O senador diz que o país pode repetir o modelo exportador de commodities caso não invista em tecnologia
Em meio ao debate sobre a regulamentação da exploração de metais raros no Brasil, tema que também apareceu nas conversas da viagem do presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT) aos Estados Unidos, o senador Marcos Pontes (PL-SP) fez um alerta sobre a capacidade do país no setor.
Para o congressista, o país corre o risco de repetir erros do passado e acabar reduzido ao papel de mero exportador desses materiais diante das limitações atuais de sua estrutura industrial e tecnológica.
“O país não está produzindo estrutura para beneficiar esse material aqui e pode acabar tratando como a nova soja”, disse o senador em entrevista ao Poder360. Assista (37m09s):
Hoje, os 3 principais produtos da pauta exportadora brasileira são commodities: soja, petróleo e minério de ferro. Juntos, respondem por mais de 30% de tudo o que o país exporta. No total, as commodities representam mais de 60% das exportações brasileiras.
O senador Marcos Pontes, que comandou o Ministério da Ciência e Tecnologia de 2019 a 2022, acompanha o tema com preocupação. De forma contida —Pontes é polido e mantém o mesmo tom de voz mesmo ao fazer críticas—, ele questiona a condução da pasta sob sua sucessora, Luciana Santos. “Alguns projetos desapareceram e talvez não seja culpa dela”, afirma. Ele aponta o problema fiscal como principal questão do país. E também a necessidade de escolher as prioridades certas.
Defensor da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, o senador Marcos Pontes afirmou que busca municiá-lo com informações sobre o setor. Segundo ele, o investimento em ciência e tecnologia é uma saída tanto para ampliar a exploração de recursos como os metais raros quanto para reduzir a dependência brasileira de commodities na pauta exportadora.
“Os investimentos no setor de ciência e tecnologia sempre foram considerados acessórios, mas não são. Eles são estratégicos e deveriam estar no topo”, declarou.
Para o senador Marcos Pontes, a instabilidade fiscal reduz investimentos e impede que ciência e tecnologia avancem como prioridades estratégicas do país
Leia trechos da entrevista:
Poder360 – O que foi mais desafiador, representar o Brasil no espaço ou ter espaço na política?
Marcos Pontes – Os 2 momentos realmente desafiam, mas com perspectivas diferentes. Quando você está numa missão espacial, o que está em em risco é sua vida, um risco bastante alto. Você não pode errar. Na política é uma perspectiva diferente. Eu represento 11 milhões de pessoas, não posso fazer algo contrário aos interesses dos que confiam na gente.
O senhor tem um papel ativo na comissão de ciência e tecnologia do Senado e propõe avanços em temas como medicina nuclear no SUS, que tem um custo. Como viabilizar essas ideias com um cenário fiscal de cortes?
Todos os países desenvolvidos hoje colocaram como meta o investimento consistente e inteligente nas áreas de educação, ciência, tecnologia e inovações, além de um ambiente de negócios favorável ao desenvolvimento de empresas. O problema é que ao longo da história, os investimentos em ciência e tecnologia sempre foram considerados acessórios, e não estratégicos, como deveriam. Investindo, gera ganho em todos os outros setores.
A isso se soma a chamada “fuga de cérebros”. O que falta para o Brasil reter talentos científicos ou atraí-los de volta?
Aumentar investimentos no setor e nas infraestruturas adequadas para o desenvolvimento de ideias. E também o orçamento adequado nas universidades, onde é feita a maior parte da pesquisa básica do país. Precisa-se tratar a universidade da forma correta. Isso inclui as estruturas de pesquisa para pesquisas práticas, com resultado palpável e inovador. À medida que você aumenta também a estrutura de governança, começa a ter melhores condições para os pesquisadores ficarem no Brasil e desenvolverem ideias.
Um dos temas do momento são os metais raros, cuja regulamentação está em curso. O país está preparado para explorar o potencial desses minerais ou corre o risco de repetir o modelo de exportador de commodities?
Infelizmente, corremos esse risco de repetir a fórmula das commodities. Nós precisamos ter a visão política estratégica de utilizar ao máximos os recursos que nós temos. O país não está produzindo estrutura para beneficiar esse material aqui e pode acabar tratando como a nova soja.
Há uma barreira entre academia e mercado. Como romper esse muro?
É preciso incentivar a inovação dentro da academia e aproximar os centros de pesquisa dos setores produtivos. Quando universidades, institutos nacionais de ciência e tecnologia e empresas trabalham de forma integrada, cada um dentro de sua área de excelência, você consegue conectar pesquisa, desenvolvimento e aplicação prática.
Como está a condução da ciência no governo do Lula?
Eu gostaria que a gente tivesse mais desenvolvimento. Pelo país. Eu deixei no ministério uma série de projetos encaminhados. A ministra pegou esses projetos, alguns deles tocou para frente, outros cancelou ou talvez não teve orçamento suficiente. Eu acho um problema grave esse sistema em que, a cada 4 anos, você muda completamente a direção do ministério. Você perde dinheiro, tempo, energia e pessoal, já que são objetivos de longo prazo. A gente tem que ter interesse mútuo, não importa se sou da oposição ou do governo.
Marcos Pontes afirma que tem municiado a campanha de Flávio Bolsonaro com informações sobre ciência e tecnologia e diz que gostaria de voltar a comandar o ministério da área
Qual será a sua parte na campanha de Flávio Bolsonaro?
Estamos trabalhando em um plano para a área da ciência e tecnologia e nas áreas de comunicação. Ele não precisa entender de todas as áreas, ele tem a gente para isso. Vamos trazer a melhor informação para ele.
Caso ele seja eleito, tem ambição de voltar ao ministério?
Certamente. Eu continuaria o trabalho que estava fazendo e que acredito ter que voltar a ser feito. Mas há outras áreas que eu gostaria de auxiliar. A decisão é sempre do presidente.
Como o Brasil pode se inserir no mundo da IA e das tecnologias de ponta?
O Brasil precisa estar “up to date” com o que está acontecendo no planeta. E nós temos as condições para isso. É importante que nós tenhamos centros de excelência que conectem universidades, institutos federais e centros de pesquisa. Dessa forma, ajudamos no desenvolvimento de inovação no país. Precisamos do investimento. O que o governo tem que fazer é se preparar, reduzir impostos e taxas e cortar gastos. Não precisa de 40 ministérios. O importante é ter qualidade de serviço. Não vemos o governo falar de cortar gastos, precisa ter um controle fiscal maior. Aí teremos que priorizar. Nesse ponto acredito que a ciência tem que ter o papel de destaque.