Ex-presidente da Caixa entrou no núcleo econômico da pré-campanha Flávio Bolsonaro; trata de assuntos econômicos e de pautas voltadas para o eleitorado feminino
Para a ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques, recém-chegada ao núcleo central da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a disputa pelo voto feminino será decisiva para a eleição de 2026. Com passagem pelo mercado financeiro e pela equipe de Paulo Guedes, ela defende pautas para as mulheres que sejam concentradas na defesa de liberdade econômica, no empreendedorismo e na segurança, em contraposição ao que chama de discurso de vitimização.
“As mulheres não são vítimas da sociedade. As mulheres são fortes. Eu brinco que quem tem força para parir um filho tem força para qualquer coisa. É um dom divino. As mulheres, ao longo do tempo, tornaram-se instrumento de um discurso político com poucas soluções práticas para a vida real delas. A vida real é econômica”, afirmou ao Poder360, em entrevista gravada em vídeo em 23 de junho de 2026.
Daniella tem 46 anos. É administradora por formação. Presidiu a Caixa de julho de 2022 a janeiro de 2023. Antes, foi assessora especial do então ministro da Economia, Paulo Guedes. Tem 2 filhos.
Assista à entrevista:
Para Daniella, a política da direita voltada a mulheres não deve se limitar à autonomia econômica, que considera muito relevante, mas não a única pauta a ser defendida. Ela defende uma política de segurança pública mais rígida, centrada na proteção das vítimas e na punição dos agressores.
“Soltar agressor em audiência de custódia não é respeito ao direito. Estarrece a mulher. Ela que precisa ser protegida, não o agressor. Falta dizer: estou cuidando de você. Hoje, há uma leniência grande com agressores e bandidos”, disse.
Lula lidera as pesquisas impulsionado, em grande medida, pelo voto feminino. Entre os homens, Flávio aparece em situação mais favorável. Diante desse cenário, Daniella entende ser necessário colocar a pauta das mulheres no centro da pré-campanha de Flávio, dando ênfase em liberdade econômica e segurança.
Mercado & missão
Daniella afirma ter ingressado na campanha de Flávio por um “senso de missão”. Na sua avaliação, as políticas fiscal e de gastos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegaram ao limite. Para ela, a eventual reeleição do petista levará o país a um esgotamento econômico.
Sérgio Lima/Poder360 – 23.jun.2026
Segundo Daniella Marques, mulheres ficam estarrecidas com o que chama de leniência com bandidos e agressores de mulheres
O mau humor do mercado financeiro sobre as chances de uma candidatura de direita ser bem-sucedida se devem, na avaliação de Daniella, justamente ao fato de as pesquisas mostrarem esse quadro atualmente.
“Não acho que seja o mercado que precise ser convencido, mas a população. É a população que terá a vida transformada. A vida do mercado financeiro é confortável”, afirma.
A seguir, leia trechos da entrevista.
Poder360 – Você deixou o mercado financeiro para integrar a campanha de Flávio Bolsonaro em momento delicado, com queda nas intenções de voto. Por que entrou oficialmente na campanha?
Daniella Marques – Foi um chamado, assim como da primeira vez. Quando o ministro Paulo Guedes me convidou para integrar o plano econômico, meu filho mais velho, Pedro, tinha 4 anos e eu já tinha alcançado, profissional e financeiramente, mais do que sonhava na infância. Vi ali uma oportunidade de servir e retribuir ao Brasil.
Tive o privilégio de conviver com a sabedoria do ministro Paulo Guedes e me envolvi muito na execução das políticas. Era uma espécie de líbero do time. Liderei iniciativas voltadas às mulheres, como a estratégia nacional de empreendedorismo feminino e o Caixa para Elas, o maior programa de inclusão financeira e enfrentamento à violência já feito por um banco. Entendi que o Estado tem a obrigação de apoiar essas mulheres e tornar a vida delas mais fácil. Esse virou meu propósito.
Quando saí da vida pública, pensei: ‘Tenho que continuar trabalhando por elas’. Fundei o grupo Para Elas, focado em autonomia financeira feminina, e me envolvi no enfrentamento à violência doméstica. Vi um Brasil ainda muito primitivo, com impunidade para agressores e estupradores.
Quando Bolsonaro escolheu Flávio para liderar este projeto, que vai definir a direção que o país vai tomar, liguei para ele e disse: ‘Quero me alistar. Preciso ajudar na mudança’. Aprendi muito no primeiro governo. É fácil fazer papers e sugerir políticas; o difícil é a vida prática, a política, o diálogo e a execução. Brinquei com Guedes que, desta vez, seremos mais rápidos e não teremos uma pandemia.
É inquestionável, gostem ou não, que há um legado de Banco Central independente, dos marcos do saneamento, das garantias, das ferrovias e da cabotagem, além da reforma da Previdência, com forte atuação de Rogério Marinho. Podemos chegar mais rápido ao que enxergamos como o caminho da prosperidade e da liberdade financeira.
Por isso decidiu voltar à política?
Fui mãe aos 45 anos. Meu bebê tem 1 ano e meio. Pensei nos próximos seis meses da minha vida e no que seria mais importante: continuar fazendo operações financeiras e de estruturação ou participar de uma transformação profunda do Brasil. É um chamado. Sempre contribuí com ideias. Quando Flávio me chamou para participar, eu só disse: “Me diz quando posso ajudar”.
Qual vai ser o seu papel na campanha?
É um pouco de tudo, mas não sou mulher-maravilha. Não acredito em ganhar o jogo sozinha. Muita gente quer ajudar e se identifica com esse conjunto de princípios e valores.
Na pauta feminina, vejo mulheres cansadas de discursos que não resolvem seus problemas reais. As mulheres não são vítimas da sociedade. As mulheres são fortes. Eu brinco que quem tem força para parir um filho, tem força para qualquer coisa. É um dom divino. Ao longo do tempo, elas se tornaram instrumento de um discurso político com poucas soluções práticas para a vida real delas. E a vida real é econômica.
Sou mulher, mãe, católica praticante, esposa e dona de casa. Divido tarefas com meu marido, dentro e fora de casa, gerando renda. Meu dia tem 24 horas como o de todas as mulheres reais. Tentam dizer que a mulher forte é aquela que está em competição com o homem. Não estamos. A grande maioria das mulheres tem na fé e na família a sua base. Não quer competição, quer liberdade.
As mulheres precisam de apoio para enfrentar a violência, empreender e conciliar as responsabilidades de cuidado com filhos e idosos. Precisam de creches, de lares para idosos e de segurança. Precisam que o agressor seja preso e de não serem usadas como instrumento político. A mulher quer construir um futuro melhor para ela e sua família.
Sérgio Lima/Poder360 – 23.jun.2026
Daniella Marques diz que a esquerda dialoga de maneira direta com as mulheres dando a elas a impressão de estarem sendo ouvidas
Mas o voto das mulheres, no Brasil, tem sido da esquerda. Lula lidera sobre Flávio no cômputo geral. Perde entre homens e vence entre mulheres, de onde vem a sua vantagem. Qual a dificuldade da direita em dialogar com as mulheres?
A direita entrega soluções práticas. Uma em cada 4 mulheres é vítima de violência. A cada hora, 3 meninas são abusadas. São estatísticas reais. Quem tem um discurso mais incisivo contra bandidos e a impunidade, a direita ou a esquerda? A direita.
Soltar agressor em audiência de custódia não é respeito ao direito, estarrece a mulher. Ela que precisa ser protegida, não o agressor. Falta dizer: ‘Estou cuidando de você’. Há uma leniência grande com agressores e bandidos.
Há exemplos práticos, como o do secretário Guilherme Derrite, em São Paulo. A tornozeleira eletrônica do agressor e o celular da vítima têm geolocalização. Se ele se aproxima, um alerta é disparado e uma viatura vai até ele, enquanto outra vai até ela. Isso é proteger. Hoje, muitas vezes, a medida protetiva é apenas um pedaço de papel. Precisamos de medidas mais duras para agressores e estupradores.
Mas há um segundo ponto: olhar pelos olhos das mulheres. O Caixa para Elas tinha 3 pilares: enfrentamento à violência, apoio psicológico e promoção do empreendedorismo. A mulher pensa o dinheiro de forma diferente, de acordo com a sua realidade.
Pode dar um exemplo prático?
Venho do mercado financeiro, um ambiente muito masculino. A linguagem ali é de retorno, rendimento, empréstimo. A mulher conecta o dinheiro à vida dela: a faculdade do filho, uma casa nova, cuidar dos pais, realizar sonhos. É preciso direcionar a linguagem a elas, criar pertencimento e mostrar que é impossível ignorar o dinheiro. Ele é um meio para construir prosperidade e dignidade.
As mulheres são 80% das beneficiárias do Bolsa Família, chefiam mais da metade dos lares e são mais de 10 milhões de empreendedoras. O país tem cerca de 2 milhões de sacoleiras. Isso é renda. Precisamos ajudá-las a formalizar seus negócios, lucrar mais e perder o medo de empreender. Mais de 70% dos beneficiários do Bolsa Família têm outra atividade, mas receiam se formalizar e perder o benefício. Queremos libertar essas pessoas.
E há um outro pilar para as mulheres.
Qual?
A fé. A maioria das mulheres é cristã. Quando se fala em aborto, todas as igrejas são contra. Não é liberdade, é vida. E a família é um alicerce mais forte do que o Estado. Cada família constrói o seu próprio acordo; o Estado não tem que impor uma visão de mundo.
A ideia é levar o discurso de que a direita oferece mais soluções aos problemas reais das mulheres do que a esquerda?
Não é o cerne do discurso, é o cerne da prática. Vamos olhar para problemas reais e entregar soluções reais. Um exemplo é a Casa da Mulher Brasileira, criada pela ministra Damares Alves. Muitas mulheres não conseguem sair do ciclo de abuso porque dependem financeiramente do parceiro. O primeiro passo é ter para onde ir.
Também queremos ampliar o letramento financeiro feminino. Não é uma disputa entre homens e mulheres. Se a mulher é o centro decisório da família, precisa conhecer dinheiro. Talvez houvesse menos endividamento.
As mulheres viram instrumento político em ano eleitoral porque são maioria do eleitorado. As leis de proteção já existem; o desafio é fazê-las ser cumpridas. Enquanto uma mulher não consegue uma medida protetiva, o governo diz que a solução é debater misoginia no Congresso.
Mas por que, então, a esquerda dialoga tão melhor com as mulheres?
Porque elas sentem que estão sendo vistas. É como se o governo dissesse que reconhece a dor delas e se colocasse como salvador. Mas o Estado não é salvador, é um facilitador. Ele tem que ser duro com bandidos e criar oportunidades para que as mulheres conquistem liberdade, dignidade e realizem seus sonhos. As pessoas têm o direito de sonhar mais alto do que a tutela do Estado.
O governo colocou um monte de figuras decorativas e fez um orçamento minúsculo para essa pauta. Por outro lado, tínhamos duas mulheres no STF e hoje temos uma. Tinha que ir para duas, 3, 4, 5. Não acreditam nessa pauta. As mulheres se tornaram instrumento da política.
Sérgio Lima/Poder360 – 23.jun.2026
A Faria Lima, segundo Daniella, está desanimada com a hipótese de Lula ser reeleito
Você seria ministra em um governo Flávio?
Não estou preocupada com posição. Estou preocupada com o projeto. Tenho temas que conheço e poderia ser presidente de banco ou ministra, mas não é sobre isso. Financeiramente, para mim, o melhor era ficar onde estava. Mas vim. Em uma campanha, a pergunta é: quem joga melhor em cada posição? Estou disposta a jogar para mudar o Brasil. Porque, do ponto de vista econômico, o Brasil não sobrevive a mais 4 anos do atual modelo.
Como Flávio resolveria a crise fiscal?
A crise é antiga. Não é em um 4º mandato que Lula vai resolver problemas que vêm de décadas. O governo não para de gastar. O empresário está endividado e enfrenta juros extorsivos. O mesmo acontece com as famílias, que já comprometem quase 40% da renda com dívidas. Estou falando de números, não de Flamengo e Vasco. Se isso continuar, vai quebrar todo mundo.
Não há bala de prata. É preciso assumir compromissos em 3 frentes: controlar gastos, reestruturar ativos, com privatizações, e promover investimentos. A trajetória da dívida precisa mudar e há um grande cardápio de reformas possíveis. Não adianta dar um vale-gás de R$ 40 e tirar R$ 80 no preço da carne.
E teria espaço para mudanças?
Existe uma capacidade de execução política do próprio candidato e do coordenador Rogério Marinho, com quem tive uma agenda extensa de reformas. Também devemos ter mais governabilidade no campo da centro-direita com a perspectiva de aumento da bancada no Senado. Há espaço para uma agenda econômica saudável e para uma direção de prosperidade. Flávio Bolsonaro é o líder de um projeto maior.
Em todas as pesquisas, o presidente Lula lidera as intenções de voto. Há um certo desânimo entre os agentes econômicos na Faria Lima com relação ao desempenho de Flávio Bolsonaro. Como mudar esse cenário?
Os agentes econômicos trabalham com cenários prospectivos. O desânimo é mais com a perspectiva de vitória do presidente Lula do que com o candidato. Agora, Flávio e a equipe terão de mostrar não só ao empresariado, mas à população, que o caminho de Lula vai dar errado e que nossas propostas são melhores. Está cedo, a campanha está começando. Estou confiante de que o Brasil vai entender que precisa mudar de direção. A atual já tentou demais.
E tem como convencer a Faria Lima de que esse caminho é viável e que Flávio tem chance de ganhar as eleições?
Não acho que sejam eles que precisam ser convencidos, mas a população. É a população que terá a vida transformada. A vida do mercado financeiro é confortável, com juros altos ou baixos. O problema é para quem está endividado.
Temos de traduzir essa gastança, essa falta de controle e essa má gestão. Mostrar que isso impacta o carrinho de supermercado. Hoje, o primeiro gasto do mês de muitas famílias é pagar dívidas. Cabe a nós convencer a população de que estamos focados em medidas concretas para transformar a vida delas.
Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/mulheres-sao-fortes-nao-vitimas-diz-daniella-marques/