Gerente-geral da Teva Brasil afirma que o setor avança impulsionado por medicamentos para emagrecimento, genéricos e lançamentos, e diz que a reforma tributária deve ajudar a reduzir o preço dos remédios.
O mercado farmacêutico brasileiro cresce acima do PIB e acumula expansão de cerca de 11% nos últimos 12 meses, segundo o gerente-geral da Teva Brasil, Roberto Rocha. Para o executivo, o desempenho reflete a demanda resiliente do setor, o avanço dos medicamentos para emagrecimento, o crescimento dos genéricos e a chegada de novos tratamentos ao mercado.
Presidente da Teva Brasil, Rocha afirma que o setor “praticamente não sente crises”. Segundo ele, uma mudança recente é o fato de o mercado privado passar a crescer acima do público, movimento impulsionado principalmente pelas chamadas canetas para emagrecimento.
“Neste ano está acontecendo uma coisa um pouco diferente. Nos últimos 12 meses, o mercado privado está crescendo um pouco mais que o público. Antes, o público crescia um pouco mais“, disse em entrevista ao Poder360.
Assista à íntegra (20m27s):
À frente da Teva Brasil desde 2021, Rocha diz que a companhia considera o país estratégico para sua expansão e pretende ampliar a oferta de medicamentos, sobretudo nas áreas de sistema nervoso central, oncologia e saúde mental.
O executivo também afirma que a inteligência artificial já faz parte do desenvolvimento de medicamentos na companhia e vem sendo usada para acelerar estudos clínicos, analisar novas moléculas e tornar processos internos mais eficientes.
“A inteligência artificial tem sido amplamente utilizada para acelerar a análise de novas moléculas e o desenvolvimento de tratamentos. Além disso, a tecnologia também contribui para aprimorar processos internos“, afirmou.
Leia trechos da entrevista.
Poder360 – O mercado farmacêutico brasileiro cresce acima ou abaixo do PIB? Quais indicadores mostram hoje a evolução do setor e quais números você considera os mais importantes para acompanhar esse mercado?
Roberto Rocha – Historicamente, o mercado farmacêutico brasileiro cresce acima do PIB. A dinâmica do setor de saúde praticamente não sente crises. Hoje, por exemplo, os dados mostram que, até maio, no acumulado de 12 meses, o mercado farmacêutico cresceu cerca de 11% –bem acima do PIB. Esse mercado é dividido, basicamente, em 2 segmentos: o privado, que engloba farmácias, hospitais particulares e outros estabelecimentos, e o público. Grosso modo, essa divisão é de cerca de 60% para o mercado privado e 40% para o público. Tradicionalmente, os 2 segmentos apresentam ritmos de crescimento muito semelhantes. Neste ano, porém, há uma mudança. Nos últimos 12 meses, o mercado privado passou a crescer um pouco mais do que o público, em comparação com o que se observava nos 2 anos anteriores. Antes, era o setor público que registrava um crescimento ligeiramente superior.
Tem alguma relação com a pandemia?
Não. O que temos observado é a expansão dos medicamentos voltados ao emagrecimento, as chamadas canetas. Esse é um gasto que sai diretamente do bolso das pessoas e também reflete uma característica muito brasileira. Além disso, há medicamentos novos sendo lançados no mercado e o segmento de genéricos, com preços mais acessíveis, também vem crescendo. Outro fator importante é o Farmácia Popular, que tem contribuído bastante para esse desempenho. Embora seja um programa público, ele entra nas estatísticas do mercado privado porque a distribuição é feita pelas redes de farmácias.
Qual é hoje a participação dos genéricos no mercado e quanto ainda pode crescer nos próximos 5 ou 10 anos?
É difícil projetar se essa participação ainda vai crescer. Em termos de unidades vendidas, os genéricos representam uma parcela muito relevante do mercado de farmácias e do consumo de maior escala nos pontos de venda. O Brasil tem cerca de 90.000 farmácias, e os genéricos têm uma representatividade muito importante. Não saberia dizer exatamente se é de 40% ou 50%. Em termos de faturamento, porém, essa participação é menor, porque são medicamentos mais acessíveis e com preços mais baixos.
Nos últimos anos, o Farmácia Popular ampliou o número de áreas terapêuticas atendidas, e a maior parte dos produtos oferecidos são genéricos. Além disso, sempre que um medicamento de grande consumo perde a patente, os genéricos ganham participação naquela área terapêutica. Foi o que aconteceu, por exemplo, com alguns medicamentos para déficit de atenção nos últimos 2 anos. Já os medicamentos para emagrecimento não são genéricos, mas biossimilares, que têm uma característica semelhante. Acho que a participação dos genéricos já chegou ao teto.
A Teva é uma multinacional de origem israelense e presente em dezenas de países. Qual o peso do Brasil na estratégia global da companhia e quais as perspectivas de crescimento?
A Teva no Brasil ainda é uma empresa jovem. Em 2026, completamos 20 anos de operação no país. Nos últimos 5 anos, tivemos um objetivo claro de ampliar o número de medicamentos que trazemos para o mercado brasileiro. Nesse período, quase triplicamos nossos resultados. Hoje, o Brasil ocupa uma posição estratégica para a companhia, especialmente nos segmentos em que a Teva é líder global, como inovação para o sistema nervoso central, imunologia e saúde mental. Nossa intenção é continuar crescendo e, ao mesmo tempo, expandir a atuação nos mercados de biossimilares e de genéricos complexos. Vamos seguir lançando novos medicamentos e trazendo para a população brasileira tratamentos nas áreas terapêuticas que mencionei.
Tendo nascido em Israel, os conflitos de hoje no Oriente Médio de alguma forma afetam a cadeia de produção ou os negócios da Teva?
Em momentos pontuais, sim. Nos últimos meses, porém, os conflitos não afetaram diretamente a cadeia de produção. Eles fazem a empresa ser mais resiliente e buscar alternativas logísticas para o envio dos produtos. Temos algumas fábricas em Israel, mas não apenas lá. No Brasil, importamos medicamentos de Israel, dos Estados Unidos, da Bélgica e da Alemanha. A logística em Israel se adapta rapidamente. Não houve ruptura no abastecimento, nem no Brasil nem em outros mercados. Além disso, a maior parte da operação global da Teva está fora de Israel. A empresa tem 6 plantas no país, mas conta com 52 unidades de produção no mundo.
O brasileiro frequentemente reclama do preço dos medicamentos. Na prática, o que mais pesa hoje no custo final de um remédio? Há espaço para reduzir preços?
O setor farmacêutico é um dos poucos que ainda têm preços controlados no Brasil. Existe uma câmara de medicamentos vinculada à Anvisa que, anualmente, autoriza o reajuste de preços com base em uma fórmula que considera diversos fatores, entre eles a inflação. Normalmente, esse aumento fica próximo da variação geral dos preços na economia. Há, sim, espaço para redução dos preços, e esse foi um dos temas mais debatidos nos últimos 2 anos durante a discussão da reforma tributária. O Brasil é um dos poucos países do mundo que tributam medicamentos. Com a reforma, cerca de 60% dos medicamentos terão a carga tributária significativamente reduzida ou zerada. Isso deve representar uma melhora para a população, com redução do preço pago pelo consumidor. Vamos começar a retirar impostos da cadeia.
O Brasil está envelhecendo rapidamente. Quais doenças ou classes terapêuticas devem registrar o maior crescimento na demanda e como a indústria está se preparando para esse cenário?
As doenças que mais vêm aumentando em prevalência estão ligadas à saúde mental, principalmente no período pós-pandemia. O câncer também é uma área de forte crescimento. Esses são 2 dos principais focos da indústria farmacêutica, tanto global quanto nacional. Além disso, as doenças cardiovasculares e o diabetes seguem ampliando seu impacto sobre o sistema de saúde. Na Teva, temos uma preocupação importante com a enxaqueca, uma condição que pode ter impacto moderado ou elevado na qualidade de vida das pessoas. É uma doença que ainda é quase invisível para boa parte da população, apesar do aumento expressivo de casos registrado no Brasil nos últimos anos.
Como a inteligência artificial está sendo incorporada ao desenvolvimento de medicamentos e à operação da Teva?
Assim como outras farmacêuticas, a Teva vem incorporando a inteligência artificial de forma prática para acelerar os estudos clínicos e o desenvolvimento de novos medicamentos. A empresa mantém em Israel um laboratório de alta tecnologia que se assemelha ao ecossistema do Vale do Silício, nos Estados Unidos, reunindo novas empresas e startups. Em nosso headquarter, há um andar inteiro dedicado à integração dessas startups, que trabalham em parceria com a área de pesquisa clínica. A inteligência artificial tem sido amplamente utilizada para acelerar a análise de novas moléculas e o desenvolvimento de tratamentos. Além disso, a tecnologia também contribui para aprimorar processos internos, otimizar a comunicação e dar mais eficiência a atividades como farmacovigilância, análise do comportamento dos medicamentos após a comercialização e elaboração de dossiês com dados de vida real. A IA também pode apoiar o relacionamento com médicos por meio da força de vendas. Na Teva, porém, esse processo está um pouco mais avançado do que em outras empresas, justamente pela parceria com startups do ecossistema de inovação de Israel para o desenvolvimento de novas tecnologias.
No Brasil, a judicialização influencia bastante os custos da saúde e tem impacto crescente sobre o orçamento público. Na visão da Teva, quais indicadores merecem atenção nesse debate e como a indústria pode contribuir para ampliar o acesso aos tratamentos sem comprometer a sustentabilidade do sistema?
Nós, da Teva, assim como imagino que ocorra com outras farmacêuticas, não entendemos que a judicialização resolva os problemas do sistema e não estimulamos esse tipo de abordagem. Ela é, na verdade, consequência de falhas existentes. Muitas vezes, medicamentos já incorporados ao SUS ainda não estão disponíveis para os pacientes, e esse processo pode demorar. Um estudo da Interfarma, associação que representa a indústria farmacêutica de inovação no Brasil, mostrou que mais de 55% das ações judiciais até o ano passado envolviam medicamentos que já haviam sido incorporados ao SUS ou recebido parecer favorável para inclusão. Ainda assim, por barreiras na implementação dessas novas tecnologias, eles não estavam disponíveis na ponta.
Em geral, a judicialização está relacionada a novos medicamentos e novas tecnologias, mas também evidencia dificuldades do próprio sistema em disponibilizar tratamentos já aprovados. Ao mesmo tempo, vemos avanços importantes nas discussões com o Ministério da Saúde. Há debates sobre modelos de acesso gerenciado, compartilhamento de risco e preço silenciado –mecanismo em que se negocia um desconto maior com o governo, mas esse valor permanece confidencial para não afetar as referências internacionais de preços entre países. Essa é uma preocupação relevante, porque cada país negocia de acordo com seus volumes de compra, e esses volumes são determinantes na formação dos preços.
Se você tivesse que escolher apenas um indicador para medir se o mercado farmacêutico brasileiro estará mais forte em 2030, qual que seria esse indicador e por quê?
Um bom indicador é o número de medicamentos aprovados pela Anvisa. A agência vem acelerando a análise dos pedidos de registro e reduzindo os prazos de avaliação, mas ainda existe uma fila significativa no Brasil, o que faz com que novas tecnologias já disponíveis em outros países demorem mais para chegar ao mercado brasileiro.
Se compararmos a média de aprovações dos últimos 3 anos e, em 2030, esse percentual estiver acima desse patamar, isso indicará uma melhora no acesso da população a novos medicamentos e uma maior disponibilidade de tecnologias para o tratamento de doenças mais complexas.