Chanceler disse que EUA foram “grosseiros”; petista já criticou Trump mais de 62 vezes desde 2023
Ao falar sobre o novo tarifaço dos EUA sobre produtos brasileiros, o chanceler Mauro Vieira afirmou ser “testemunha” de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) buscou diálogo com o governo norte-americano para evitar as taxas impostas pelo USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA).
“Eu sou testemunha deste primeiro momento que o presidente Lula buscou o diálogo e enfatizou disposição em negociar qualquer tema […] Reitero a disposição do governo brasileiro, do presidente Lula, de sempre seguir negociando e aberto à negociação”, afirmou a jornalistas no MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
Apesar de o chanceler falar em disposição de Lula com os EUA, levantamento do Poder360 mostra que o petista criticou o presidente norte-americano, Donald Trump (Partido Republicano), em pelo menos 62 oportunidades desde 2023.
O saldo de menções de Trump ao petista, por sua vez, é bem menor. O republicano citou Lula só 11 vezes desde o início de seu 2º mandato –em janeiro de 2025.
LULA vs. TRUMP E RUBIO
Mais cedo, em entrevista a jornalistas no Palácio do Itamaraty, Mauro Vieira criticou o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, por ser “grosseiro e arrogante” com Lula. Disse ainda e que suas declarações são “inaceitáveis e ofensivas contra o povo brasileiro”.
“As declarações do secretário de Estado Marco Rubio, veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil, são inaceitáveis e ofensivas ao povo brasileiro e ao governo brasileiro. Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo. Claramente o que incomoda o governo do Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas no curso das negociações”, declarou Vieira.
Mauro Vieira disse ainda que o novo tarifaço dos EUA “não tem lastro” e que a motivação de Washington é política. Afirmou que, durante as negociações, os EUA fizeram exigências como a abertura irrestrita de setores da economia sem oferecer contrapartidas aos produtos nacionais, exigindo capitulação.
Depois do anúncio oficial do tarifaço, Rubio responsabilizou diretamente Lula pela aplicação das tarifas.
“Não haja confusão sobre o motivo: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé”, declarou o secretário de Estado. “Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso”, disse Rubio no X (ex-Twitter).
INVESTIGAÇÃO COMERCIAL
A tarifa de 25% foi proposta em 1º de junho de 2026, após o USTR concluir a investigação da Seção 301 contra o Brasil. O governo norte-americano apresentou a medida como resposta ao que classifica como práticas comerciais injustas.
O documento do USTR lista como alvos da apuração temas como Pix, comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal. Uma das conclusões aponta que o Brasil adota políticas públicas que favorecem o Pix e colocam empresas norte-americanas do setor de pagamentos eletrônicos em “desvantagem injusta”.
Em 6 e 7 de julho, o escritório promoveu uma audiência pública antes da decisão final sobre a proposta de imposição de tarifas de 25%. O governo Lula optou por não enviar representantes para discursar. Os únicos presentes foram integrantes da Embaixada do Brasil em Washington, que compareceram na condição de observadores.
O senador e pré-candidato ao Planalto Flávio Bolsonaro (PL) esteve presente no 2º dia de audiência. No entanto, o depoimento do congressista pouco contribuiu para mudar a decisão de Donald Trump.
1º TARIFAÇO
As primeiras tarifas dos EUA foram impostas em 2 de abril de 2025. Trump estabeleceu tarifas recíprocas com base inicial de 10% para 125 países, incluindo o Brasil. Ao todo, 185 nações e territórios foram afetados pela medida, que, segundo o governo norte-americano, buscava reduzir o déficit comercial do país.
À época, Trump afirmou que a taxação seria necessária porque “cidadãos norte-americanos trabalhadores foram forçados a ficar à margem enquanto outras nações enriqueciam e se tornavam poderosas”.
Em 15 de novembro, Washington formalizou a redução de tarifas de importação sobre carne bovina, café, tomate e banana, entre outros produtos. O decreto assinado por Trump cancelou a tarifa recíproca de 10% imposta inicialmente em abril, mas manteve uma taxa adicional de 40%, decretada em agosto.
Em 20 de novembro, os Estados Unidos revogaram a tarifa de 40% sobre produtos agrícolas brasileiros, como carne, café e frutas. Essa foi a última medida adotada em 2025 em relação ao Brasil.
Em 20 de fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu —por 6 votos a 3— que as tarifas globais impostas por Trump eram ilegais. No mesmo dia, o presidente assinou decreto para impor tarifa global de 10% a todos os países.
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