Estratégias de defesa de Israel e do Irã travam paz no Oriente Médio

Irã apoia “Eixo de Resistência”, enquanto Tel Aviv visa a impedir avanço atômico do país persa sob argumento dissuasão nuclear

As tensões entre Israel, Estados Unidos e Irã intensificam um efeito dominó no Oriente Médio. Os conflitos da região se conectam porque têm engrenagens e atores em comum. O cenário intensifica rivalidades históricas e religiosas e dificulta soluções diplomáticas isoladas. Uma guerra influencia a outra.

A região é marcada por guerras por procuração (proxy wars) — quando potências rivais apoiam lados opostos em conflitos locais para disputar influência sem entrar diretamente em guerra–, segundo disse Luiz Philipe de Oliveira, mestre e doutor em Direito Internacional pela USP (Universidade de São Paulo), ao Poder360. Muitos dos conflitos giram em torno do “Eixo de Resistência”, um grupo liderado pelo Irã e contrário a alianças pró-Ocidente.

O Eixo reúne organizações xiitas, como o Hezbollah no Líbano, a Resistência Islâmica, as Forças de Mobilização Popular no Iraque e os Houthis no Iêmen, além de sunitas como o Hamas. O Irã não tem controle total sobre os grupos, mas eles cooperam por interesses estratégicos comuns, sobretudo a oposição a Israel e à influência dos EUA na região.

O apoio iraniano a esses grupos inclui financiamento, armas, treinamento e coordenação estratégica por meio da Força Quds, unidade responsável pelas operações externas da Guarda Revolucionária.

As organizações sofrem perdas desde 2025, segundo Andrew Traumann, professor de Relações Internacionais da Unicuritiba (Centro Universitário Curitiba). Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, morreu em bombardeio israelense. Na Síria, Bashar al-Assad, aliado central do Irã e do Hezbollah, caiu em dezembro de 2024.

O cenário isola o Irã e as rivalidades atingem toda a região, segundo Oliveira.

O ataque do Hamas a Israel em 2023, por exemplo, serviu de incentivo moral para o Hezbollah ou os Houthis. “A economia global sente o efeito quando os Houthis, em solidariedade a Gaza, atacam navios no Mar Vermelho, provando que uma guerra em um enclave pode encarecer o custo de vida na Europa ou na Ásia”, declarou.

Outros conflitos interligados são:

Iémen: o Irã fornece mísseis e drones aos Houthis, grupo armado xiita. Esse financiamento fortalece a posição do Irã no Mar Vermelho, onde os rebeldes atacam embarcações. Os ataques, em solidariedade a Gaza, afetam a economia global ao encarecer o transporte no Mar Vermelho;
Iraque: maior força paramilitar apoiada pelo Irã. Ataques de Israel e EUA ao Irã resultam em retaliações dessas milícias contra bases norte-americanas e israelenses no Iraque e na Jordânia;
Azerbaijão: drones iranianos foram registrados no enclave de Nakhichevan. O país fornece petróleo e compra tecnologia militar de Israel. Para Oliveira, se o Irã for pressionado, pode abrir frentes de instabilidade ao norte e arrastar países como Turquia e Rússia;
Síria: A guerra civil na Síria, iniciada em 2011 após protestos contra o governo de Bashar al-Assad evoluírem para um conflito armado. O confronto fortaleceu o Hezbollah no Líbano, ampliou a influência iraniana até a fronteira com Israel e desestabilizou o Iraque, o que contribuiu para a ascensão e queda do Estado Islâmico.

A falta de canais democráticos e a existência de ditaduras fazem com que populações insatisfeitas sejam atraídas por grupos extremistas. Grupos religiosos oferecem alternativas fora do Estado formal, afirma Luiz Philipe de Oliveira.

TENSÕES NO ORIENTE MÉDIO

As guerras se intensificam pela questão religiosa. O Irã é persa e xiita, enquanto a maioria dos países do Golfo é árabe e sunita.

Oliveira afirma que a divisão religiosa foi agravada por “fronteiras artificiais” criadas em 1916, no Acordo Sykes–Picot. O tratado dividiu territórios do antigo Império Otomano entre potências europeias e deu origem a países com fronteiras que pouco consideravam divisões étnicas e religiosas. Isso forçou a convivência, em Estados como o Iraque, de grupos e povos com históricos de rivalidade e conflito.

Já as ligações entre os povos persas e judeus datam de milênios, mas se intensificaram em 1948, quando houve a criação do Estado de Israel, depois de décadas de imigração judaica à Palestina e da aprovação de um plano de partilha pela ONU (Organização das Nações Unidas) após a 2ª Guerra Mundial. O Irã foi contrário, mas reconheceu a decisão.

O ódio do Irã aos EUA ganhou força com a Revolução de 1979. Até então, os norte-americanos apoiavam a monarquia iraniana e teriam orquestrado a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh (1951–1953). Os revolucionários associaram a repressão do regime ao apoio dos EUA.

A tensão voltou a crescer nos anos 2000, quando vieram à tona instalações nucleares iranianas não declaradas. A revelação levou a investigações da Agência Internacional de Energia Atômica e aumentou a pressão internacional sobre o país, com suspeitas de que o programa nuclear poderia ter objetivos militares.

O ataque recente tem relação com o programa atômico do país. Segundo o professor, Israel, aliado dos Estados Unidos, quer continuar como o único país da região que possui bombas atômicas por motivos de autodefesa e para manter sua capacidade de dissuasão militar. Caso o Irã as obtenha, tudo muda.

“Israel ia pensar 2 vezes antes de bombardear o Líbano e Gaza, apesar de armas atômicas não serem feitas para ser usadas, mas para dissuasão”, declarou o professor.

“EFEITO DOMINÓ” DIFICULTA SOLUÇÃO

Todos esses fatores intensificam o “efeito dominó”. O professor Oliveira afirma ser “quase impossível” negociar uma paz isolada no Oriente Médio. 

“Um cessar-fogo em Gaza, por exemplo, depende de garantias no Líbano e de concessões em Teerã. Os mediadores não estão mais tentando apagar um incêndio em um quarto, mas em um prédio inteiro onde os cômodos estão interligados por vazamentos de gás”, diz.

As guerras por procuração transformam o Oriente Médio em um tabuleiro cujas questões locais — como a disputa por petróleo ou a questão palestina — são utilizadas por potências regionais e globais para reconfigurar o equilíbrio de poder.

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-internacional/estrategias-de-defesa-de-israel-e-do-ira-travam-paz-no-oriente-medio/

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