÇÕES “FORA DE QUESTÃO”
Araghchi afirmou também que todos aguardam as declarações e diretrizes que virão do sucessor de Ali Khamenei, líder supremo do Irã morto no 1º dia dos ataques norte-americanos e israelenses, em 28 de fevereiro.
Mojtaba Khamenei, filho de Khamenei, foi escolhido pela Assembleia de Peritos. O chanceler acrescentou, porém, que qualquer negociação com os norte-americanos está, provavelmente, fora de questão.
“Nós temos uma experiência muito amarga de conversar com os norte-americanos. Negociamos com eles em junho passado, e eles nos atacaram no meio das negociações. E novamente neste ano”, afirmou.
“Não acho que conversar com norte-americanos esteja em nossa agenda”, acrescentou.
ATAQUES AOS VIZINHOS
Araghchi afirmou que a guerra foi “imposta” ao Irã e que os ataques a países vizinhos seriam uma forma de autodefesa.
“Estamos enfrentando um ato de agressão que é absolutamente ilegal. E o que fazemos é um ato de autodefesa, que é legal e legítimo”, disse.
Desde o ataque de Israel e dos EUA, o Irã atacou ao menos 14 países na região, incluindo o Bahrein, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar.
“Nós alertamos todos na região que se os EUA nos atacassem, uma vez que não conseguimos atingir o solo norte-americano, que teríamos de atacar as bases deles na região”, declarou.
“Essas são as consequências da agressão dos EUA contra nós. Não somos responsáveis por isso”, disse, acrescentando que “diferentemente dos EUA”, os civis não são alvos preferenciais dos ataques iranianos, mas um “efeito colateral que, naturalmente, ocorre em qualquer guerra”.
ATAQUES AO IRÃ
Os EUA e Israel lançaram a operação militar conjunta contra o Irã em 28 de fevereiro. No anúncio do início da campanha militar, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano), afirmou que o objetivo era pôr fim ao programa nuclear do regime persa e atuar em defesa dos norte-americanos. Trump também disse que a “a hora da liberdade” dos iranianos estava próxima.
Mais tarde, Trump e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu (Likud, direita), confirmaram a morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, de 86 anos, em 1 dos ataques realizados na manhã de sábado (28.fev) em Teerã. Posteriormente, o governo iraniano corroborou a informação e decretou 40 dias de luto oficial.
ESCALADA NA TENSÃO
O ataque dos EUA ao Irã foi realizado depois de semanas de tensão entre os 2 países. Em 19 de fevereiro, Trump afirmou que, em até 10 dias, saberia se deveria dar “um passo adiante” em relação a um ataque contra o país persa.
Depois, o republicano declarou que todos, incluindo o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, Dan Caine, consideram que uma eventual guerra contra o Irã resultaria em uma “vitória fácil” dos norte-americanos.
No discurso do Estado da União, na 3ª feira (24.fev), Trump disse que os EUA ainda não tinham ouvido o Irã pronunciar “aquelas palavras mágicas: ‘nunca teremos uma arma nuclear’”. No pronunciamento, o presidente norte-americano afirmou que o regime persa “já desenvolveu mísseis que podem ameaçar a Europa e as nossas bases no exterior, e está trabalhando para construir mísseis que, em breve, chegarão aos EUA”.
As declarações de Trump foram feitas enquanto o país realizava conversas diplomáticas com o Irã, que não resultaram em acordo.
Uma autoridade sênior do Irã disse à Reuters que o país estaria disposto a fazer concessões aos EUA se os norte-americanos reconhecessem o seu direito de enriquecer urânio para fins pacíficos e suspendessem as sanções econômicas.
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