Brasil lidera na América Latina, mas enfrenta diferença de escala e maturidade frente ao mercado norte-americano
Os Estados Unidos concentram a maior parte da infraestrutura global de data centers, com 4.204 unidades –equivalente a 37,2% das 11.296 instaladas no mundo. Em solo norte-americano há 8 vezes mais data centers do que no Reino Unido, 2º colocado no ranking global com 524 unidades. Os dados são do Data Center Map.
A liderança é reflexo de um ecossistema altamente desenvolvido de computação em nuvem, sustentado por grandes provedores como Amazon, Microsoft e Google. As big techs operam em escala global e definem a localização dos investimentos em infraestrutura a partir de critérios como disponibilidade de energia, conectividade e proximidade com grandes centros de consumo de dados.
Brasil na corrida global de infraestrutura digital
O mercado de tecnologia norte-americano apoia-se em uma infraestrutura madura de redes, energia e serviços digitais, o que permite a expansão acelerada da capacidade computacional voltada principalmente para IA (inteligência artificial), processamento em nuvem e armazenamento massivo de dados.
No contexto nacional, o Brasil ainda enfrenta entraves estruturais e tributários que tornam o custo de processamento local menos competitivo que o dos EUA, segundo especialistas ouvidos pelo Poder360,
O Brasil abriga 205 data centers em operação e responde 42% dos investimentos do setor na América Latina. O volume é cerca de 3 vezes maior que o do Chile, 2º colocado no ranking regional, com 66 unidades. O pódio é completado pelo México, com 65.
Embora o país possua uma vantagem ambiental estratégica –com uma matriz energética até 90% renovável e uma pegada de carbono cerca de 10 vezes menor que a dos EUA —, o setor sofre com a falta de previsibilidade regulatória e tributária.
O vice-presidente sênior da Scala Data Centers, Luciano Fialho, e o diretor de educação da ABDC (Associação Brasileira de Data Center), Alexandre Kontoyanis, concordam que o Brasil pode perder uma grande oportunidade de mercado nos próximos anos.
Isso porque grandes provedores globais planejam investir cerca de US$ 930 bilhões em infraestrutura de IA nos próximos 6 anos, mas o Brasil corre risco de perde essa janela por não converter potencialidades, como o desperdício de cerca de 20% da sua geração elétrica, em capacidade computacional real.
Para os especialistas, sem “regras claras” e com a indefinição sobre o Redata —regime especial proposto para o setor de data centers que previa incentivos fiscais e desoneração de impostos de equipamentos— o ambiente regulatório se torna instável para investimentos de longo prazo.
Nesse cenário, o país, que hoje processa 60% de seus dados no exterior, pode deixar de ser protagonista para se tornar apenas um “passageiro por impulso” na nova revolução industrial digital, afirma Kontoyanis.
Segundo Fialho, a infraestrutura digital passou a ocupar papel equivalente ao de setores como energia e saneamento, tornando-se base da economia.
Sudeste concentra infraestrutura; Fortaleza atua como hub
A distribuição dos data centers segue a geografia econômica do país. O Sudeste reúne 128 unidades, mais da metade do total nacional. São Paulo lidera entre as cidades, com 59 unidades, seguido por Campinas (26) e Rio de Janeiro (24).
Fora do eixo Rio-São Paulo, Fortaleza abriga 12 unidades e se destaca como principal polo do Nordeste. Isso se dá por sua localização estratégica: por ser a capital mais próxima da Europa e dos EUA, a cidade funciona como hub de distribuição de dados via cabos submarinos.
“Lá é muito mais um ramp de distribuição de dados do que efetivamente um centro de processamento”, afirma Fialho.
Essa posição reduz custos de transmissão, melhora a velocidade das conexões internacionais e atrai investimentos em infraestrutura digital, consolidando a cidade como porta de entrada do tráfego global de dados no Brasil.
Baixa latência de dados explica liderança de São Paulo
A predominância em São Paulo, com 96 das 205 unidades do país, está ligada à necessidade de baixa latência —o tempo de resposta entre o processamento dos dados até chegar no usuário. Em serviços financeiros e aplicações em tempo real, milissegundos definem a viabilidade de um negócio.
Segundo Fialho, a infraestrutura segue a concentração de usuários e dados: “Os primeiros data centers vão chegar onde há maior concentração demográfica e de dados”.
Kontoyanis afirma que em mercados como a bolsa de valores, a velocidade pode representar bilhões de recursos movimentados, o que exige proximidade física com os servidores.
A concentração em São Paulo, porém, enfrenta limites. Fialho aponta gargalos no fornecimento de energia, o que deve impulsionar a expansão do mercado de data centers para regiões como Centro-Oeste e Sul e para o Estado de Minas Gerais.
Infraestrutura digital entra no debate sobre soberania
O avanço dos data centers no território nacional deixou de ser apenas um tema técnico para se tornar uma questão de estratégia e segurança nacional. Com o aumento das tensões geopolíticas, como as dos conflitos no Oriente Médio, onde infraestruturas digitais se tornaram alvos físicos de ataques, a necessidade de processar dados localmente tornou-se urgente.
A especialista Andressa Michelotti, doutoranda pela UFMG e integrante do Governing the Digital Society, afirma que o debate vai além da economia. Segundo ela, essas estruturas são ferramentas de hard power –ativos estratégicos que ampliam a capacidade de influência e poder de um país no cenário internacional.
Cerca de 60% dos dados brasileiros são processados fora do país, sujeitos a legislações estrangeiras. Para Fialho, o Brasil precisa criar condições para desenvolver sua própria infraestrutura e reduzir a dependência externa.
Veja abaixo um infográfico da distribuição de data centers em território nacional:
Fonte: https://www.poder360.com.br/poder-infra/eua-dominam-37-da-infraestrutura-global-de-data-centers/