Senador do PL estrutura coordenação central e divide equipe em 4 frentes; pré-campanha já soma 22 palanques estaduais
A pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência ganhou uma estrutura formal e definida. Principal nome da oposição contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador organizou um time com comando político centralizado no senador Rogério Marinho (PL-RN) e dividido em 4 frentes estratégicas: programa de governo, jurídico, infraestrutura e comunicação.
Marinho, escolhido para a coordenação política, é tratado como peça-chave da engrenagem. Com trânsito consolidado em diferentes campos –do Congresso ao setor produtivo, incluindo o funcionalismo público–, o senador potiguar tem sido responsável por dar capilaridade à candidatura. Em quase 6 meses de pré-campanha, ajudou a estruturar ao menos 22 palanques estaduais, número superior ao que Lula e Jair Bolsonaro conquistaram no mesmo estágio de suas campanhas em 2026 e 2022.
Apesar da centralidade, Marinho evita o rótulo de “posto Ipiranga” –expressão usada por Bolsonaro em 2018 para se referir a Paulo Guedes como fiador da economia. O desenho atual, na prática, não reproduz uma figura com poder concentrado equivalente ao do ex-ministro. A campanha optou por diluir atribuições em áreas específicas.
Estrutura da campanha
O núcleo político liderado por Marinho coordena 4 subdivisões com responsáveis definidos:
Programa de governo — Eduardo Cury
Ex-deputado federal, Cury tem perfil técnico e trânsito entre gestores públicos e especialistas. É visto como articulador qualificado para sistematizar propostas e dialogar com diferentes correntes de pensamento econômico e administrativo;
Jurídico — Maria Claudia Bucchianeri
Ex-integrante do Tribunal Superior Eleitoral, Bucchianeri é considerada uma das advogadas mais respeitadas de Brasília, com atuação destacada e bom relacionamento em diversas cortes superiores;
Infraestrutura — Vicente Santini
Santini atuou em funções estratégicas no governo federal e tem histórico de interlocução com operadores do setor de obras e concessões, sendo responsável por desenhar propostas de expansão logística;
Comunicação — Marcello Lopes
Conhecido como “Marcelão”, é amigo próximo de Flávio e atua como homem de confiança no dia a dia da campanha, apesar de o comando formal da área ainda não estar totalmente definido.
Programa & memória
No núcleo de programa de governo, a equipe já realizou cerca de 80 reuniões desde setembro do ano passado. Participam nomes do mercado, da academia e da política. O conteúdo vem sendo mantido sob reserva.
O motivo é estratégico. Há uma memória ainda presente da eleição de 2014, quando Marina Silva (Rede-SP) passou a detalhar propostas na campanha e virou alvo de uma ofensiva publicitária coordenada pelo marqueteiro João Santana, então trabalhando para o PT.
Uma das peças mais marcantes explorava a proposta de autonomia do Banco Central com tom alarmista, associando a medida a um cenário de crise social. O material mostrava, por exemplo, um prato sendo retirado de uma criança, em um ambiente de escassez crescente.
Passados mais de 10 anos, a autonomia do Banco Central foi efetivada no governo Bolsonaro e mantida na gestão atual. Este é o primeiro governo após a medida ser efetivada e caminha para entregar a menor inflação acumulada em um único governo desde a redemocratização —indicador diretamente ligado à missão institucional da autoridade monetária.
O contraste reforça, entre aliados de Flávio, a avaliação de que o tema exige cautela na arena eleitoral. Mesmo propostas potencialmente eficazes tendem a ser tratadas com discrição, diante do histórico de exploração política em campanhas do PT.
Estratégia jurídica mais ativa
No campo jurídico, a campanha trabalha com um levantamento detalhado de precedentes eleitorais, sobretudo da disputa de 2022. A ideia é manter um arsenal pronto para uso imediato.
A postura marca uma diferença relevante em relação à estratégia de Jair Bolsonaro em 2022, quando se apresentou como outsider e acionou pouco a Justiça Eleitoral contra Lula. Flávio, ao contrário, se posiciona como político tradicional e deve adotar atuação mais ativa nas cortes, em linha com a estratégia utilizada por Lula em campanhas recentes.
Infraestrutura como eixo de desenvolvimento
Na área de infraestrutura, as conversas envolvem operadores do setor e especialistas. O objetivo é estruturar um plano robusto de expansão, com foco em modernização e retomada de obras paradas.
A avaliação interna é que há espaço para transformar projetos interrompidos em ativos econômicos relevantes, com impacto direto sobre crescimento e emprego.
Comunicação ainda em definição
O núcleo de comunicação é o único que ainda apresenta indefinição formal. Mesmo assim, Marcello Lopes tem conduzido a operação cotidiana.
Partiram de sua equipe algumas das linhas narrativas já testadas em pesquisas qualitativas. Entre elas, o slogan “meu amigo Flávio”, que busca aproximar o candidato do eleitor.
Outro eixo é a comparação simbólica com Lula. Em grupos qualitativos, o presidente é associado a um Chevrolet Opala –um ícone do passado, que era objeto de desejo, mas visto hoje como caro e pouco prático para o dia a dia.
Flávio, por sua vez, aparece como uma alternativa mais moderna, ainda que cercada de incertezas sobre o futuro, em analogia a veículos novos como o BYD.
A leitura da campanha é que o desafio será transformar essa percepção de “novo com dúvida” em “novo com confiança” –sem perder o apelo de renovação que hoje marca a imagem que o senador tem construído.