Planalto classificou medida como “marco lastimável” e anunciou reação com Lei de Reciprocidade e recurso à OMC
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) divulgou na 4ª feira (15.jul.2026) uma nota em resposta ao anúncio dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. O Planalto classificou a medida como um “marco lastimável” nas relações entre os 2 países e informou que adotará medidas estabelecidas na Lei de Reciprocidade e recorrerá à OMC (Organização Mundial do Comércio). Eis a íntegra do comunicado (PDF -167 KB).
No documento, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirma que não há justificativa para a decisão norte-americana e contesta a investigação conduzida pelo USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos), que serviu de base para a aplicação das tarifas.
O governo brasileiro afirma que apresentou argumentos ao USTR para rebater as acusações de supostas práticas desleais de comércio. A nota cita questionamentos feitos pelos Estados Unidos sobre o Pix, a regulação de plataformas digitais, políticas ambientais, propriedade intelectual e acesso ao mercado de etanol.
Segundo o Planalto, as alegações contra o Brasil são “descabidas” e “absurdas”. O governo defendeu o Pix como uma infraestrutura pública digital e afirmou que o país reduziu o desmatamento nos biomas brasileiros a partir de 2023.
A nota também apresenta dados sobre a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos. Segundo o governo brasileiro, os norte-americanos acumularam superavit de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos. O documento afirma ainda que, em 2025, 76% das importações dos EUA entraram no país sem imposto de importação e que a tarifa média aplicada aos produtos norte-americanos foi de 3,1%.
Ao final, o governo afirma que utilizará o Plano Brasil Soberano para proteger setores afetados pelas tarifas e continuará buscando novos mercados para produtos brasileiros. Também diz que levará o caso ao mecanismo de solução de controvérsias da OMC.
Leia a íntegra da nota do governo Lula contra o tarifaço dos EUA:
“O dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável.
“O governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo governo dos EUA relativa à imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
“Não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país. Segundo estatísticas do próprio governo norte-americano, os EUA acumularam nos últimos 15 anos US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil.
“Em 2025, 76% das importações originárias dos EUA entraram no país sem pagar imposto de importação, e a alíquota média efetivamente aplicada sobre produtos norte-americanos foi de apenas 3,1%.
“O Brasil não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio. Apesar disso, nunca deixamos a mesa de negociação para defender os interesses nacionais.
“Ao longo do último ano, o governo brasileiro atuou ininterruptamente junto ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) pelo encerramento das investigações baseadas na Seção 301, apresentando evidências que refutam cada uma das alegações sobre supostas práticas desleais de comércio adotadas pelo Brasil.
“Demonstramos que são descabidas as alegações contra o Pix e a regulação de plataformas digitais, bem como são absurdas as acusações sobre desmatamento. O Pix é um patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital. No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas. A liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, combatemos de forma incisiva os ilícitos ambientais e reduzimos drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros.
“Nas audiências públicas promovidas pelo USTR na semana passada, 63 das 78 intervenções feitas por representantes do setor privado brasileiro e norte-americano foram contrárias ao tarifaço.
“O governo do Brasil seguirá adotando medidas para reduzir os danos causados à economia e à renda dos brasileiros. Continuaremos a diversificar parcerias comerciais e a abrir novos mercados para nossos produtos, como fizemos ao firmar acordos do Mercosul com a União Europeia, a Associação Europeia de Livre Comércio e Cingapura.
“Por meio do Plano Brasil Soberano, manteremos medidas de proteção aos setores afetados por tarifas ilegais e arbitrariamente impostas pelo governo dos EUA, preservando empregos e a capacidade produtiva nacional.
“O Brasil iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC.
“É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros.
“Não se pode amar o Brasil apenas quando vencemos eleições. Proteger a nossa soberania é uma obrigação que está acima de todos os partidos e todas as tendências. O governo brasileiro não vacilará em seu dever de preservá-la.
“Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República”