Expresso Turístico: Conheça o trem em SP que te leva aos anos 50

Disputados, bilhetes esgotam em 3 minutos; trajeto leva à vila inglesa de Paranapiacaba, a “cidade das bruxas” do século 19

Todo início de mês, cerca de 5.000 pessoas acessam, ao mesmo tempo, a bilheteria digital da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos na esperança de adquirirem a mesma coisa: passagens para viajar no Expresso Turístico. Os bilhetes se esgotam em menos de 3 minutos. É, provavelmente, o trajeto de trem mais concorrido do Brasil.

Vânia Elizabeth Silva, chefe de carro do Expresso Turístico, afirma que a viagem precisa ser planejada com 1 mês de antecedência. Segundo ela, as passagens são disponibilizadas pela CPTM na 1ª semana do mês anterior ao passeio e costumam se esgotar muito rápido. “As passagens do mês inteiro esgotam de uma só vez”, diz.

Assim, quem deseja viajar em julho, por exemplo, precisa comprar o bilhete em junho. A CPTM informa a abertura de lotes por meio de suas redes sociais.

A reportagem do Poder360 conseguiu os famigerados ingressos e viajou até São Paulo (SP) para embarcar no disputadíssimo Expresso Turístico a fim de entender de que outra forma as linhas ferroviárias sobrevivem no país: como passeios turísticos.

Assista a esta reportagem em vídeo (8min51s):

COMO É VIAJAR NO EXPRESSO TURÍSTICO?

Diferentemente da EFVM (Estrada de Ferro Vitória a Minas), usada como meio de transporte ao ligar a capital capixaba a Belo Horizonte (MG), e que foi detalhada pelo Poder360 na 1ª reportagem desta série, o Expresso Turístico tem outra vocação: o turismo sobre trilhos.

A CPTM reativou as linhas ferroviárias com ajuda da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária em 2009, no intuito de fomentar a cultura, o lazer e a preservação da história paulista em cidades turísticas mais próximas da capital do Estado.

Hoje, a Companhia oferece 2 destinos: Paranapiacaba e Jundiaí. O passeio para Mogi das Cruzes está, até a presente data, fora de operação. Os trajetos só se dão aos finais de semana e alguns feriados.

O Expresso dos anos 1950, que sai da Estação da Luz, na capital paulista, e vai até a vila de Paranapiacaba, distrito de Santo André (SP), percorre uma distância de aproximadamente 48 km a uma velocidade média de 50 km/h. 

O comboio é formado por 4 carros de passageiros, com 88 assentos por carro, ou 352 assentos no total. E a passagem de ida e volta para uma pessoa custa R$ 50.

O passeio parte pontualmente às 8h30 da manhã (com embarque às 8h) e o café da manhã é servido a bordo. Mas como não há cozinha no trem, nada é preparado ali e as opções são biscoitos em sachês, bebidas enlatadas e cafés de cápsula.

“O Expresso tem passageiros fiéis. A gente fica amigo, de tanto que vem. A gente se trata até por nome”, afirma a chefe de carro Vânia Elizabeth Silva.

O trajeto de duas horas é bastante agradável e tranquilo. Os assentos originais de couro foram restaurados e, por causa da baixa velocidade e segurança do modal, não contam com cintos de segurança.

Segundo a ANTF (Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários), os índices de acidentes nas ferrovias brasileiras caíram mais de 85% desde o fim dos anos 1990. Estudos internacionais apontam que viajar de trem pode ser até 20 vezes mais seguro do que viajar de carro.

Embora a locomotiva do Expresso Turístico seja dos anos 50, os vagões de passageiros são de 1960. Foram todos reformados em 2009 e emulam como realmente era viajar na década de 60. Há banheiros no trem, mas nada de ar-condicionado e entradas USB como na EFVM. Afinal, a ideia do passeio é voltar ao passado!

Interagir com a tripulação -que se veste a caráter, por sinal -é uma viagem no tempo à parte. A chefe de carro, Vânia, reconta toda a história da criação da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí e explica, em detalhes, o que há de interessante para ver, fazer e comer no destino final. De quebra, os passageiros podem tirar foto com o chapeuzinho da época da CPTM. É uma festa.

Pelas janelas, a paisagem também narra a sua história. Primeiro, a região metropolitana de São Paulo desfila cinzenta: muros pichados, vagões enferrujados e locomotivas abandonadas pelos trilhos. Aos poucos, a Mata Atlântica vai tomando conta, e de repente, surge um verde intenso entrecortado pelo cinza da densa neblina perene da Serra do Mar que cobre a região.

Ao desembarcar, o visitante chega à vila de Paranapiacaba (e ao século 19).

COMO PARANAPIACABA FOI CONSTRUÍDA?

Construída por engenheiros ingleses em 1867, no alto da Serra do Mar, Paranapiacaba é um distrito do município de Santo André, na região metropolitana de São Paulo.

A vila nasceu com uma missão: a de escoar o café que saía do interior paulista para Santos, onde seria exportado mundo afora. No entanto, a geografia do local era um baita desafio para os engenheiros do século 19. No caminho havia um obstáculo nada trivial: uma serra de quase 800 metros acima do mar.

Na época, somente os ingleses possuíam tecnologia para solucionar a questão: o sistema funicular.

O sistema funicular funcionava assim: 2 trens ligados com cabos de aço puxavam um ao outro num sistema fechado. Enquanto 1 subia, o outro descia.

O sistema de Paranapiacaba foi o 1º do tipo no continente americano. Há também outro em Salvador (BA), o Plano Inclinado Gonçalves, de 1889.

Representação do sistema funicular

Mas a criação de Paranapiacaba não foi um gesto altruísta dos ingleses. Eles a construíram porque garantir o escoamento do café do oeste paulista para o Porto de Santos era extremamente lucrativo.

A São Paulo Railway Company, empresa constituída em Londres e responsável pela implantação dos trilhos em Paranapiacaba, foi fundada em 1856 depois de receber do Império do Brasil a concessão para ligar o interior paulista ao Porto de Santos.

O relógio já não dá uma dica da origem inglesa? Construído em 1898, tem cerca de 20 metros de altura e é uma réplica do Big Ben. Também abriga um maquinário original da relojoeira britânica da marca John Walker. É o único dos 3 relógios trazidos ao Brasil na época ainda em funcionamento

Mas o funicular exigia uma operação complexa, permanente e com diversos funcionários e, como a região de Paranapiacaba é isolada pela Mata Atlântica, os ingleses decidiram criar uma vila planejada para abrigar os trabalhadores e suas famílias. 

A São Paulo Railway acreditava que, ao controlar o ambiente onde os funcionários viviam, conseguiria maior eficiência. A empresa tinha as próprias casas, mercados, clube, hospital, saneamento e regras de organização. Inclusive, o 1º campo de futebol do Brasil e o 1º cinema do Estado de São Paulo, o Cine Lyra, foram construídos na vila.

Cine Lyra, em Paranapiacaba: construído em 1903 pela São Paulo Railway para entreter ferroviários, o espaço foi o 1º cinema do estado de São Paulo. Funcionou até a década de 1930, caiu em abandono por décadas e foi restaurado em 2024 com R$ 5 milhões em investimentos públicos

As atrações, restaurantes, bares e cafés abrem durante os finais de semana em que Paranapiacaba recebe o Expresso Turístico. Mas fique atento: a maioria (senão todas) das atividades se encerra depois que o trem parte. 

É indicado que os passageiros embarquem para São Paulo às 16h, quando o Expresso retorna para a capital. Ainda que existam pousadas na vila, não há nada a se fazer ou ver durante a noite (ou em dia útil); tudo fecha. A reportagem teve dificuldade para encontrar 1 restaurante aberto na noite de domingo. Foi necessário pedir uma pizza da cidade vizinha.

TURISMO, UNESCO E BRUXARIA

A partir da década de 60, com o declínio da atividade ferroviária que deu origem à vila, o fluxo de renda criado pelo escoamento do café secou. Foi quase o fim de Paranapiacaba. É só com a reativação do Expresso Turístico, pela CPTM em 2009, que a vila volta a ter fôlego.

Hoje, Paranapiacaba é responsável por quase 60% de todo o fluxo turístico de Santo André (SP), segundo a prefeitura. Em 2024, a vila recebeu cerca de 600 mil visitantes. Somente o Festival de Inverno, principal evento do calendário local, atraiu 280 mil pessoas em 2 fins de semana. 

“Há 10 anos a gente faz um trabalho sério para requalificar Paranapiacaba como destino turístico. As pessoas chegavam aqui e se deparavam com ruínas. Era triste. A gente queria mostrar a verdadeira história da vila“, afirma Eric Tadeu Lamarca, assessor da Subprefeitura de Paranapiacaba. 

E, falando em história, Paranapiacaba também é candidata a se tornar Patrimônio da Humanidade pela Unesco. 

Caso consiga, será o 1º sítio reconhecido pela organização no Estado de São Paulo. 

Eric diz acreditar muito na possibilidade. Segundo ele, o valor histórico da vila é único. “O funicular, os trilhos, o café, eles fundaram a economia do Estado de São Paulo”, afirma Eric, “é singular”.

Paranapiacaba tem ainda um atrativo a mais para quem gosta do sobrenatural. A neblina densa e permanente da Serra do Mar cobre a vila durante a maior parte do ano e empresta ao local uma atmosfera misteriosa.

Os mais supersticiosos acreditam na lenda do “trem fantasma”: nos trilhos, apareceriam os espectros dos homens que morreram conduzindo os trens ou construindo a ferrovia. 

O misticismo, para além do folclore, se tornou negócio lucrativo em Paranapiacaba. Todos os anos, a vila sedia a “Convenção de Bruxas e Magos”, o maior evento do tipo na América Latina.

Convenção de Bruxas e Magos de Paranapiacaba: o maior evento de misticismo da América Latina acontece todos os anos na vila e reúne 30.000 participantes em um fim de semana

Segundo a subprefeitura de Paranapiacaba, o evento reúne 30.000 participantes em 1 fim de semana. 

Na verdade, trata-se de um grande congresso de misticismo, explica o assessor. Conta com praticantes de bruxaria natural, reiki e massagem. Eric afirma que tudo é levado muito a sério pelos participantes e a festa que começou como um Halloween já foi incorporada à cultura e economia da vila. 

Eric resume bem os últimos 10 anos: um trabalho lento de requalificação que devolveu “dignidade” a Paranapiacaba, e, com ela, turistas brasileiros e de toda a América Latina.

“Quando você restaura um bem, você devolve para a sociedade a sua história“, diz ele ao Poder360. E a história de Paranapiacaba, assim como começou, continua sobre os trilhos. 

Esta é a 2ª reportagem da série especial Poder nos Trilhos, do Poder360, sobre a malha ferroviária brasileira. 

A 1ª reportagem mostrou a viagem de 17 horas na EFVM (Estrada de Ferro Vitória a Minas), a única ferrovia de longa distância do país com transporte regular diário de passageiros.

Assista ao 1º episódio (23min48s):

PRODUÇÃO

A publicação de “Poder nos Trilhos” é mais um avanço do Poder360 em uma série de investimentos na produção audiovisual. Em 2026, o jornal digital já havia lançado seu 1º minidocumentário: “Memorial Brumadinho, uma visita“.

Poder nos Trilhos é um produto inédito, 100% produzido pela equipe de Novas Mídias do Poder360. As reportagens foram escritas, produzidas e apresentadas por Pedro Linguitte e Bárbara Pinheiro, com fotografia de Bruno Gaudêncio e Pedro Linguitte. A identidade visual é de Beatriz Castilho. A edição, animação e finalização ficaram a cargo de Bruno Gaudêncio, com supervisão da secretária de Redação adjunta Sabrina Freire e do diretor de Inovação Miguel Gallucci Rodrigues.

A minissérie foi gravada em 4 Estados brasileiros: São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais e Distrito Federal, com câmeras de cinema. Entre as autoridades entrevistadas está o ex-governador do Espírito Santo Renato Casagrande (PSB), que é pré-candidato ao Senado nas eleições de 2026.

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-infra/expresso-turistico-conheca-o-trem-em-sp-que-te-leva-aos-anos-50/

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