Ao todo, o país tem 706 delegacias especializadas da mulher para atender 104 milhões, segundo dados do Ligue 180
O Brasil tem, em média, menos de uma Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) para cada 100 mil mulheres. Entre as unidades da federação, o Distrito Federal apresenta a maior oferta proporcional, com 34 unidades –o equivalente a 2,31 por 100 mil mulheres. Já São Paulo, Estado mais populoso, concentra o maior número de unidades (137), mas a taxa de atendimento é de 0,60 por 100 mil mulheres.
Ao todo, incluindo o DF, só 8 unidades da federação contam com mais de uma delegacia ou posto policial para cada 100 mil mulheres. O Tocantins aparece em 2º lugar, com taxa de 1,72, seguido por Pernambuco, com 1,69.
O levantamento foi feito pelo Poder360 com base nos dados do Ministério das Mulheres e do Ligue 180, atualizados até novembro de 2025.
Os 3 Estados com pior capacidade proporcional de atendimento estão no Nordeste.
A região Sudeste concentra o maior número de postos do serviço, com 254 estruturas. Na sequência, aparecem o Nordeste e o Sul, com 195 e 115 unidades, respectivamente.
A rede de enfrentamento à violência contra a mulher reúne diferentes serviços de atendimento. Entre eles estão a Casa da Mulher Brasileira, os Núcleos de Defesa da Mulher nas Defensorias Públicas e a Patrulha Maria da Penha. Integram essa estrutura casas-abrigo, unidades de acolhimento provisório e outros serviços especializados voltados a pessoas em situação de violência.
Como porta de entrada desse sistema, o Ligue 180 funciona como canal nacional de atendimento às vítimas. A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. Além de prestar orientação sobre leis e direitos, a central informa onde buscar atendimento, registrar ocorrências e encaminhar aos órgãos competentes. De 2022 a 2025, o número de denúncias registradas pelo canal aumentou cerca de 76,87%.
Segundo Estela Bezerra, secretária da Senev (Secretaria Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres) do Ministério das Mulheres, a rede de apoio ainda apresenta cobertura desigual entre as unidades da federação. Ela afirma que parte dos serviços não opera em regime integral e carece de atendimento 24 horas.
“Tem Estados que têm indicadores ruins em relação ao monitoramento das medidas protetivas de urgência”, afirmou.
VIOLÊNCIA FÍSICA LIDERA REGISTROS NO 180
O levantamento do Ligue 180, em 2025, diz que a violência física liderou os registros pelo canal, com 65.437 relatos. Em seguida, aparecem a violência psicológica (43.267), a sexual (5.564), a moral (855) e a patrimonial (667). Outras formas de agressão somam 1.594 registros e incluem, entre elas, a perseguição virtual (stalking).
“As mulheres começam a identificar a violência em estágios anteriores ao espancamento”, declarou Bezerra.
Bezerra disse que as diretrizes de atendimento à mulher atualmente seguem a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340 de 2006), para classificar os tipos de violência contra o grupo. “O 180 só recebia denúncias de espancamento. Então, você só acreditava que um homem estava produzindo violência contra a mulher quando ele a espancava”, afirmou.
A lei estabeleceu mecanismos para impedir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Definiu ainda diferentes formas de agressão: física, moral, psicológica, sexual e patrimonial. Medidas protetivas instituíram penas mais rigorosas, além da criação de juizados especializados para julgar crimes dessa natureza.
MISOGINIA DIGITAL
A Pesquisa Nacional da Violência Contra a Mulher, do DataSenado, divulgada em novembro de 2025, indica que 8,8 milhões de brasileiras sofreram violência digital nos 12 meses anteriores ao estudo, realizado de maio a julho daquele ano. O contingente corresponde a 10% das mulheres com 16 anos ou mais. Os casos incluem, entre outros, o envio recorrente de mensagens ofensivas ou ameaçadoras.
Maíra Recchia, integrante da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB-SP, afirmou que os dados mostram que as mulheres atualmente precisam lidar com uma “misoginia digital”.
“A gente observou recentemente que há um aumento de denúncia das violências digitais. Com o fenômeno da revolução da tecnologia da informação, houve a alta e a qualificação de várias tipologias de crimes digitais”, disse.
Segundo Recchia, as plataformas on-line têm canais que incentivam a violência contra a mulher. “Na época do Carnaval, eu recebi, inclusive, uma denúncia do X, a plataforma do Twitter, sobre uma campanha que dizia: ‘Não aceite não, estupre.”
Para a advogada, a necessidade de leis específicas para proteger mulheres mostra uma falha estrutural da sociedade brasileira. “Quer dizer, tem um monte de leis só para a mulher existir e ser respeitada. Você tem que falar para a sociedade: não pode matar, não pode bater, não pode estuprar. Falar o básico”.
DISQUE 180
Segundo o Ministério das Mulheres, as denúncias das ocorrências podem ser feitas através da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180. É possível fazer a ligação de qualquer lugar do país ou acionar o canal via chat no WhatsApp (61) 9610-0180. Em casos de emergência, o governo recomenda acionar a Polícia Militar, por meio do número 190.
Esta reportagem foi produzida pelos trainees de Jornalismo Bianca Penteado, Mariana Aquino e Thiago Annunziato sob supervisão da secretária de Redação adjunta, Sabrina Freire.