Risco de homicídio entre negros é 170% maior

Atlas da Violência 2026 mostra diferença racial nas mortes e avanço da violência contra minorias

Em 2024, foram registrados 32.820 assassinatos de pessoas negras, correspondendo a 77% do total de homicídios do país. A taxa verificada foi 27,3 mortes para cada grupo de 100 mil pessoas negras, o que significa 89,9 pessoas negras assassinadas por dia no país. Os dados são do Atlas da Violência 2026, divulgado nesta 3ª feira (26.mai.2026) pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e o FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública). Eis a íntegra (PDF – 6MB).

Entre não negros, categoria que abrange brancos, amarelos e indígenas, foram contabilizados 9.234 casos nesse ano, o que corresponde a uma taxa de 10,1 homicídios por grupo de 100 mil pessoas não negras. De acordo com o estudo, a taxa de mortalidade por homicídio entre negros no Brasil supera em 170,3% em relação à taxa registrada entre não negros.

Na série histórica compreendida entre 2014 e 2024, 435.551 pessoas negras foram assassinadas no Brasil, contra 132.156 vítimas entre não negros. Embora tenham sido registradas reduções nos registros de homicídios dos 2 grupos, a dinâmica foi desigual, segundo o Ipea e o FBSP. Entre não negros, a redução alcançou 38,9%, enquanto, entre negros, foi 21,7%.

De acordo com o Atlas, em termos de risco relativo, um cidadão negro tem 2,7 vezes mais chances de ser morto por homicídio do que um não negro. Em Alagoas, esse risco chega a ser 23,3 vezes maior. O segundo maior risco relativo foi registrado no Amapá (16,7), seguido por Sergipe (6,8).

COMUNIDADE LGBTQIA+

Segundo o estudo, as notificações de violência contra a população LGBTQIA+, em especial homossexuais e bissexuais, tiveram expansão de 5,5% de 2023 para 2024, totalizando 10.250 registros, enquanto as taxas contra pessoas transexuais e travestis cresceram 2,5%, atingindo 5.575 registros.

Os casos envolvendo homossexuais mostraram aumento de 4,8% entre 2023 e 2024, passando de 7.043 para 7.378, enquanto os referentes a bissexuais cresceram 7,4% (de 2.675 para 2.872).

Em 2024, 5.575 pessoas trans e travestis foram vítimas de violência notificada (+2,6% em comparação ao ano anterior), sendo que o grupo de travestis registrou crescimento de 4,1% nos casos em relação a 2023.

Entre 2014 e 2024, a notificação da violência contra homossexuais e bissexuais atingiu 212,7% de crescimento, apresentando maior intensidade entre bissexuais (781%) do que entre homossexuais (149,9%). No total, foram registrados 59.790 casos de violência contra pessoas homossexuais e bissexuais no intervalo pesquisado. No período, foram registrados 35.779 casos de violência contra pessoas trans e travestis no sistema de saúde brasileiro.

De 2023 para 2024, houve queda de 0,6% nos casos contra homens trans, que passaram de 1.307 casos para 1.299. Entre as mulheres trans, foi apontado crescimento de 3,6%, atingindo 3.594 casos em 2024, mais do que o dobro do registrado entre homens trans. Entre travestis, a expansão foi 4,1%, chegando a 682 registros no último ano disponível.

O Atlas mostra ainda que pessoas negras correspondem a 67% das vítimas travestis. O mesmo ocorre entre mulheres transexuais, para as quais pessoas negras representam 61% dos registros, contra 34% de pessoas brancas. No caso de homens transexuais, embora continuem predominando pessoas negras (55%), constata-se distribuição relativamente menos desigual em comparação aos demais grupos, com maior participação proporcional de pessoas brancas (42%).

INDÍGENAS

Com base nos dados apurados, o Atlas da Violência aponta para um cenário crítico de vulnerabilidade e de violência contra os povos indígenas no Brasil, marcado por disputas territoriais e crescimento alarmante de indicadores de letalidade e abusos contra mulheres.

Em 2014, a taxa de homicídios registrada entre indígenas (61,9 homicídios por 100 mil indígenas) equivalia a mais do que o dobro da nacional (30,2). Em 2019, o número caiu para 24,6 por 100 mil indígenas em 2019.

A partir de 2023, a taxa de homicídios entre indígenas voltou a crescer, atingindo 23,4. Em 2024, subiu novamente (24,6), em contraposição à queda na taxa nacional, que atingiu 20 por 100 mil habitantes, em 2024. Em termos relativos, o estudo indica que a taxa indígena em 2024 foi cerca de 22% acima da taxa nacional.

No estado do Amazonas, o número de homicídios de indígenas dobrou em um ano, passando de 36 casos, em 2023, para 73 em 2024, resultando em expansão de 123,4% na taxa de letalidade. Também na Bahia foi constatado crescimento de 84,6% dos assassinatos no mesmo período, como resultado de novos focos de conflito.

IDOSOS

No que diz respeito à população idosa, entre 2014 e 2024, os registros de violência interpessoal de idosos no sistema de saúde cresceram 226,3%, com 30.097 casos anuais. A questão racial também se destaca: homens idosos negros têm taxa de vitimização letal 1,7 vez maior que homens não negros da mesma idade. Entre as mulheres idosas, essa relação é de 1,3 vez.

De acordo com o estudo, enquanto o número de homicídios entre pessoas idosas diminuiu 13,3%, nos últimos 11 anos, a taxa por 100 mil idosos caiu 39,2%, muito em função do aumento da população idosa no Brasil.

A taxa de homicídio no país, em 2024, foi de 5,9 por 100 mil idosos, o que correspondeu ao homicídio de 2.007 pessoas com mais de 60 anos no país. Ao desagregar os números por grupos demográficos, considerando o sexo e a raça/cor, o levantamento destaca tendência de redução nas taxas por 100 mil habitantes para todos os grupos.

Em 2024, a taxa de homicídios entre homens negros idosos foi de 14,5 por 100 mil, representando redução de 35,0% em relação a 2014 (22,3 por 100 mil). Entre os homens não negros, a diminuição atingiu 45,4% no mesmo período (de 15,2 para 8,3 por 100 mil). Em relação às mulheres idosas, verificou-se que apresentam taxas significativamente menores, com as mulheres negras registrando 1,9 por 100 mil em 2024 (queda de 20,8%) e as mulheres não negras, 1,4 por 100 mil (queda de 44,0%).

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Este texto foi publicado originalmente pela Agência Brasil, em 26 de maio de 2026, às 10h05. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.

Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-seguranca-publica/risco-de-homicidio-entre-negros-e-170-maior/

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