Starlink é principal operadora em municípios hiper-rurais

Empresa de Elon Musk concentra 12,8% do mercado nas cidades em que mais de 75% da população vive fora da área urbana

A Starlink, do empresário Elon Musk, é a principal operadora de banda larga nos municípios mais rurais do Brasil. A empresa de internet via satélite soma 8.731 acessos em banda larga fixa em cidades onde mais de 75% da população vive em áreas rurais, segundo levantamento feito pelo Poder360 com dados da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). O montante é correspondente a 12,8% do total de acessos nesses municípios.

O desempenho da empresa também cresce conforme aumenta a ruralidade. Nas cidades mais urbanizadas, com menos de 1% da população em áreas rurais, a empresa responde só por 0,4% dos acessos de banda larga fixa. A fatia sobe para 6,9% nos municípios com 10% a 25% de população rural e supera 10% nas cidades em que ao menos 50% dos moradores vivem fora do perímetro urbano. 

A vantagem da Starlink nessas localidades está no fato de que a conexão via satélite exige menos infraestrutura terrestre do que redes tradicionais de internet. Em áreas remotas do país, as instalações de fibra óptica, cabos e torres são mais escassas ou simplesmente não existem. A Starlink consegue atender a população de municípios rurais só com uma antena instalada no imóvel do cliente –que é geralmente enviada pela empresa até o domicílio.

A tecnologia funciona por meio de satélites em órbita baixa, posicionados mais perto da Terra do que os satélites tradicionais. A antena instalada pelo usuário se conecta a esses equipamentos, que retransmitem o sinal para estações terrestres e integram a conexão à rede global de internet.

A expansão da Starlink depende de lançamentos recorrentes feitos pela SpaceX, outra empresa de Elon Musk e a responsável por colocar os satélites da constelação em órbita. Segundo levantamento com base em dados da própria companhia, a Starlink já teve 389 missões realizadas desde o início de suas operações, em 2019.

Os lançamentos ainda se tornaram mais frequentes recentemente. Nos primeiros 2 anos da Starlink, a SpaceX completou ao todo só 16 missões. Em 2026, até 28 de maio, foram 48 missões, o equivalente a 2,21 por semana. Em 2025, a média semanal havia sido ainda maior: de 2,35 missões.

Cada lançamento coloca cerca de 20 satélites em órbita baixa da Terra. Em 5 de maio de 2026, havia 10.296 satélites Starlink em órbita, dos quais 10.280 estavam em operação, segundo o astrônomo norte-americano Jonathan McDowell, que acompanha a constelação em seu site. 

O modelo de negócio permitiu que a empresa crescesse de forma acelerada desde a chegada ao Brasil, em fevereiro de 2022. Já é a 14ª maior operadora do país, tendo registrado um aumento médio mensal de 59% no número de clientes. Operadoras tradicionais, que se utilizam da infraestrutura de fibra óptica brasileira, não chegaram a crescer mais do que 1% ao mês no mesmo período.

Um dos entraves, no entanto, para a adoção da tecnologia é o preço inicial para que se possa adquirir a antena. O dispositivo mais barato oferecido pela empresa, o kit mini, custa em média R$ 2.000. Embora esse preço possa variar conforme a localidade da instalação da antena –está sendo vendido a R$ 499,00 em lugares selecionados.

A assinatura do serviço ainda acrescenta R$ 189,00 mensais à conta. Operadoras tradicionais fazem promoções de internet residencial por cerca de R$ 100 por mês, muitas vezes sem cobrança pela adesão.

FAZENDAS DE STARLINK

O alto custo inicial ajuda a explicar o surgimento das chamadas “fazendas de Starlink” em algumas regiões remotas do país. Nesses casos, um conjunto de antenas é instalado em um mesmo local para captar o sinal dos satélites. A capacidade dessas conexões é então concentrada em equipamentos de rede, como roteadores, switches e servidores, e distribuída a um provedor local, que pode levar a internet aos clientes por cabos, redes sem fio ou enlaces de rádio.

Assista aqui ao vídeo de um influenciador mostrando uma “fazenda de Starlink”.

Na prática, o modelo transforma conexões contratadas individualmente em uma estrutura de revenda de sinal. Em vez de cada morador comprar sua própria antena e contratar diretamente o serviço, um intermediário reúne várias antenas, amplia a capacidade disponível e comercializa pacotes de internet para terceiros. Esse arranjo pode tornar o acesso mais barato para a população local, mas cria um serviço paralelo de telecomunicações.

A prática é irregular quando feita sem autorização da Anatel para prestar serviço de internet. Pelas regras do setor, o SCM (Serviço de Comunicação Multimídia) é o serviço que permite ofertar capacidade de transmissão e recepção de dados, inclusive para conexão à internet, a assinantes. A Anatel afirma que fornecer capacidade de tráfego de dados para interligar assinantes à internet sem outorga caracteriza exploração clandestina de SCM.

METODOLOGIA

O levantamento foi feito com base nos dados públicos de acessos de banda larga fixa da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). A base reúne os acessos em serviço informados pelas prestadoras do SCM (Serviço de Comunicação Multimídia), denominação regulatória usada para a banda larga fixa no Brasil. Cada acesso corresponde a uma conexão ativa declarada por uma operadora em determinado município.

Os dados divulgados pela Anatel, no entanto, diferem dos publicados pela própria Starlink. Em janeiro deste ano, a companhia afirmou ter alcançado a marca de 1 milhão de clientes no Brasil. Já nos registros da agência reguladora, a operadora aparecia com 704.761 acessos em março de 2026.

Questionada pelo Poder360 sobre a divergência entre os dados divulgados pela Starlink e os registros oficiais da agência, a Anatel afirmou que a inconsistência pode decorrer do envio de informações incorretas pela própria empresa.

Segundo a agência, as prestadoras devem encaminhar os dados até o dia 15 do mês seguinte ao período medido. Assim, as informações referentes a janeiro, por exemplo, precisam ser enviadas até 15 de fevereiro e são publicadas até o fim do mesmo mês. Por esse procedimento, afirma a Anatel, não há defasagem superior a 1 mês na medição.

A Starlink foi procurada pelo Poder360, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.

O número não equivale necessariamente ao total de usuários, já que uma mesma conexão pode atender mais de uma pessoa, domicílio ou estabelecimento. Também não mede a qualidade da conexão, a velocidade efetivamente entregue ou o grau de cobertura territorial da empresa.

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-infra/starlink-e-principal-operadora-em-municipios-hiper-rurais/

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