“Dear You” foi gravado inteiramente em teochew e lançado no mesmo ano em que Pequim tenta reforça o uso do mandarim
O longa “Dear You” é a grande sensação do cinema chinês no 1º semestre de 2026. Com um orçamento de US$ 2,1 milhões (R$ 10,8 milhões), o filme independente chinês arrecadou US$ 265,1 milhões (R$ 1,3 bilhão), segundo o site Box Office Mojo, desde seu lançamento, em 30 de abril –toda a bilheteria veio de cinemas chineses. É o 2º filme chinês mais visto em 2026, atrás de “Pegasus 3”, que teve um orçamento de US$ 7,5 milhões (R$ 38,7 milhões).
Mas o bom desempenho do filme nas bilheterias não é o detalhe que chama mais a atenção. O que torna “Dear You” mais emblemático é que ele não foi filmado em mandarim, mas em teochew, uma língua falada por aproximadamente 15 milhões de pessoas, principalmente da etnia Hakka, que vivem no sul da China e em outros países do sudeste asiático.
Assista à reportagem (2min7s):
O fato de o filme ter sido gravado na língua teochew dá à obra um tom mais intimista, chamando a atenção do público chinês. Reportagens da mídia chinesa relataram que o longa ressoou com a audiência porque a China vive um momento de grande interesse pelas culturas regionais. Nos últimos anos, os jovens chineses têm dado mais atenção a esse aspecto cultural no cinema, na moda e nos videogames.
Embora esse elemento regional seja um componente essencial do filme, ele esbarra no interesse do governo chinês de promover cada vez mais a língua oficial do país, o mandarim. Em março deste ano, o Congresso chinês aprovou a chamada Lei de Promoção Nacional à Unidade Étnica e o Progresso, que tem em um de seus dispositivos a exigência do mandarim como a língua básica do sistema educacional e da administração pública.
O governo central tenta há mais de 100 anos popularizar o mandarim, e esse esforço já esbarrou em comunidades regionais que desejam a manutenção de seus idiomas como a língua comum em suas áreas.
Um exemplo foram os protestos de 2020 na região autônoma da Mongólia Interior. Na época, milhares de pessoas protestaram contra uma medida de Pequim para substituir o idioma mongol pelo mandarim em algumas matérias escolares.
O governo chinês afirma valorizar a diversidade de línguas no país –são 81 idiomas no país– , mas as gerações mais jovens têm cada vez menos contato com as línguas regionais. A massificação do mandarim fez com que idiomas como o cantonês, o mongol e o wu perdessem cada vez mais espaço.
Dublado em mandarim
“Dear You” foi lançado em Cingapura na semana passada, país onde 20% da população têm herança do povo que fala teochew, mas uma decisão executiva causou polêmica. Grande parte das salas vão exibir o filme com a dublagem em mandarim, uma decisão que desapontou parte do público que gostaria de ver o idioma nas telas e levantou questões sobre o porquê de o mandarim ser priorizado.
O filme conta a história de um neto que busca seu avô, originário de Chaoshan, que emigrou para a Tailândia muitos anos atrás. Ele retrata a tradição dos imigrantes chineses do século 20 de enviar regularmente cartas curtas com pequenas remessas para suas famílias na China.
No Douban, plataforma chinesa de avaliação de filmes, “Dear You” aparece com uma nota 9,3/10. Será lançado na América do Norte em 26 de junho.
Ainda não há uma data ou confirmação de que o longa chegará ao Brasil, mas as chances são especialmente maiores do que o normal em função do Ano Cultural Brasil-China 2026.