Bloco Futebol Forte União adota modelo de antecipação de receitas e cede 20% dos direitos comerciais por 50 anos
O bloco FFU (Futebol Forte União) foi criado em julho de 2022 com a proposta de profissionalizar o esporte no país, produzir mais lucros para os times e reproduzir modelos bem-sucedidos como os existentes na Espanha (La Liga) e na Inglaterra (Premier League). Com sede no Rio de Janeiro, o grupo conta com 33 clubes distribuídos pelas 4 principais divisões do futebol nacional.
O bloco rivaliza com a Libra (Liga do Futebol Brasileiro), que tem o mesmo objetivo. Na prática, FFU e Libra funcionam como blocos de negociação: os clubes se juntam e autorizam o bloco a representar seus direitos comerciais do Campeonato Brasileiro. Os direitos incluem transmissão de TV aberta e fechada, streaming e pay-per-view, mas podem envolver também patrocínios, placas de publicidade, licenciamento de marcas, dados estatísticos, conteúdos digitais e outros ativos comerciais ligados ao campeonato.
Até a formação da Libra e da FFU, as negociações dos direitos comerciais do Campeonato Brasileiro de Futebol eram conduzidas de forma fragmentada. Em muitos casos, cada clube negociava individualmente seus contratos com emissoras e plataformas. O modelo concentrava força nos times de maior audiência.
A FFU resultou da fusão de 2 blocos preexistentes: o Forte Futebol e o Grupo União. Os membros fundadores e iniciais que assinaram a formação do ecossistema são:
América-MG
Athletico-PR
Atlético-GO
Avaí
Ceará
Coritiba
Cuiabá
Fortaleza
Goiás
Juventude
Hoje a composição da FFU abrange desde times da Série A até equipes das divisões de acesso:
Série A: Athletico Paranaense, Botafogo, Corinthians, Coritiba, Cruzeiro, Chapecoense, Fluminense, Internacional, Mirassol e Vasco.
Série B: América-MG, Athletic, Atlético-GO, Avaí, Botafogo-SP, Ceará, CRB, Criciúma, Cuiabá, Fortaleza, Goiás, Juventude, Londrina, Novorizontino, Operário, Ponte Preta, Sport e Vila Nova.
Série C: Amazonas, Figueirense e Ituano.
Série D: CSA e Tombense.
Financiamento da FFU
O sistema de financiamento da FFU é intrincado. Para viabilizar o aporte de R$ 2,6 bilhões na liga, a Sports Media Entertainment S.A., estruturou uma operação baseada na emissão de R$ 3 bilhões em debêntures –títulos de longo prazo. O controle da companhia é dividido entre 2 fundos: o LCP Private Equity 1 (70,97% das ações) e o LCP Private Equity 2 (29,03%). Eis as íntegras (PDF – 73 KB) e (PDF – 72 KB).
É difícil entender exatamente a origem do capital da FFU. Esse é um dos pontos de maior atrito do grupo com parte dos clubes. Documentos apontam que a estrutura abriga 5 investidores estrangeiros não residentes no Brasil e duas pessoas físicas cujas identidades permanecem protegidas por sigilo. Eis as íntegras do informe (PDF – 142 Kb) do último quadrimestre de 2025 da LCP Private Equity 1 e do informe (PDF – 142 Kb) do mesmo período da LCP Equity 2.
As debêntures foram adquiridas por 3 frentes principais –e mostram conexões com fundos e cotistas com problemas no mercado financeiro:
Miller Fundo de Investimento: Comprou R$ 757 milhões em debêntures, mas foi liquidado em agosto de 2025. O fundo era administrado pela Trustee DTVM, investigada na operação Carbono Oculto e registrada no nome de Maurício Quadrado, que tem ligações com o Banco Master (foi sócio do banco de setembro de 2020 a setembro de 2024 e comandou a área de investimentos da instituição). Eis a íntegra (PDF -113 kB) da carteira de fundos.
Opea Securitizadora: Atua na estrutura sem que seus cotistas finais tenham sido divulgados até o momento. Eis a íntegra (PDF – 149 kB) do documento da emissão de debêntures lastreadas na Sports Media pela Opea.
Sports Media Futebol Brasileiro: O veículo mais complexo, alimentado por diversos fundos, incluindo o SMF Fundo de Investimento, e o Sports Media Futebol Brasileiro Advisory, ambos geridos pela XP Allocation Asset Management, além do Exa Mídia Fundo, que tem entre seus cotistas o Astralo 95 —fundo multimercado com exposição a diferentes operações estruturadas, entre elas títulos privados emitidos pelo Banco Master. É também nessa frente que a agência LiveMode figura como cotista. Eis as íntegras das carteiras de fundos da Astralo 95 (PDF – 354 kB) e da Exa Mídia (PDF – 110 kB).
A LiveMode Serviços Digitais tem posição estratégica nessa operação. É a agência vendedora e também cotista direta do veículo Sports Media Futebol Brasileiro, participando da estrutura de investimento ao lado da LCP.
Nenhuma operação da FFU tem indícios de ilegalidade. As empresas são públicas, mas como se trata de um empreendimento privado, nem tudo precisa ser divulgado em detalhes. Aparentemente, parte dos clubes menores dessa liga não se deu conta de como seria o funcionamento do grupo quando assinaram os contratos.
Conflitos com clubes
A insatisfação é crescente entre os 18 clubes da Série B integrantes da FFU. Em comunicado conjunto de 6 de fevereiro de 2026, agremiações como América-MG, Ponte Preta, Ceará, Sport e Goiás expressaram o que chamam de “profunda preocupação” com a governança da liga. Leia a íntegra (PDF – 73kB)
Os clubes da Série B reclamam também de uma “asfixia” do fluxo de caixa. O Vila Nova alega ter vendido 15% de seus direitos enquanto projetava uma receita de R$ 5,5 milhões em 2025, mas o valor líquido teria sido corroído por taxas de intermediação, repasses de volta à Sports Media e o mecanismo de “earn-in” (ajuste de participação do investidor conforme metas de receita). Para honrar seus compromissos, a equipe afirma ter precisado de um socorro financeiro de R$ 2,8 milhões proveniente de um fundo de subsídio da Série A.
Outra queixa é a concentração de funções da agência comercial LiveMode. Dirigentes dos clubes argumentam que há conflito de interesses na atuação tripla da empresa: a LiveMode atua como agência que define os preços de venda, como cotista do fundo que empresta o dinheiro aos clubes e como dona da CazéTV, que transmite as partidas.
Na visão dos clubes, essa estrutura permite que a empresa negocie os direitos com ela mesma, priorizando a valorização de sua própria plataforma de streaming em vez de buscar o maior valor de mercado para os times.
Em resposta enviada ao Poder360, o Condomínio Forte União (CFU), estrutura jurídica criada para viabilizar a negociação coletiva de direitos de transmissão, afirma que a negociação durou meses e “teve o mesmo nível de escrutínio de fusões e aquisições feitas em empresas de capital aberto”. O CFU também declara que, além da representação coletiva, muitos clubes tiveram seus advogados internos, executivos e diretores estatutários discutindo cláusula.
Em relação às críticas contra a atuação da LiveMode, a CFU que a contratação da empresa como agência comercializadora dos direitos da Série A foi aprovada pelos clubes por unanimidade e que “o contrato assinado pelos clubes é com o Google, uma das maiores empresas em valor de mercado do mundo, tendo este optado por distribuir o conteúdo via CazéTV”.
A avaliação da liga é de que há um certo descontrole de parte dos clubes, que nunca atuaram profissionalmente como empresas e agora têm dificuldades para atuar nas condições que eles próprios aceitaram.
CBF de volta
Enquanto as ligas enfrentam impasses internos e deserções, a CBF recupera espaço institucional. A confederação passou por um longo período de instabilidade política e jurídica, marcado pelo afastamento sucessivo de presidentes desde 2012.
Ricardo Teixeira foi banido pela Fifa em abril de 2019 num caso em que houve uma investigação sobre suborno. José Maria Marin (1932-2025) foi preso em maio de 2015, no escândalo conhecido como “Fifagate”. Marco Polo Del Nero foi banido pela Fifa em abril de 2018 sob a alegação de ter cometido corrupção. Rogério Caboclo foi afastado da presidência da CBF em junho de 2021, depois de ser citado num caso de assédio moral e sexual (ele negou ter cometido esses delitos). Mais recentemente, em 15 de maio de 2025, Ednaldo Rodrigues também foi removido do cargo por decisão do TJ-RJ, tornando-se o 5º presidente afastado nos últimos mandatos.
A chegada de Samir Xaud à presidência da CBF, em maio de 2025, prometendo uma gestão estável, culminou no avanço da CBF sobre a fragilidade das ligas. Xaud tem criticado abertamente os resultados comerciais dos blocos, afirmando que “alguns valores negociados não foram bons”. Cita, em específico, o contrato da Série B. O posicionamento atraiu clubes que se sentiam desamparados, como São Bernardo e Náutico, que procuraram a CBF para vender seus jogos de forma independente, sob a chancela da confederação. Em evento realizado em 7 de maio de 2026, em Fortaleza, Xaud disse: “Acreditamos que não existe liga sem a CBF, que é quem cuida e zela pelo futebol brasileiro”.
O dirigente tem dito que a dificuldade da Libra e da FFU para construir consenso demonstra a necessidade de uma organização mediadora forte. Em 6 de abril de 2026, Xaud organizou uma reunião, na sede da CBF, com os 40 clubes das Séries A e B. A confederação apresentou um estudo sobre a adoção de uma liga única e ofereceu um cronograma institucional que os blocos não conseguiram estabelecer. A CBF fixou um prazo até julho de 2026 para receber propostas sobre o tema, com a meta de oficializar o estatuto de uma nova liga sob sua tutela até o fim deste ano.
O problema maior desse modelo oferecido pela CBF é como os clubes que assinaram contratos de longo prazo com as ligas fariam para romper esses compromissos. Há obrigações financeiras a serem cumpridas e a solução não será trivial.
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Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-sportsmkt/saiba-como-funciona-e-quais-sao-os-clubes-da-ffu/